Em demonstração de apoio aos protestos no Irã, Ali Daei recusa convite para estar na Copa
Ali Daei participou do sorteio da Copa e, nos últimos meses, se tornou uma das principais vozes em apoio aos protestos pelos direitos das mulheres
Ali Daei é um dos maiores sinônimos de Copas do Mundo na Ásia. O centroavante, autor de 109 gols pelo Irã, era um dos heróis do time no Mundial de 1998 e usou a braçadeira de capitão em 2006. Atualmente, o “Rei Daei” continua como uma figura proeminente, a ponto de participar do sorteio do Mundial de 2022. Entretanto, o ex-centroavante recusou o convite da Fifa e do Catar para estar na Copa durante as próximas semanas. Daei disse que prefere ficar no território iraniano em sinal de apoio à onda de manifestações no país, que pede o fim da repressão e mais direitos às mulheres, após a morte de Mahsa Amini – jovem curda que faleceu horas depois de ser detida pela polícia religiosa por “usar seu véu de maneira inadequada”.
Daei é uma das personalidades mais engajadas com os protestos no Irã. Desde o início dos movimentos, em setembro, o ex-atacante e atual treinador se posicionou nas redes sociais. Surgiram rumores de que o antigo astro foi detido pela polícia, mas seu passaporte é que ficou retido durante uma semana. Além disso, ele teria inclusive ido visitar um ativista num hospital do país. Diante das circunstâncias, o velho artilheiro quis reiterar seu compromisso com os compatriotas.
“Saudações aos meus queridos e honrados compatriotas. Nestes dias em que a maioria de nós não se sente bem, disse não ao convite oficial da Fifa e da federação de futebol do Catar para assistir à Copa do Mundo com minha esposa e minhas filhas. Quero estar ao lado de vocês na minha terra natal e expressar minha solidariedade a todas as famílias que perderam entes queridos nestes dias. Espero por dias brilhantes para o Irã e para os iranianos”, afirmou Daei. O ex-atacante chegou a atuar no Al-Sadd em sua carreira profissional.
O elenco do Irã, por outro lado, visitou o presidente Ebrahim Raisi nesta segunda-feira. O chefe de estado alertou que “alguns no país não querem ver o sucesso de vocês e a vitória da juventude iraniana, por isso tentam atrapalhar o foco”. Em setembro, alguns convocados chegaram a manifestar apoio aos protestos, durante a última Data Fifa. surgiram rumores de que o atacante seria cortado da convocação final por isso. Apesar do atraso na divulgação da lista, em tumultuada coletiva de imprensa, ele acabou confirmado pelo técnico Carlos Queiroz.
Já nesta terça, as manifestações viraram assunto do encontro de Queiroz com jornalistas. O treinador foi perguntado por um jornalista britânico sobre o fato de trabalhar para uma nação que oprime mulheres. Então ele respondeu: “Quanto você me paga para responder essa questão? Quanto você me paga? Fale com seu chefe e me dê a sua resposta. Não coloque na minha boca palavras que eu não disse”. No fim, ainda afirmou: “Pense sobre o que aconteceu em seu país com os imigrantes”.
Queiroz também apontou: “O Irã é exatamente como o seu país. Segue o espírito do jogo e as regras da Fifa. É assim que você se expressa no futebol. Isso faz parte de como você se expressa no futebol. Todos têm o direito de se expressar. Vocês se ajoelham. Algumas pessoas concordam, outras não concordam com isso, e o Irã é exatamente o mesmo. Os jogadores só têm uma coisa na cabeça, que é lutar pelo sonho de chegar à segunda fase. São pessoas que entendem uma coisa simples: se conseguissem isso, não só seriam parte da história, como fariam história. Esta é a sexta vez que o Irã participa de uma Copa do Mundo e nunca esteve na segunda fase”.
Engajado com os protestos como Ali Daei, o antigo astro Ali Karimi também tentou encorajar os jogadores do elenco atual a se posicionarem. Um membro do governo sugeriu que “atletas que não cantarem o hino nacional deveriam ser cortados de suas delegações”, após uma recusa da seleção de vôlei masculino. Presente na Copa de 2006, Karimi afirmou que a seleção de futebol deveria cogitar a hipótese no Mundial do Catar.
“Os jogadores da seleção de futebol deveriam pensar sobre isso. Escolham o lado certo da história”, apontou Karimi. O veterano também usou suas redes sociais desde o início dos protestos para apoiar os manifestantes no país. Uma de suas casas no Irã foi confiscada pelo governo, que também derrubou uma estátua em sua homenagem. Ainda houve a acusação de uma tentativa de sequestro do governo contra Karimi, que atualmente reside nos Emirados Árabes Unidos.



