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‘Fui tratado como um rei’: A esquecida passagem de Jairzinho pela África do Sul

Campeão mundial pela seleção brasileira desembarcou na África do Sul para defender o Kaizer Chiefs em 1975, antes de conquistar Libertadores pelo Cruzeiro

Para além do seu ótimo desempenho por clubes, Jairzinho escreveu mesmo seu nome na história do futebol brasileiro com uma série de atuações decisivas no tricampeonato da seleção brasileira, na Copa do Mundo 1970. O Furacão da Copa, então, havia conquistado o mundo.

Quatro anos após o título, deixou o Botafogo e rumou para dar início a sua carreira internacional. Após a rápida passagem pelo Olympique de Marseille, entre 1974/75, o brasileiro seguiu para o continente africano e foi lá que participou da história do Kaizer Chiefs.

Ídolo da Seleção, Jairzinho atuou no Kaizer Chiefs, da África do Sul

Jairzinho em atuação pela seleção brasileira (Foto: IMAGO / Horstmüller)
Jairzinho em atuação pela seleção brasileira (Foto: IMAGO / Horstmüller)

Os primeiros passos do clube fundado em 1970 aconteceram durante o apartheid na África do Sul e, segundo o próprio clube, os Chiefs buscavam ser “uma válvula de escape para a alegria e a felicidade em tempos turbulentos”.

A chegada de Jairzinho à equipe sul-africana se deu em 1975. Após deixar o Botafogo, e com mudanças na legislação da época, o atacante rumou ao Olympique de Marseille em 1974, em passagem frustrante pela França. Com problemas para arcar com o passe do jogador, o clube de Marselha chegou a negociar amistosos com o Alvinegro.

Jairzinho teve uma passagem apagada pela França. Com nove gols marcados em apenas 18 jogos, o artilheiro da Copa do Mundo de 1970 recebeu uma suspensão de dois anos da Federação Francesa por supostamente agredir um dos árbitros assistentes, juntamente com Paulo Cézar Caju. Este fato resultou em sua saída do Olympique.

— Não entendo o que aconteceu. O público não viu, a televisão não mostrou as imagens. É uma pena que tenha sido assim… Não pude continuar jogando na França. Fiquei triste porque Marselha era como minha segunda cidade — afirmou ao “L’Équipe”, em 2022.

Jairzinho é um dos grandes ídolos da seleção brasileira
Jairzinho é um dos grandes ídolos da seleção brasileira. Foto: IMAGO / Horstmüller

O Kaizer Chiefs surge na reta final de 1975, após ter pago seu próprio passe para encerrar o vínculo com o Olympique. Sem clube na época, o brasileiro desembarcou em Joanesburgo no dia 17 de novembro daquele ano para atuar um contrato de curta duração — apenas quatro jogos, em um período de 15 dias. O craque acordou receber US$ 40 mil à época.

— Fui convidado por (Ewert Nene, dirigente sul-africano e cofundador do Kaizer Chiefs) para jogar duas partidas na África, pois ele sabia que eu fazia parte da seleção brasileira que ganhou a Copa do Mundo de 1970. Embora eu não me lembre dos detalhes de nenhum dos meus jogos –, contou o ponta-direita em uma entrevista ao site “Soccer Laduma”, em 2016.

A recepção ao Furação da Copa logo no aeroporto já deu dimensão do que viria. Uma multidão no local aguardou a chegada de Jairzinho, memória que ainda guarda. O carinho do povo sul-africano não foi esquecido, apesar do craque brasileiro não se recordar bem dos jogos disputados. “Fui tratado como um rei”, relembrou ao site.

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Estreia de Jairzinho foi adiada na África do Sul

Jairzinho pela seleção brasileira (Foto: Fifa/Divulgação)
Jairzinho pela seleção brasileira (Foto: Fifa/Divulgação)

Apesar da empolgação, a estreia do jogador contou com problemas. Segundo o “Jornal dos Sports”, em publicação da época, até o dia 3 de dezembro Jairzinho ainda não havia estreado pelo clube.

O ruído se deu após o advogado do jogador, Joaquim Reis, proibir o brasileiro de entrar em campo após um impasse no cumprimento do contrato. De acordo com a reportagem, dirigentes do clube e o representante de Jairzinho conversaram por cerca de duas horas, mas sem chegar a qualquer acordo naquele momento.

O Kaizer Chiefs não teria pago uma parcela do contrato, mas o jornal informou que “a estreia poderia ser confirmada caso o dinheiro aparecesse”. Com o acordo firmado, o primeiro jogo do brasileiro, então, foi realizado.

— Vocês cumprem o contrato em suas expressas cláusulas e ele joga — afirmou o advogado atacante, em 1975.

No dia 6 de dezembro, o “Jornal dos Sports” destacou a primeira partida do atacante, no empate em 3 a 3 entre Kaizer Chiefs e a seleção da África do Sul como uma “exibição que lembrou aos africanos as suas exibições mais empolgantes na Copa de 70, no México”.

A estreia de um campeão mundial em solo sul-africano não poderia ser melhor. Segundo o jornal, Jairzinho marcou quatro gols, mas dois foram anulados, além de dar uma assistência para o terceiro gol da equipe.

— A partida foi presenciada por um público recorde (a informação direta de Joanesburgo, por telefone, fala em 100 mil espectadores) e, ao sair, [Jairzinho] foi escoltado por uma guarda de segurança formada por 12 policiais. Jairzinho sentiu grande emoção ao ver-se novamente ovacionado pela multidão –, escreveu a publicação datada em 7 de dezembro de 1975.

Jairzinho tinha acordo para permanecer na África do Sul

Segundo o periódico carioca, o advogado tinha planejado para o jogador a permanência no Kaizer Chiefs para disputar o Campeonato da África do Sul no período de fevereiro a julho de 1976.

Em seguida, a ideia era que o brasileiro partisse para os Estados Unidos, onde defenderia o Colorado entre os meses de agosto a dezembro do mesmo ano. No entanto, esse acordo não foi para frente, e o destino do Furacão o trouxe de volta ao Brasil.

Jairzinho, do Cruzeiro, e Franz Beckenbauer, do Bayern de Munique, durante a Copa Intercontinental em 1976 (Foto: IMAGO / WEREK)
Jairzinho, do Cruzeiro, e Franz Beckenbauer, do Bayern de Munique, durante a Copa Intercontinental em 1976 (Foto: IMAGO / WEREK)

Jairzinho recebeu uma série de sondagens à época. Na África do Sul, o desempenho do atacante impressionou. “Garantiu aos jornais de lá que tem 29 anos (tinha 31). E impressionados com o que consideraram ser rugas prematuras, os sul-africanos estão pensando em encaminhá-lo à Dra. Aslan”, escreveu o “Jornal do Brasil”, em dezembro daquele ano.

“Dra. Aslan” é uma referência a Ana Aslan, cientista romena que ficou famosa por suas pesquisas sobre o envelhecimento e pela invenção do tratamento antienvelhecimento Gerovital H3. Ainda que não se lembre dos números, jornais da época citam que o craque disputou, efetivamente, suas quatro partidas em solo sul-africano.

Jairzinho retornou ao Brasil, sondado por Botafogo, Corinthians e até pelo Flamengo. Em sua maioria, os valores assustavam, e afastaram o atleta dos principais clubes do país. Mas não de todos eles: no início de 1976, o Cruzeiro abraçou o atacante em sua volta ao país. Na Raposa, ele disputou 50 jogos e marcou 29 gols, sendo peça fundamental na conquista da primeira Libertadores do clube.

“O que posso dizer é que guardo lembranças maravilhosas da minha passagem pela África do Sul. A atmosfera no estádio era fantástica. Quando entrei em campo, foi lindo ver todos os torcedores que vieram me aplaudir”, relembrou.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.
Foto de Murillo César Alves

Murillo César AlvesRedator

Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP), com passagens por Estadão, UOL, 90min e QuintoQuarto.

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