De decepção a meme: Como a África do Sul relembra as passagens de Parreira e Joel Santana
Às vésperas de mais uma partida inaugural da África do Sul em Copas, Trivela ouviu jornalista local sobre dupla brasileira
Quando México e África do Sul entrarem em campo nesta quinta-feira (11) para abrirem a Copa do Mundo 2026, o encontro inevitavelmente despertará lembranças de outro início de Mundial. Em 11 de junho de 2010, no Soccer City, em Johannesburgo, as duas seleções protagonizaram a partida inaugural da primeira Copa realizada em solo africano. O empate por 1 a 1 ficou marcado pelo golaço de Siphiwe Tshabalala e pela atmosfera histórica que tomou conta do país anfitrião.
Passados 16 anos, aquele torneio, conquistado de forma inédita pela Espanha, continua sendo uma das maiores referências da história recente do futebol sul-africano. E, junto com as recordações da Copa, permanecem vivas as memórias dos dois treinadores brasileiros que comandaram a seleção no ciclo do Mundial: Carlos Alberto Parreira e Joel Santana.
Embora ambos tenham chegado ao país cercados de expectativa, especialmente pelo prestígio acumulado no futebol brasileiro, a percepção deixada na África do Sul está longe de ser unanimamente positiva. Em conversa com a reportagem da Trivela, o jornalista sul-africano Austin Ditlhobolo explicou como os dois são vistos atualmente por torcedores, imprensa e personagens ligados ao futebol local.
Parreira: disciplina e bons momentos não apagaram a decepção
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Dos dois brasileiros, Parreira foi quem teve a ligação mais longa com a seleção sul-africana. Campeão do mundo com o Brasil em 1994, ele comandou os Bafana Bafana em duas passagens. A primeira ocorreu entre 2007 e 2008, período em que acumulou sete vitórias, quatro empates e seis derrotas.
Após deixar o cargo, foi substituído justamente por Joel Santana, mas retornou em 2009 para conduzir a equipe até a Copa do Mundo de 2010. Em sua segunda passagem, registrou sete vitórias, sete empates e apenas uma derrota.
Ainda hoje, segundo Ditlhobolo, existe reconhecimento por alguns aspectos de seu trabalho. Os números não foram ruins, no entanto, o saldo geral continua sendo visto de forma negativa.
— Parreira é considerado uma grande decepção. É reconhecido por ter trazido alguma disciplina e aproveitado a experiência de sediar a Copa do Mundo de 2010, mas foi criticado pela eliminação precoce da equipe na fase de grupos, pelas escolhas questionáveis de jogadores e por seu alto salário. É frequentemente apontado como um dos maiores fracassos do futebol sul-africano — disse o jornalista.
A avaliação ajuda a explicar um aparente paradoxo. Embora a campanha sul-africana tenha produzido momentos celebrados até hoje — como o empate contra o México na estreia e a vitória sobre a França na última rodada da fase de grupos —, a eliminação precoce deixou uma marca profunda.
Ditlhobolo lembra que houve pontos positivos reconhecidos durante o Mundial: “Bom espírito de equipe, empate histórico contra o México (gol de Tshabalala), vitória sobre a França e desempenho competitivo. Elogiado pelo empenho e por ter evitado uma humilhação total”.
Ao mesmo tempo, porém, a frustração por não avançar às oitavas de final acabou se sobrepondo ao restante da campanha. O peso desse feito negativo continua relevante na memória coletiva do país. A África do Sul entrou para a história como a primeira anfitriã de uma Copa do Mundo eliminada ainda na fase de grupos— um estigma que, para muitos torcedores, permanece associado ao trabalho do treinador brasileiro.
— A eliminação na fase de grupos gerou duras críticas em relação à tática, às escolhas de escalação e aos resultados que não corresponderam às altas expectativas e ao entusiasmo gerado.
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Joel Santana é lembrado mais pelos memes do que pelo trabalho
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Se Parreira ainda desperta discussões sobre desempenho esportivo, Joel Santana ocupa um espaço completamente diferente no imaginário sul-africano.
Responsável por comandar a seleção antes da chegada definitiva de Parreira para o Mundial, Joel acumulou resultados modestos em campo — dez vitórias, três empates e 14 derrotas. Mas o que realmente atravessou os anos não foram suas partidas à frente da equipe — e sim a imagem absorvida quase integralmente pelo aspecto folclórico.
— Joel Santana é lembrado principalmente como uma figura cômica por suas entrevistas hilárias em inglês ruim e pelos maus resultados (baixa taxa de vitórias, demissão rápida). Os jogadores gostavam de sua personalidade, mas os torcedores o veem mais como um meme do que como um técnico sério — afirmou Ditlhobolo.
A percepção não mudou muito ao longo do tempo. Enquanto no Brasil Joel costuma ser lembrado também pelos títulos conquistados à frente de clubes importantes, na África do Sul sua passagem acabou reduzida a um conjunto de cenas que viralizaram ainda no fim dos anos 2000.
— Na África do Sul, a imagem de Santana resume-se quase exclusivamente ao seu inglês engraçado e às entrevistas cômicas que viralizaram. Esses momentos dominam a forma como os torcedores se lembram dele, principalmente como um meme.
O jornalista ressalta que houve alguns resultados relevantes durante sua passagem, incluindo a campanha que levou os sul-africanos às semifinais da Copa das Confederações de 2009. Ainda assim, esses aspectos raramente aparecem quando o assunto é o folclórico ex-treinador carioca.
— Pouco reconhecimento pelo seu trabalho entre 2008 e 2009. Embora tenha chegado às semifinais da Copa das Confederações de 2009 e os jogadores gostassem de sua personalidade, seus maus resultados, seu alto salário e sua rápida demissão ofuscaram tudo. Ele é visto principalmente como parte da era dos fracassos brasileiros caros.
A frase ajuda a ilustrar uma percepção recorrente em parte da imprensa e da torcida local: a de que os investimentos feitos em treinadores brasileiros não produziram o retorno esperado dentro de campo.
Houve algum legado deixado pelos brasileiros?
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Mesmo com as avaliações predominantemente negativas, Parreira ainda encontra alguns defensores quando o debate se desloca dos resultados imediatos para possíveis efeitos estruturais. Ditlhobolo explica que existe uma corrente minoritária que enxerga contribuições deixadas pelo tetracampeão mundial além da campanha na Copa.
— Uma minoria reconhece seu mérito por ter promovido estruturas de desenvolvimento. Por exemplo, ligas juvenis e a iniciativa do DStv Diski Challenge (principal liga de reservas e desenvolvimento de jovens talentos da Premier Soccer League da África do Sul). E também por ter incentivado a disciplina e o espírito de equipe. Alguns comentários recentes afirmam que a África do Sul está colhendo os frutos agora, mas essa não é a opinião predominante.
Ou seja, embora a imagem principal de Parreira continue ligada à eliminação no Mundial de 2010, há quem considere que parte de seu trabalho tenha produzido efeitos de longo prazo no futebol sul-africano.
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Com Joel Santana, a situação é diferente.
— Quase nenhum legado duradouro como técnico. (Marcou) Principalmente as palhaçadas e os maus resultados.
A avaliação resume o lugar ocupado pelo treinador na memória do país. Enquanto Parreira ainda divide opiniões entre críticas e algum reconhecimento pontual, Joel permanece associado quase exclusivamente ao aspecto folclórico de sua passagem.
Por isso, ao olhar para trás às vésperas de mais um encontro entre México e África do Sul em uma abertura de Copa do Mundo, os sul-africanos tendem a lembrar os dois brasileiros de maneiras bastante distintas.
— Parreira é visto hoje como o técnico de renome, sério. Mas no fim das contas, decepcionante, que preparou a seleção sul-africana para a Copa de 2010, mas não conseguiu apresentar um bom desempenho em casa. Já Joel é lembrado principalmente como o brasileiro engraçado cujo inglês ruim e conferências de imprensa que viralizaram se tornaram memes. Com seus maus resultados e curta gestão ficando praticamente esquecidos em meio ao humor — concluiu Ditlhobolo.
Duas trajetórias diferentes, mas que acabaram convergindo para um mesmo resultado: nenhum dos técnicos brasileiros ocupa hoje um lugar de prestígio na memória futebolística da África do Sul.