Copa do Mundo

O movimento, Bangladesh e Kid Abelha

"Brasil e Argentina poderão se encontrar em uma semifinal de Copa do Mundo. [...] Acima de tudo, uma celebração latina, essa força imensa desse futebol que cria tanto encanto e forma tanto talento e faz europeu sentir, uma vez na vida, inveja da gente"

Em Bangladesh, forças policiais estão em alerta. Brasil e Argentina podem fazer uma semifinal de Copa e, a julgar pela manifestação enfática de adesão por estas duas seleções em cidades do país, é possível que aconteçam confrontos – inusitados confrontos, diga-se. Vimos imagens de brigas lá antes da Copa, mas ainda é um mistério para nós o funcionamento das linhas ocultas dessa paixão. Em Bangladesh, e em outros vários países, a torcida pelo Brasil, histórica, e agora, após Messi, também com força pela Albiceleste, funciona com códigos e cacoetes diferentes dos que conhecemos. Como se dá esta escolha? Como se cultiva, qual o diferencial, qual o gatilho que gera identidade e preferência?

Bangladesh fica num lugar pitoresco, mas delicioso, da pauta. Enquanto a Copa mostra gente de outros países, como Paquistão e Índia, se deslocando até o Catar para ver uma seleção preferida, há tensão e contraste no olhar dos nativos brasileiros e argentinos que lá estão. Dado o flagrante corte social que, de partida, altera a arquibancada mundialista em relação ao que temos no ambiente local, o que se coloca em debate só pode ser manejado já com o desconto devido: uma torcida em Copa, nos tempos de hoje, num país como o Qatar, está domesticada pelo dinheiro em alguma medida – isso serve para os ingleses e mexicanos também. Para todos.

Mas os códigos você consegue trazer na bagagem. Não todos, mas um perfumezinho deles, pelo menos. É difícil bater o Brasil neste quesito. Claro, não seria possível, mesmo, trazer a uma Copa surdos de segunda, tamborins, charangas, bandeirões de mastro de bambu e outros símbolos – maravilhosos – do nosso torcer em abundância. Os argentinos também não trouxeram papeletes picados nem as faixas verticais que adornam as barras. Nossa cultura de arquibancada é riquíssima. Na hora de cantar, temos versos ligeiros herdados de marchinhas, sambas enredo, folclore, MPB, e temos como pescar referências de norte a sul, estilos, tons. Nossa arquibancada é, ou foi um dia, um carnaval.

Pode ser parte do passado porque a Copa de 2014, aquela na qual o brasileiro foi visitante na própria casa contra o México, em Fortaleza, coincidiu com anos de repressão cultural e demonização midiática daqueles que se põem a viajar e pautar a vida a partir da agenda de seu clube. No Brasil, torcedores passam oito horas em um ônibus e são parados pela polícia perto do estádio, sem motivo aparente, e só entram no intervalo ou no segundo tempo – isso não é uma exceção, é uma regra em duelos entre cariocas e paulistas. Qual dessas culturas eu levo para o Catar?

Uma cervejaria, que já conseguiu interferir na comemoração de gol do Ronaldo Fenômeno e fez, em 1998, o técnico do Brasil, Zagallo, inventar em entrevista a procura pelo jogador “número 1” do meio-campo de seu 4-4-2, se empenhou em turbinar um grupo de torcedores da Seleção. O subsídio, condição indispensável para se visitar o Catar em grande número de pessoas (embora tão parecidas entre si), foi dado de outra forma na Argentina, quando, após perder da Arábia Saudita, relatos naturalmente não-oficiais apontam que a própria federação local custeou a ida de lideranças de torcidas daquele país. Subsídio é subsídio. Mas o impacto foi diferente.

Relatos que chegam a mim de amigos e amigas que viram, do estádio, Brasil e Argentina, atestam uma diferença brutal de comportamentos. De “constrangedor” a “bizarro”, os termos que segregam os amarelos dos celestes desenham a diferença entre uma ação de marketing e uma missão de urgência. O jogo, porém, para jogadores e também torcidas, é só o ato final. É a parte que todos assistem, mas é o último ato de um processo que envolve tempo, dilemas, decisões, treino no caso dos atletas, sol e chuva no dos torcedores. O Brasil que se impõe na arquibancada mundialista não poderia se diferenciar mais de um estádio de futebol brasileiro.

Poderia não ser um problema, caso, desta reunião branca e com sotaque forte, surgisse de fato um movimento. Pavões procurando a hora certa de interagir com as câmeras, usando óculos de plástico desses de fim de casamento, estrelas da influência digital tocando surdo com uma mão e filmando a si mesmo com a outra, tudo isso poderia transmitir verdade, algo espontâneo que existe dentro (não duvido que adorem a Seleção), criar identificação, filiação afetiva, representatividade. Não cria. Uma banda vinda de Bangladesh talvez fizesse melhor. E não adianta culpar conjunturas outras – ter uma assessoria de imprensa antes de ter força real, aliás, é tão sintomático. O Movimento Verde Amarelo não é relevante o suficiente para ser apontado como culpado de nada.

A não ser, claro, do fracasso de suas próprias intenções ególatras. Como torcida, não representam o que o press release afirmaria que são. Como indivíduos que entenderam o mundo e precisam manejar viralizações, engajamentos e repercussões, não os estranhos. Como movimento, são um fracasso absoluto, um deserto de antipatia, uma Amazônia de plástico, uma turma arrogante demais para se enxergar. Infelizmente, e escrevo em português, o idioma do Pelé, eu gostaria que a arquibancada amarela ficasse boa logo.

Quem escreve, pasmem vocês, já fez uma torcida da seleção. Ela se chamava Canários do Reino. Alusão a uma música do Kid Abelha, cuja letra dizia que “não precisa de dinheiro pra se ouvir meu canto, sou canário do reino, canto em qualquer lugar”. Isso foi em 2001, eu tinha 17 anos. Uns anos depois, tentei requentar a ideia. Tive semancol. A torcida viveu por um jogo, e teve um membro. Nunca levou Kid Abelha para a arquibancada. Aos 17 anos, era preciso dinheiro para ouvir meu canto. Faz parte da vida de um torcedor pensar em criar torcidas, núcleos, rotinas entre iguais, movimentos.

Brasil e Argentina poderão se encontrar em uma semifinal de Copa do Mundo. A primeira Copa sem Maradona, a última Copa de Messi, uma Copa com Pelé lutando pela vida e tantos outros significados que transformam o duelo em um dos maiores de todos os tempos deste esporte. Acima de tudo, uma celebração latina, essa força imensa desse futebol que cria tanto encanto e forma tanto talento e faz europeu sentir, uma vez na vida, inveja da gente. Uma festa pra parar Bangladesh. Um duelo para 80 mil dos nossos na arquibancada, dividida em tensão e cores.

Há quem saiba onde está, e há quem prefira chamar, na música, Maradona de cheirador.

Foto de Leandro Iamin

Leandro Iamin

Jornalista, 35, fundador da Central 3, e espera viver pra ver o São José na elite de novo.
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