Os astros do Irã na Copa de 1978 que se mudaram aos Estados Unidos e ajudaram a formar talentos no novo país
A relação entre Irã e Estados Unidos em Copas do Mundo não se concentra apenas no duelo da Copa de 1998, com três jogadores persas do time de 1978 fixando residência nos EUA depois disso

As histórias sobre o confronto entre Irã x Estados Unidos costumam se voltar ao duelo de 1998. E, de fato, o encontro entre as duas seleções no Mundial da França foi bastante simbólico. As relações rompidas prometiam um ambiente hostil para aquela partida em Lyon. Prevaleceu, no entanto, o bom senso entre os jogadores e a cortesia na entrada de campo, com trocas de presentes e flores. Não deixou de ser um embate intenso nas quatro linhas, com uma emblemática vitória iraniana por 2 a 1, mas os times fizeram questão de que não passasse disso. O que acaba esquecido é que existe um laço bem anterior entre as duas nações dentro da Copa do Mundo. Se a primeira geração mundialista iraniana, a de 1978, acabou desfeita na esteira da Revolução de 1979 e da Guerra Irã-Iraque, os EUA se tornaram destino de alguns dos principais futebolistas daquela seleção. Deixaram sua marca no futebol local, inclusive contribuindo indiretamente ao US Team.
A década de 1970 serve de marco ao futebol do Irã. Desde o final da década de 1960, os resultados internacionais do país se tornaram mais eloquentes. A seleção iraniana conquistou a Copa da Ásia pela primeira vez em 1968, enquanto o Taj se tornou o primeiro clube persa a faturar a Copa dos Campeões da Ásia em 1970. E os resultados acabaram acompanhados por outras transições importantes. O Campeonato Iraniano se tornou uma competição nacional a partir de 1970, quando antes as competições se resumiam a ligas locais. Já em 1971 aconteceu a inauguração do Estádio Azadi, principal símbolo do esporte no país, com capacidade para 100 mil torcedores.
Tal investimento no futebol se inseria num contexto mais amplo dentro do Irã. O país vivia sob a monarquia do Xá Reza Pahlavi, fortalecido no poder desde 1953, após um golpe de estado que derrubou o governo reformista democraticamente eleito – com apoio de Estados Unidos e Reino Unido à ditadura instaurada. Havia um projeto de “ocidentalização”, além de aumentos da urbanização e da industrialização. E a crise do petróleo impulsionou a economia local. As boas relações externas com países ocidentais permitiram que as vendas de petróleo persa se alavancassem, enquanto países árabes realizavam um embargo, em reação à guerra entre Israel e Egito mais Síria. Com o preço elevado do barril, os iranianos tiveram um enorme aumento do PIB. Entretanto, o crescimento não evitava os descontentamentos. O governo autocrático e autoritário entrava em atrito com uma parcela considerável da população. Crescia uma insatisfação pelos privilégios da monarquia, pela desigualdade social, pela corrupção, pela inflação. E a falta de diálogo com as autoridades religiosas criava suas tensões.
Dentro do processo de enriquecimento do Irã, no entanto, o futebol se beneficiou. Mais dinheiro passou a ser destinado para o esporte, cada vez mais popular. Os jogadores ainda não eram profissionais, mas muitos deles conciliavam cargos públicos com as carreiras de atletas. Passaram a ganhar salários suntuosos para os padrões locais, ao passo em que trabalhavam em funções como bibliotecários ou policiais. Os próprios clubes tinham apadrinhamento.
Primeiro campeão continental do país, o Taj (o atual Esteghlal) foi formado por camadas militares. Porém, seu nome significava “Coroa” e também havia um apoio mais forte da monarquia. O grande rival era o Persepolis, idealizado por um antigo boxeador que fez carreira nos Estados Unidos. Tinha dinheiro de comerciantes de Teerã por trás. O clube, todavia, representava também uma certa oposição ao status quo. Os alvirrubros absorveram jogadores e torcedores do Shahin, time dissolvido pelas autoridades locais em 1967, num momento em que a agremiação era tão popular que incomodava a própria federação – responsável pelo fim das atividades. Já o PAS Teerã estava ligado à academia de polícia.

A seleção do Irã consolidou os seus resultados nesse período de bonança. A forte equipe conquistou o bicampeonato da Copa da Ásia em 1972 e também o tricampeonato em 1976. Os persas se classificaram às Olimpíadas em 1972 e 1976, com uma campanha até as quartas de final em Montreal. De qualquer maneira, o ápice aconteceu mesmo com a classificação para a Copa do Mundo de 1978, na inédita participação do Time Melli no torneio. Na época, apenas uma seleção da Ásia tinha vaga no Mundial. Os iranianos passaram pela Arábia Saudita e pela Síria na fase inicial. Já no pentagonal decisivo, a equipe fez uma campanha invicta. Conseguiu seis vitórias e dois empates numa disputa contra Coreia do Sul, Kuwait, Austrália e Hong Kong. Seria o momento de apresentar a força do futebol local para o restante do planeta.
Cabe ponderar que, tal qual acontece em 2022, aquele não era um momento tranquilo para o Irã como país. A cisão entre a monarquia e a elite religiosa do país estava exposta desde 1977. Protestos massivos tomaram as ruas a partir de 1978. Apesar disso, a seleção conseguiu se isolar do clima tenso em sua viagem à Argentina. O Irã se colocava como azarão num dos grupos mais duros da Copa de 1978. E, pelo contexto, não viria a ser uma campanha ruim do Time Melli.
A estreia do Irã aconteceu diante da Holanda, então vice-campeã mundial, que impunha respeito mesmo sem contar com a presença de Johan Cruyff. Uma derrota dos persas era esperada e a Oranje cumpriu seu favoritismo com os 3 a 0 no placar. Todavia, o resultado não traduzia totalmente o duelo. Os iranianos tiveram pelo menos duas ótimas chances de abrir o placar e dois tentos holandeses foram marcados de pênalti. A competitividade era perceptível.
As chances de classificação do Irã se sustentaram na segunda rodada. Os iranianos arrancaram o empate por 1 a 1 diante da Escócia, cheia de figuras badaladas como Kenny Dalglish e Archie Gemmill. De novo os persas deram calor de início, mas um desastrado gol contra de Andranik Eskandarian, empurrado pelo centroavante Joe Jordan no lance, ofereceu a vantagem para os escoceses no fim do primeiro tempo. Durante o segundo tempo, o Time Melli voltou a abafar e conseguiu o empate com o lateral Iraj Danaeifard. Foi uma linda jogada individual, em que o persa fintou a marcação e encontrou uma fresta para o chute quase na linha de fundo. Os britânicos não desistiram do triunfo e tentaram uma blitz no final, mas os iranianos conquistaram seu primeiro ponto na história das Copas.
O Irã dependia apenas de uma vitória para se classificar na rodada final, mas desabou contra uma forte seleção do Peru. A Blanquirroja goleou por 4 a 1. Ajudou o gol de José Velázquez aos dois minutos, enquanto Teófilo Cubillas marcou duas vezes de pênalti no primeiro tempo. Hassan Rowshan até descontou antes do intervalo, mas o goleiro Ramón Quiroga estava com o corpo fechado e frustrou diversas tentativas de reação dos persas. A dez minutos do fim, Cubillas concluiu o placar. Apesar da eliminação, os iranianos ao menos tiveram o gosto de provocar também a queda da Escócia, cotada entre os favoritos no início do torneio. Mais de 10 mil pessoas foram ao aeroporto de Teerã receber seus heróis na volta para casa.

Àquela altura, as perspectivas da seleção iraniana pareciam abertas. Apenas dois jogadores do elenco (o capitão Ali Parvin, grande referência técnica daquele time, e o zagueiro Hossein Kazerani) passavam dos 30 anos de idade. O dinheiro brotava nos clubes do país e alguns jogadores ganharam visibilidade internacional. Hassan Rowshan e Hassan Nazari se mudaram aos Emirados Árabes Unidos, contratados pelo Al Ahli. Já Eskandarian, apesar do bisonho gol contra, se redimiu nas outras partidas e recebeu um convite para integrar uma “seleção do mundo” em amistoso contra o New York Cosmos. Impressionou tanto no duelo que o estrelado time americano acabou contratando o defensor. Juntava-se a uma constelação que, se não tinha mais Pelé, reunia nomes como Franz Beckenbauer, Carlos Alberto Torres, Johan Neeskens, Giorgio Chinaglia, Marinho Chagas e Wim Rijsbergen.
Quando muita gente esperava que o Irã se tornasse habituado às Copas do Mundo, porém, o barril de pólvora explodiu nos meses seguintes. O incêndio num cinema na cidade de Abadan, que deixou mais de 400 mortos, aumentou os protestos nas ruas do Irã contra a monarquia. Lideranças religiosas passaram a acusar a própria polícia secreta do governo de realizar o atentado. Os movimentos populares contra o regime vigente se tornaram mais intensos, assim como a repressão a eles. A pressão vinha de diferentes frentes, seja pelo autoritarismo ou pela ocidentalização, pela desigualdade social ou pela corrupção. E, em meio às diferentes pressões sobre a renúncia do Xá Reza Pahlavi, prevaleceu a liderança religiosa do Aiatolá Khomeini, que havia sido exilado desde a década de 1960. A Revolução Iraniana chegaria a seu ápice no início de 1979, com a fuga do Xá e a queda do governo.
O futebol acabou diretamente impactado pela revolução. O Campeonato Iraniano foi extinto e muitos times passariam por uma intervenção estatal. Um exemplo era o próprio Taj, rebatizado como Esteghlal, palavra que significa “Independência” – uma resposta ao “Coroa” anterior. A Organização de Educação Física estabelecida pelo governo assumiu o controle da equipe e também de outros clubes. Diante da perseguição àqueles que não se alinhassem com a recém-instaurada teocracia, muitos jogadores preferiram deixar o país. Alguns que estavam fora nunca mais voltariam a viver no Irã. As competições locais perderam investimento e as disputas voltaram a se limitar aos torneios municipais. O próprio futebol era tido como uma “influência ocidental”. Enquanto isso, a seleção suspenderia suas atividades e se reuniria apenas ocasionalmente. A situação no país era turbulenta, não apenas pelas disputas internas de poder, como também pela guerra com o Iraque que se iniciou em 1980, após a invasão realizada por Saddam Hussein. Houve um impacto grande na economia.
Eskandarian estava exatamente entre aqueles que não voltaram mais para o Irã. “Eu estava viajando com o Cosmos em uma turnê pelo Brasil, quando a revolução aconteceu. Sou um jogador de futebol, não um político. Não gosto de nenhum deles. Mas aquele era um momento triste. Eu estava muito distante e não conseguia dimensionar. Tudo nos jornais e na televisão era em português. Eu não sabia o que estava acontecendo”, declarou o veterano, em entrevista ao jornal The Telegraph em 2014. “A revolução mudou tudo e ficamos desconectados por cinco anos. Perdi o contato com todos os meus colegas”.
Parte de uma minoria armênia e católica do Irã, Eskandarian fez o restante de sua carreira no Cosmos. Teve sucesso no time mais poderoso da NASL. O defensor disputou quase 150 partidas pela liga nacional, titular nas conquistas do Soccer Bowl de 1980 e 1982. Eskandarian seguiu na ativa pela competição até 1984, quando ela faliu. Ainda assim, o veterano se juntou à equipe indoor do Cosmos e defendeu outros times semiprofissionais de Nova York até o final da década de 1980. Penduraria as chuteiras apenas às vésperas de completar 40 anos. Porém, nunca mais teve a chance de jogar pela seleção iraniana. Não foi o único.

Autor do gol contra a Escócia, Iraj Danaeifard também emigrou para os Estados Unidos. O lateral não era apenas jogador do Taj, mas seu pai era um dos principais fundadores do clube. Apesar da intervenção da teocracia na agremiação, o astro continuou vestindo a camisa alviazul até 1980. Participou inclusive da Copa da Ásia de 1980, numa rara aparição internacional da seleção iraniana pós-revolução, com o time ainda ganhando uma medalha de bronze. Porém, na casa dos 30 anos, Danaeifard não voltou ao Irã. Conseguiria depois um contrato com a NASL e se mudou para o Tulsa Roughnecks. Disputou quatro temporadas com a equipe e, adiantado para o meio-campo, participou da conquista do Soccer Bowl em 1983, repetindo o feito de Eskandarian. Tal qual o compatriota, o veterano igualmente migrou para o futebol indoor antes de pendurar as chuteiras.
E os Estados Unidos também se tornaram a casa de Hassan Nazari, mais um companheiro de seleção e de Taj. O defensor havia saído para os Emirados Árabes após a Copa do Mundo e permaneceu no país até 1982. Atuou também no Catar, antes de emigrar para o Texas em meados da década de 1980. Defendeu equipes de ligas menores do país, em tempos nos quais a NASL havia deixado de existir. Em paralelo, tratou o futebol como um projeto de vida além da carreira nos gramados. Realizou uma formação para se tornar também treinador, levando sua experiência para um país com considerável margem de crescimento no futebol.
Se por um lado alguns jogadores preferiram deixar o Irã, a maioria dos membros da seleção de 1978 continuou no país. Seguiram a carreira nos clubes locais, mesmo que a retomada do Campeonato Iraniano tenha demorado uma década para acontecer. Não quer dizer, entretanto, que todos apoiavam a teocracia instaurada. O meio-campista Hassan Nayebagha e o goleiro reserva Bahram Mavaddat abandonaram os gramados e se juntaram à Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano. O movimento islâmico de esquerda foi criado na década de 1960 e participou ativamente da queda do Xá Reza Pahlavi, mas, por se opor também ao conservadorismo do Aiatolá Khomeini, passou a ser suprimido pelo novo regime. Virou um dos principais focos da oposição, ainda que de maneira controversa, considerado terrorista pelos EUA e próximo de Saddam Hussein.
Ainda mais importante para a política iraniana foi Nasser Hejazi, goleiro titular do Irã na Copa de 1978 e uma das referências daquele time. O veterano atuou até o final da década de 1980 pelo Esteghlal e depois teria uma bem-sucedida carreira como treinador. Isso não o impediu, décadas depois da revolução, de se tornar um crítico contundente do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Hejazi chegou ao ponto de lançar sua candidatura à presidência do Irã em 2005, mas seu nome acabou barrado pelas autoridades locais. Falecido em 2011, ele seria homenageado pelo Esteghlal, que rebatizou o CT do clube com o nome do ex-arqueiro.
Já uma história que merece menção é de Habib Khabiri, meio-campista que não disputou a Copa de 1978, mas estava no time da Copa da Ásia de 1980. O jogador, que chegou a usar a braçadeira de capitão do Time Melli, defendia na época o Homa, clube ligado à aviação civil que também possuía penetração em grupos da esquerda iraniana. Khabiri era visto não apenas como um grande talento, mas também como uma figura bastante carismática. Após a revolução, o futebolista acabou tido como um rebelde por sua representatividade à contracultura e se envolveu em movimentos de oposição. Seria preso em 1983, torturado durante os meses seguintes e executado aos 29 anos.

Habib Khabiri ainda teve um irmão futebolista. Mohammed Khabiri também defendeu a seleção do Irã, até 1976. Formado em educação física, ele se mudaria aos Estados Unidos no final da década de 1970 para se especializar em ciências esportivas – segundo algumas fontes, por temer a perseguição da monarquia, da qual era opositor. Mohammed voltaria ao Irã em 1984, após concluir seu doutorado. Viraria professor universitário em Teerã. Mais do que isso, se tornou um membro proeminente da federação iraniana de futebol.
O Campeonato Iraniano seria retomado em 1989, após o fim da guerra com o Iraque. A seleção iraniana, que basicamente se reuniu bienalmente para competições esparsas ao longo da década de 1980, voltou a disputar as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1990 – superada pela China antes da fase final. Sinais mais concretos do fortalecimento do futebol no país viriam no início dos anos 1990, em especial com os títulos do Esteghlal e do PAS Teerã na Copa dos Campeões da Ásia. Já a eclosão da nova geração mundialista do Irã se deu na segunda metade da década. O empate por 2 a 2 contra a Austrália em Melbourne, num jogo no qual os persas precisaram buscar uma desvantagem de dois gols para garantir a classificação ao Mundial de 1998, é um marco para o esporte no país. Depois de 20 anos, o Time Melli estaria novamente em uma Copa do Mundo.
A esta altura, o futebol não precisava ser visto necessariamente como um “elemento ocidental”. Pelo contrário, sua popularidade sobreviveu à década de dificuldades e a própria teocracia aproveitava o nacionalismo insuflado pela Copa do Mundo, em meio a uma abertura maior a reformas no país. Independentemente disso, eram tempos nos quais as arquibancadas não deixavam de ser um espaço aberto a discussões mais amplas e inclusive motivaram protestos importantes das mulheres em busca de maiores direitos. E os iranianos logo ficariam no centro das atenções após o sorteio do Mundial. O confronto com os Estados Unidos prometia um contexto geopolítico denso, depois de quase duas décadas de relações rompidas.
A partida demandou um planejamento enorme, pelo alto risco que representava. A começar pela ameaça de um protesto massivo no Estádio de Gerland, em Lyon. O movimento dos Mujahidin comprou cerca de 7 mil ingressos e planejou manifestações contínuas nas arquibancadas. Existiu uma segurança reforçada nos arredores do gramado, assim como um cuidado extra durante a captura de imagens das tribunas para que nenhuma mensagem política fosse exibida. Até a entrada dos times precisou ser negociada. Como o mando era dos EUA, o Irã deveria caminhar até os jogadores adversários para cumprimentá-los. O protocolo acabou invertido, diante da imposição da teocracia iraniana para que seus representantes não fossem ao encontro do “inimigo”.
Entretanto, a federação do Irã também optou por transmitir ao mundo uma imagem maior de abertura, em tempos mais conciliadores sob a presidência de Mohammad Khatami – que defendia liberdades e reformas. Buquês de rosas brancas foram distribuídos aos jogadores dos Estados Unidos. Capitão dos persas, o goleiro Ahmadreza Abedzadeh ainda ofereceu um escudo de prata a Thomas Dooley, dono da braçadeira dos EUA. Era um gesto de apaziguamento. O vice-presidente da federação do Irã na época, inclusive, havia morado no Texas. Era ninguém menos que Mohammed Khabiri, o irmão do assassinado Habib Khabiri.

Se por um lado a aproximação prevaleceu na cerimônia inicial, por outro o jogo não deixou de ser pegado. E o Irã registrou sua primeira vitória na história das Copas. Hamid Estili abriu o placar no fim do primeiro tempo e um contra-ataque gerou o segundo gol dos persas na reta final, em jogada de Ali Daei para a conclusão de Mehdi Mahdavikia. Brian McBride ainda apareceu para reduzir a contagem para 2 a 1, mas o Irã se eternizaria como vencedor daquele encontro simbólico. A teocracia tratou o resultado como um triunfo sobre o “arrogante oponente”. Bem mais marcante seria a multidão que tomou as ruas de Teerã e outras grandes cidades para festejar. Mais de um milhão de pessoas participaram das comemorações na capital, no maior ato público do país desde o funeral do Aiatolá Khomeini em 1989. Seria uma ocasião marcada pela liberdade do povo para ser feliz, inclusive das mulheres que celebraram sem seus hijabs, os véus obrigatórios.
Bem longe dali, nos Estados Unidos, três veteranos iranianos seguiram suas vidas paralelas à Copa do Mundo, mesmo que ainda mergulhados no futebol – os três ex-mundialistas de 1978 que se mudaram ao país. Iraj Danaeifard até morou por um tempo de volta no Irã, e recebeu ofertas para se tornar dirigente do Esteghlal, o clube que seu pai fundou, mas recusou. O herói do empate contra a Escócia retornou depois ao Texas e abriu uma loja de artigos esportivos em Dallas. Precisando de um transplante de fígado, o veterano voltou ao Irã mais recentemente, mas não resistiu à doença e faleceu em 2018. Tinha 67 anos.
Seu melhor amigo era Andranik Eskandarian e os dois mantiveram contato enquanto viviam nos Estados Unidos. O antigo jogador do New York Cosmos também montou sua loja de artigos esportivos, em New Jersey. E seu sobrenome se tornou famoso também na Major League Soccer, graças ao seu filho. Nascido em 1982, já nos EUA, quando seu pai brilhava pelo Cosmos, Alecko Eskandarian se tornou um dos atacantes mais promissores do país no início dos anos 2000.
Primeira escolha do draft em 2003, Alecko chegava badalado do futebol universitário. O atacante estourou com a camisa do DC United e se tornou a grande figura na conquista da MLS Cup em 2004. Foi o MVP da competição, aos 22 anos. O jovem passou por diferentes seleções de base dos EUA e chegou a disputar uma partida pelo time principal, em 2003, num amistoso contra Gales. No entanto, as lesões limitaram a carreira de Alecko e ele rodou por diferentes times até pendurar as chuteiras em 2010, aos 28 anos. Virou depois assistente do New York Cosmos, até assumir um cargo como executivo da MLS. De sua forma, mantém a influência dos Eskandarian no futebol.
Por fim, Hassan Nazari continuou morando no Texas. Treinador de equipes de base em Dallas, o antigo defensor da seleção iraniana se referendou como um dos maiores descobridores de talentos dos Estados Unidos. Não foram poucos os jogadores do US Team trabalhados pelo veterano. Nick García e Lee Nguyen disputaram algumas partidas pela seleção principal, enquanto Omar González esteve presente na Copa de 2014 e colecionou prêmios individuais na MLS. De qualquer maneira, seu maior pupilo é outro: Clint Dempsey, provavelmente o maior jogador texano da história. O atacante marcou época com as camisas do New England Revolution, do Fulham e do Seattle Sounders. Disputou 141 partidas pelos EUA e emendou três Copas do Mundo, de 2006 a 2014, com gols em todas as edições do torneio. Por tabela, tem seu elo com aquele Irã de 1978.

Já a seleção iraniana, na via contrária, também teve o seu mentor que veio dos Estados Unidos. Afshin Ghotbi nasceu em Teerã, mas se mudou para Los Angeles quando tinha 13 anos, em 1977, depois que seu pai passou a dar aulas nos Estados Unidos. Ele atuou no futebol universitário da UCLA e, mesmo formado em engenharia elétrica, se tornou um treinador respaldado na formação de talentos na Califórnia. Tão proeminente que, em 1998, era o assistente de Steve Sampson na seleção dos EUA que perdeu para o Irã na Copa do Mundo. Na época recebia a fama de “inovador”, pela forma como introduzia a análise de dados no futebol. Posteriormente, o iraniano também auxiliou comandantes históricos como Guus Hiddink, Dick Advocaat e Pim Verbeek. Isso até que recebesse o convite para retornar a Teerã em 2007, à frente do Persepolis. Precisou de uma temporada para se sagrar campeão nacional à frente de um dos maiores clubes locais, oferecendo de quebra um estilo de jogo mais ofensivo.
Afamado pela conquista do Persepolis, Ghotbi virou treinador da seleção iraniana em 2009. Assumiu a equipe numa situação difícil, com uma sequência ruim de resultados e o risco de não se classificar para a Copa do Mundo de 2010. Até permaneceu invicto nos três jogos que comandou no qualificatório, mas não conseguiu o milagre de levar o Irã para o Mundial da África do Sul. Seriam tempos tumultuados para o Time Melli, para variar. Num momento sob o governo conservador do presidente Mahmoud Ahmadinejad, uma onda de protestos tomou o país para questionar o resultado das eleições de 2009, no chamado Movimento Verde. Em duelo decisivo das Eliminatórias, os jogadores usaram pulseiras verdes em referência, incluindo Ali Karimi, craque da época e ainda hoje engajado com temas políticos. O problema é que, justo no jogo decisivo com a Coreia do Sul, o empate derrubou os persas em Seul. A imprensa governista passou a associar a manifestação com o insucesso.
Mesmo sem cumprir a missão nas Eliminatórias, Ghotbi recebeu um voto de confiança e treinou o Irã por mais dois anos. O comandante levou a equipe para a Copa da Ásia e teve um aproveitamento razoável no geral, com 60% dos pontos conquistados. Saiu depois de uma fase de grupos invicta na Copa da Ásia de 2011, mas a eliminação para a Coreia do Sul nas quartas de final. Visto como um “estrangeiro” por muitos compatriotas, Ghotbi não teria outros trabalhos de relevo no futebol iraniano depois disso. E seu substituto à frente dos persas foi exatamente o responsável pelo salto atual do Time Melli: Carlos Queiroz, contratado pela federação na sequência de 2011.
Nestes últimos 11 anos, a seleção do Irã teve suas idas e vindas. Registrou campanhas significativas e emendou três participações em Copas do Mundo como nunca tinha feito, mas também fracassou na hora de alcançar os mata-matas do Mundial ou mesmo a final da Copa da Ásia. A política continua indissociável do futebol persa, especialmente quando o esporte é de suma importância para a discussão das liberdades das mulheres no país, com uma queda de braço que se expõe desde a reivindicação para a presença feminina nas arquibancadas. E mais uma vez o futebol é indissociável, diante da convulsão social que ocorre há meses pela morte de Mahsa Amini, que repercute também no próprio elenco. É nesse contexto que acontece o reencontro com os EUA, 20 anos depois. As tensões voltam a se aprofundar.




