Scaloni: o interino que foi ficando, foi ficando e agora pode ficar de vez na história da Argentina
Durante muito tempo, Scaloni parecia estar apenas esquentando o banco à espera de um nome mais forte, mas, com humildade e pés no chão, conseguiu entregar à Argentina o que técnicos mais badalados não haviam feito: condições mínimas para Messi e companhia brilharem
Em 2019, a seleção argentina parecia abandonada. Disputou a Copa América sediada no Brasil com uma comissão técnica inexperiente e provisória. Lionel Messi nunca pareceu tão ilhado, mesmo entre alguns escudeiros de longa data, como Sergio Agüero e Ángel Di María. Nunca pareceu tão distante de ter condições reais de conquistar a Copa do Mundo. Havia passado dos 30 anos, não havia um simulacro de trabalho coletivo em vigor, ninguém sabia qual era o plano ou sequer se existia um, e o desastre na Rússia sob o comando de Jorge Sampaoli havia deixado cicatrizes profundas. Seria necessária uma revolução dramática para a Argentina chegar ao Catar como uma das candidatas ao título, e foi quase um desafio à defesa do bom planejamento que ela tenha acontecido sob o comando daquela mesma comissão técnica inexperiente e provisória.
Falamos tanto da necessidade de conduzir um ciclo de Copa do Mundo baseado em decisões ponderadas e coerentes, organização e visão de médio-longo prazo, e tudo isso começa pela escolha do treinador. O futebol, porém, às vezes dá risada da nossa cara, e basta que a pessoa certa esteja no lugar certo na hora certa. Foi o que aconteceu com a Argentina, e Lionel Scaloni não tem nada a ver com a condução bagunçada dos bastidores. Ele fez a parte dele, muito melhor do que qualquer um poderia imaginar, e se transformou no improvável treinador que pode entregar ao país o seu primeiro título de Copa do Mundo em 36 anos, depois de ser o improvável treinador que quebrou o jejum de 28 anos sem qualquer conquista. No fim, não estávamos tão errados porque foi necessário um bom trabalho, feito pelo técnico. Mas a AFA não pode dizer que sabia o que estava fazendo quando o colocou no comando do grande sonho de Messi.
A tragédia da seleção bicampeã mundial desde pelo menos o fim da Copa de 2014 é que alguns dos melhores técnicos do mundo são argentinos: Diego Simeone, Mauricio Pochettino, Marcelo Gallardo ou mesmo nomes que não tiveram tanto sucesso em clubes, mas fizeram trabalhos muito competentes em seleções, como Ricardo Gareca e Jorge Sampaoli. A questão sempre foi convencê-los a embarcar na grande aventura que é receber ordens da AFA, em um futebol de seleções que não é a prioridade dos treinadores de elite. A tragédia maior ainda da Argentina foi que, quando conseguiu um desses profissionais, o resultado final foi uma das suas piores campanhas na história dos Mundiais e entre as mais bagunçadas.
O estado de espírito da Argentina no dia seguinte à eliminação para a França nas oitavas de final em 2018 era de desolação porque não parecia haver uma solução, se nem o técnico mais próximo do melhor que eles poderiam contratar havia dado certo. Quando Scaloni foi elevado do time sub-20 interinamente, auxiliado por Pablo Aimar, falava-se em nomes como Ricardo Gareca ou os retornos de Alejandro Sabella – o que na era Messi melhor conseguiu organizar taticamente a seleção – e José Pékerman. O favorito de Chiqui Tapia, presidente da AFA, era Mauricio Pochettino, ainda no comando do Tottenham, um sonho muito distante. A ideia era que Scaloni apenas terminasse 2018, com meia dúzia de amistosos. Depois, conduziu a Copa América, sempre com a sensação de que estava esquentando o banco de reservas para um nome mais forte que chegaria a qualquer momento.
Natural de Santa Fé, Scaloni começou a carreira no Newell’s Old Boys e passou pelo Estudiantes antes de chegar à Europa para defender o Deportivo La Coruña. Era um meio-campista defensivo ou lateral direito difícil de ser driblado que sempre jogava com muita determinação. Passou oito temporadas e meia no La Coruña, com uma participação periférica no título espanhol de 1999/2000. Em 2001/02, fez apenas uma partida na campanha vitoriosa na Copa do Rei: a final contra o Real Madrid. Foi o clube da sua vida, o qual defendeu 275 vezes e que tem o sonho de um dia comandar, quando sua carreira começar a se afastar do futebol de seleções. “Vou treiná-lo. Tenho isso muito claro. Foi minha segunda casa. Sem o Depor, não teria sido sequer 10% do que sou”, disse, em entrevista à rádio espanhola Cadena Cope durante o Mundial.

A sua história na seleção argentina é muito curta. Fez apenas sete jogos entre 2003 e 2006. É até curioso que estivesse no radar de Pékerman para a Copa do Mundo da Alemanha. Recebeu a dica de que precisaria sair do Deportivo La Coruña para ganhar mais tempo em campo. Foi o que fez em janeiro do ano do torneio, quando arranjou um empréstimo ao West Ham por seis meses. “José Pékerman me deixou claro que, se eu jogasse pouco no Deportivo La Coruña, ficaria fora. Fui ao West Ham para jogar de lateral direito e ele acabou me convocando”, explicou. Uma das poucas partidas de Scaloni pela seleção, e sua única na Copa, foram as oitavas de final contra o México. Nicolás Burdisso era o titular na lateral direita, mas se machucou no último jogo da fase de grupos contra a Holanda. Scaloni disputou os 120 minutos da classificação sul-americana. Para as quartas contra a Alemanha, Pékerman preferiu Fabricio Coloccini.

Scaloni tinha 28 anos quando a Argentina foi eliminada da Copa do Mundo nos pênaltis, mas a sua carreira ainda estava longe do fim, embora nunca mais tenha decolado. Após sair do Deportivo La Coruña, teve uma temporada como titular no Racing Santander e foi contratado pela Lazio. Passou um ano e meio emprestado ao Mallorca, antes de emendar quatro campanhas pelo clube da capital italiana, geralmente como reserva. Em janeiro de 2013, saiu para a sua última casa, a Atalanta, na qual ficou até 2015, quando finalmente pendurou as chuteiras aos 37 anos. A transição para a nova carreira foi rápida. Em outubro de 2016, foi incorporado à comissão técnica de Sampaoli no Sevilla, como auxiliar técnico e analista, e o acompanhou à seleção argentina no ano seguinte.

Parte do sucesso de Scaloni durante esse último ciclo é creditado ao que ele aprendeu durante a caótica visita da Argentina à Rússia, onde houve rumores de um motim dos jogadores e acusações de que as escalações de Sampaoli passaram a ser influenciadas pela opinião do elenco. Uma imagem de Javier Mascherano aparentemente orientando o técnico durante um treinamento não ajudou a rechaçar os boatos. A mudança para um 4-3-3 simples para a partida decisiva contra a Nigéria teria sido para satisfazer os atletas – e no fim deu certo. A permanência de Sampaoli seria insustentável, mas Scaloni ficou na Federação Argentina, inicialmente para comandar o time sub-20 ao lado de Pablo Aimar em um torneio de categoria de base. Diante da dificuldade de encontrar um substituto, a dupla foi promovida ao time principal interinamente. Eles reforçaram a comissão técnica com outros nomes históricos, como Roberto Ayala e Walter Samuel, um grupo de trabalho que passou a ser muito elogiado pelos jogadores.
Além das lições russas, o grande mérito de Scaloni talvez tenha sido a humildade. Nunca pareceu interessado em convencer as pessoas de que não era mesmo um profissional inexperiente que estava aprendendo a ser técnico e se concentrou em fazer o melhor possível, com mente aberta a mudanças. “Melhoramos como comissão técnica porque começamos com uma ideia e nos demos conta que nossos jogadores queriam jogar outra coisa. Há um caminho a seguir. Você pode perder uma partida chave, mas não é por isso que vai jogar fora um trabalho de quatro ou cinco anos”, afirmou, à ESPN local, em junho, quando já havia conduzido quase todo um ciclo que produziu resultados inesperados.
A primeira ordem do dia era renovar a seleção argentina. A convocação de março de 2019, a última antes da Copa América, trazia o retorno de Lionel Messi, que tirou uns meses da seleção após a Copa do Mundo, e também vários rostos novos. Oito jogadores que nunca haviam defendido a Argentina. Medalhões como Sergio Agüero, Gonzalo Higuaín e Mauro Icardi não foram chamados. Esse foi o início de um processo importante que Scaloni conduziu porque começou a garimpar talentos que se tornariam importantes durante os próximos quatro anos. Aquela lista, por exemplo, contava com Gonzalo Montiel, Lisandro Martínez e Rodrigo de Paul. Outros nomes apareceriam durante o ciclo, como Emiliano Martínez, Cristian Romero, Alexis Mac Allister e, mais recentemente, Enzo Fernández e Julian Álvarez, todos com papéis importantes.

Ao anunciar aquela convocação, adotou o discurso pés no chão que não mudaria nem em meio a uma longa sequência de invencibilidade ou após conquistas importantes. “Há uma Copa América adiante e temos que admitir: atualmente não somos uma potência mundial e custa competir com as grandes seleções do mundo, mas sei que com nossa cultura podemos fazer isso. Não podemos garantir que vamos ser campeões, essa é a realidade. É complicado, temos que apelar à humildade. A ideia é trabalhar o futuro, que todos se sintam participantes e todos saibam que podem vestir a camisa albiceleste”, disse.
E foi o que se viu mesmo: a Argentina fez um jogo honesto contra o Brasil na semifinal, mas, ao fim de um torneio fraco, a distância para o grande rival não foi animadora. Havia ficado claro que aquele time ainda estava muito longe do necessário para ser um candidato sério à Copa do Mundo. Mais seguro no cargo, Scaloni arregaçou as mangas e foi ao trabalho.
Existe um limite à influência de um técnico de seleções na qualificação do seu elenco. Em última instância, ele depende do material humano disponível. O que pode fazer é estar aberto a integrar novos nomes e fazê-lo de uma maneira segura. Próximo de Pékerman, um nome lendário da formação de jogadores da Argentina, Scaloni soube fazer isso. Ele conseguiu formar uma estrutura que, embora simples, deu uma plataforma para o talento florescer. O de Lionel Messi, principalmente, mas também de outros jogadores como Giovani Lo Celso, uma ausência sentida no Catar, ou Lautaro Martínez. A ascensão de jogadores defensivos ajudou a formar uma retaguarda segura. O meio-campo misturou pegada e qualidade, com De Paul e Leandro Paredes, com Di María, Messi e Lautaro livres para decidir na frente.
Principalmente, Scaloni e seus companheiros de comissão técnica conseguiriam aliviar o ambiente que havia ficado muito pesado durante a Copa do Mundo da Rússia. A leveza com que Messi começou a jogar, principalmente depois de conquistar o tão sonhado título na Copa América de 2021, foi visível. Parece haver uma missão coletiva clara de correr por ele em troca do que pode fazer com a bola nos pés, uma harmonia entre diferentes papéis e responsabilidades. Em um futebol de seleções que não permite ideias táticas muito sofisticadas, pelas limitações do trabalho, essa união somada a um mínimo de organização pode levar um time muito longe. No caso da Argentina, levou-a ao seu primeiro título em 28 anos e a uma sequência recorde ao país de 36 jogos de invencibilidade, além de uma vitória marcante sobre a Itália na Finalíssima entre os campeões da Europa e da América do Sul em Wembley.

“Ele é quem começou tudo isso”, elogiou De Paul, em entrevista à TyC Sports, após a renovação do contrato de Scaloni até 2026. “Para nós, é muito importante. É a cabeça deste time. Construiu tudo basicamente desde o zero. A verdade é que é um dos principais artífices de tudo que foi conquistado. É um grande técnico e uma grande pessoa. Quando o processo começou, havia muitas dúvidas. Algumas eram normais porque muitos de nós éramos novos, a comissão técnica também. Outras foram um pouco danosas, mas acho que aos poucos fomos construindo alguma coisa. Conquistamos dois títulos, temos o recorde de invencibilidade da história do nosso país”.
A Argentina chegou ao Catar sem perder há 36 jogos. Estava a um de igualar a maior marca, que pertence à Itália de Roberto Mancini. A goleada sobre os Emirados Árabes, em amistoso uma semana antes da estreia, foi a 50ª partida de Scaloni à frente da seleção, com 33 vitórias, 13 empates e apenas quatro derrotas, 98 gols a favor e 27 contra. Foram 96 jogadores convocados ao longo do ciclo, segundo levamento da El Gráfico. Messi, com 26 gols, foi o artilheiro da era Scaloni pré-Copa do Mundo, seguido por Lautaro Martínez, com 21. O craque do Paris Saint-Germain também lidera a tabela de assistências, com 10, à frente de Lo Celso, com nove, e De Paul, com sete. Um panorama bem claro do que foi o trabalho de Scaloni rumo ao Catar.
A cabeça fria de Scaloni foi importante desde o começo da campanha. A derrota para a Arábia Saudita quebrou a sequência de invencibilidade, assustou todo mundo, deixou a Argentina em uma situação delicada, mas não o levou ao desespero. “Eu era o primeiro que estava preparado para isso. Temos que seguir igual e encarar o próximo jogo da mesma forma que pensávamos antes da Arábia Saudita. O raro era passar mais de 30 jogos sem perder. Não vamos mudar nossa maneira de jogar por causa do que aconteceu. Temos que virar a página, como fizemos, e pensar que vamos ganhar e nada mais. Temos pensado em jogar da mesma maneira. Os intérpretes, os jogadores para isso, vamos decidir no último treinamento”, disse.

É natural na Copa do Mundo que os times mudem das primeiras rodadas às fases finais, mas Scaloni assumiu o risco de uma permanente transformação. Um risco porque naturalmente seria culpado pela opinião pública se desse muito errado. O balanço acabou sendo positivo. Ele mudou cinco jogadores para enfrentar o México e promoveu Enzo Fernández a titular contra a Polônia. A novidade para enfrentar a Austrália, o retorno de Papu Gómez, não foi tão bem sucedida, mas o esquema com três zagueiros ajudou a castigar a Holanda nas quartas de final. Contra a Croácia, tentou rechear o meio com quatro volantes. Se não ganhou por causa disso, foi pelo menos a ideia certa e agora ele tem que preparar a última escalação que o separa da imortalidade no próximo domingo.
Quando Messi se aposentou brevemente da seleção argentina em 2016, a dor das três derrotas consecutivas em finais foi acompanhada por críticas à organização do time nacional, direcionadas mais à AFA do que a uma comissão técnica específica. Passava a mensagem de que tudo estava errado e ele simplesmente não aguentava mais. Muita coisa aconteceu desde então, vieram técnicos diferentes, mas o ambiente nunca esteve tão bom quanto agora, e Scaloni, merecidamente, é elogiado pelo seu capitão em público.
“Este grupo é muito inteligente. Sabe ler os momentos de cada jogo. Scaloni disse: saber sofrer quando temos que sofrer e ter a bola quando temos que tê-la. Nós temos uma comissão técnica muito boa, que não deixa nada ao azar. A leitura que fazem de cada partida acaba acontecendo. Não nos desesperamos quando tínhamos que correr de um lado para o outro, sabíamos que a posse de bola era o seu forte”, disse, após a vitória sobre a Croácia na semifinal.
A história da seleção argentina não nos permite dar como certo que ela terá uma comissão técnica plenamente operacional durante a Copa do Mundo. Além da renovação que conduziu, da estrutura tática que implementou, da leitura específica para cada partida, ter conseguido fazer com que os jogadores desfrutem da experiência internacional foi um feito em si para Scaloni. Mesmo inexperiente, talvez tateando no escuro, deu as condições para que um grupo qualificado que conta com um dos maiores jogadores da história pudesse se concentrar apenas em futebol no Catar. Que não tivesse sido referendado por conquistas tão marcantes, além da que ainda pode vir no domingo, já seria um trabalho excelente do interino que foi ficando, foi ficando, foi ficando e talvez fique para sempre na história da Argentina.



