Scaloni acertou a última escalação de uma Copa do Mundo em que não teve medo de errar
O técnico da Argentina fez história novamente, selando com chave de ouro uma trajetória improvável desde que foi nomeado interinamente após a saída de Sampaoli
Escolher o técnico que comandará um ciclo de Copa do Mundo é uma das decisões mais importantes que uma federação pode tomar, e a seleção argentina acabou encontrando o ideal meio que por acaso. Lionel Scaloni não tinha um grande passado como jogador, nem experiência como técnico. Chegou à AFA acompanhando Jorge Sampaoli e foi nomeado interinamente em um primeiro momento. Acabou ficando, quebrou o jejum de títulos da Argentina com a Copa América e conduziu na ponta dos dedos uma campanha quase impecável no Catar, na qual a sua influência ficou clara partida após partida.
Scaloni assumiu um risco ao decidir escalar a Argentina de acordo com os seus adversários. Um risco porque estava esticando o pescoço à opinião pública caso tomasse alguma decisão errada que terminasse com o fim do sonho. No entanto, ele não teve medo de fazer o que achava necessário, ou, se teve, não permitiu que o impedisse de seguir modificando a escalação até a partida final contra a França, quando novamente surpreendeu e colheu os resultados, principalmente com a entrada de Di María pela esquerda.
Foi assim durante toda a campanha. Após a zebra na estreia, ele mudou cinco jogadores para enfrentar o México. Promoveu Enzo Fernández a titular contra a Polônia, barrou Lautaro Martínez pelo jovem Julián Álvarez, retornou com Papu Gómez para as oitavas de final, escalou três zagueiros contra a Holanda e preencheu o meio-campo com quatro jogadores para encarar a Croácia. Se nem sempre a sua ideia foi determinante para o resultado final, ela geralmente fazia sentido e as variações foram importantes para o título da Argentina.
Contra a França, a expectativa de todos era que entrasse com três zagueiros, com Lisandro Martínez desde o início. A opção era Ángel Di María, que mal havia aparecido no mata-mata e não parecia em condições físicas ideais. No entanto, o eterno escudeiro de Messi começou jogando pelo lado esquerdo – e não pelo direito, onde estava atuando. Ganhou com sobras os duelos individuais por aquele setor. Messi foi jogado mais à direita, onde poderia explorar a fragilidade defensiva da dupla Theo Hernández e Kylian Mbappé. Rodrigo de Paul foi destacado para acompanhar Mbappé, para impedi-lo de ficar no mano a mano com Molina.
“Os jogadores souberam uma hora e meia antes quem jogaria. Di María sabia que jogaria pela esquerda. Pensamos que o jogo poderia estar por ali. Por ali, a equipe criou a maioria das ocasiões, com Alexis Mac Allister entrando entre as linhas e Ángel aparecendo pela esquerda bem aberto. Entendemos muito bem o jogo. Ali estava a chave. E quando Mbappé recebia preso ao lado, o trabalho de De Paul e Enzo Fernández não deixava que ficasse no um contra um com Molina”, explicou, na entrevista coletiva, após o jogo.
A jogada dos dois gols da Argentina no tempo regulamentar saem dos pés de Di María. O pênalti que ele sofreu e a sua finalização ao fim de um contra-ataque. Di María, porém, não tinha condições de aguentar a partida inteira e saiu aos 18 minutos da etapa final. A França reagiu, também com ajuda das mudanças de Didier Deschamps, mesmo que tardiamente. Scaloni pode ser acusado de ter demorado para usar o seu banco de reservas para reverter uma tendência que estava claramente favorável à seleção francesa. Deixaria para fazê-lo apenas durante a prorrogação.
E conseguiu estancar a sangria, principalmente com a entrada de Lautaro Martínez. O centroavante novamente ficou marcado por perder gols, mas ele deu uma presença maior no ataque e gerou oportunidades que aliviariam um pouco o sufoco da Argentina. Foi dele a finalização cujo rebote terminou com o segundo gol de Messi e o terceiro dos sul-americanos. Essa foi a história de Scaloni no Mundial: se não acertou todas as decisões, acertou a maioria e, principalmente, raramente hesitou em as tomar.
Ao fim do jogo, poucos estavam mais emocionados do que o técnico, que em certo momento simplesmente extravasou as suas emoções e começou a chorar no gramado. Era o fim de toda a pressão das últimas semanas e também do que é quase um conto de fadas. Ele se aposentou em 2015. Dificilmente poderia imaginar que se veria como técnico da Argentina alguns anos depois, muito menos que disputaria uma Copa do Mundo, muito menos ainda que a venceria. A ideia era aprender o ofício com Sampaoli, mas a oportunidade caiu em seu colo e ele fez tudo que podia para aproveitá-la.
“Não estava nos meus planos ser campeão do mundo, mas o somos. Somos vencedores justos”, disse Scaloni, depois da final. “Esta equipe e estes jogadores jogam pelo povo, pela torcida argentina. Não temos ego aqui. Não há individualidades. Todos caminham para o mesmo lado, para a seleção, para o país. Não há orgulho maior do que poder jogar pelo seu país. Fomos campeões merecidamente. Fizemos um jogo completíssimo”.
Durante todos os anos que a seleção argentina parecia sem direção, a solução mais sugerida era tentar convencer um dos seus técnicos mais renomados, como Diego Simeone, Mauricio Pochettino ou Marcelo Gallardo, a embarcar nessa aventura. Jorge Sampaoli foi uma tentativa dessas, com resultados catastróficos. No fim, quem conseguiu entregar o tão sonhado tricampeonato ao povo argentino, e a taça que Messi nunca havia conquistado, foi um profissional novo e inexperiente que teve o grande mérito de pacificar o vestiário e manter a mente aberta para aprender. Que nos momentos mais importantes tomou as decisões que julgou corretas, e no fim, elas acabaram sendo mesmo.
Scaloni dándose cuenta que ya no queda ninguna cola golosa. pic.twitter.com/eEaT4CbrBN
— QUITO (@Quito76) December 19, 2022



