O desastre se repete e a Alemanha, num jogo em que sofreu contra a Costa Rica, acaba eliminada mesmo com a vitória
A Alemanha penou bastante para superar uma heroica Costa Rica, mas a derrota paralela da Espanha custou a eliminação do time de Hansi Flick
A Alemanha se despede da Copa do Mundo de 2022. Pela segunda vez consecutiva, os campeões em 2014 não conseguem passar da fase de grupos. O drama da Alemanha estava desenhado pelas rodadas anteriores. A derrota para o Japão pesou demais, enquanto o time demorou a se encaixar diante da Espanha. A situação no Grupo E não era totalmente perdida e até parecia dar para passar. Entretanto, os alemães viram a situação sair de seu controle nesta quinta. A partida contra a Costa Rica seria muito mais sofrida que o imaginado. A vitória por 4 a 2 até saiu, na base de muito sofrimento. Os germânicos abriram o placar cedo, mas se acomodaram para a virada dos valentes costarriquenhos. Só na reta final, com o time todo no ataque, é que realmente veio o triunfo. O que não bastou para a classificação. Com a derrota da Espanha para o Japão, a Alemanha precisava de uma vitória por sete gols de diferença. Passou longe de conseguir e volta para casa em outra campanha extremamente decepcionante.
Há poucas coisas a se destacar na Alemanha. Jamal Musiala muito tentou e talvez tenha sido o melhor do time por isso, mas teve pouca efetividade. Niclas Füllkrug entregou os gols que prometia, mas ganhou menos minutos que deveria. Serge Gnabry e Kai Havertz também seriam importantes para buscar o resultado nesta quinta. Mesmo assim, foi um time acomodado em grande parte do duelo e muito exposto na defesa. As falhas de Manuel Neuer acabam como um retrato dos problemas. Do outro lado, a Costa Rica merece seus elogios. Depois da saraivada na primeira rodada, a equipe reescreveu sua história na Copa. Teve seus problemas contra os alemães, mas não deixou de acreditar no resultado. Foi heroica, especialmente pela participação de nomes como Yeltsin Tejada, Keylor Navas, Juan Pablo Vargas e Kendall Waston.
Escalações
A Alemanha vinha com mudanças para a partida. Joshua Kimmich acabou deslocado para a lateral direita, onde daria mais força contra um adversário mais recuado. Leon Goretzka e Ilkay Gündogan formavam a dupla de volantes. A trinca de meias tinha a adição de Leroy Sané, recuperado de lesão, ao lado de Jamal Musiala e Serge Gnabry. Mais à frente, para quem pedia Niclas Füllkrug, Thomas Müller acabou mantido. A Costa Rica tinha uma enorme ausência na zaga, com a suspensão de Francisco Calvo. Juan Pablo Vargas acompanhava Óscar Duarte e Kendall Waston no setor, num 5-4-1 preservado após o jogo contra o Japão. O garoto Brandon Aguilera ganhou uma chance pelo lado esquerdo do meio-campo, enquanto Johan Venegas assumiu o posto de centroavante, com as saídas de Gerson Torres e Anthony Contreras. Keylor Navas e Joel Campbell permaneciam como referências, assim como a dupla de volantes composta por Celso Borges e Yeltsin Tejeda.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Primeiro tempo: Alemanha marca logo, mas se acomoda
Foram necessários pouquíssimos minutos para a Alemanha impor o seu domínio e apresentar uma postura mais agressiva. Keylor Navas estava sempre atento. Antes dos cinco minutos o goleiro já realizou duas ótimas defesas, ao pegar um chute de média distância dado por Musiala e depois operar milagre em tiro quase sem ângulo de Gnabry, que acabou anulado por impedimento. Musiala era o mais ligado e fez fila dentro da área, mas demorou demais a finalizar. E quando Thomas Müller apareceu sozinho para cabecear um cruzamento de Kimmich, sozinho, mandou para fora.
O gol parecia desenhado. E realmente veio logo aos dez minutos, numa jogada pelo lado esquerdo, muito forte neste início. Musiala abriu com Raum e o cruzamento perfeito chegou para Gnabry, que sequer precisou saltar para acertar a testada no canto. As infiltrações da Alemanha nos cruzamentos funcionavam, contra uma defesa que sentia falta de Calvo. Navas voltou a fazer uma defesaça na sequência, em cabeçada de Goretzka. Depois, os alemães se permitiram reduzir a rotação e a Costa Rica avançou um pouco mais em campo. Nenhuma jogada ofensiva dos Ticos tinha continuidade, porém. E os alemães também nem precisavam chegar tanto para forçar lances de perigo. A defesa costarriquenha voltava a indicar os problemas vistos contra a Espanha.
Não que a defesa da Alemanha fizesse grande partida, mas parecia pelo menos bem postada para que os espasmos da Costa Rica não tivessem sequência. Já no ataque, a Alemanha se acomodava de maneira perigosa. Musiala conferia uma boa movimentação, mas a partida se restringia a ações pelas pontas e cruzamentos. Pela forma como o Nationalelf insistia nos chuveirinhos, a ausência de Füllkrug era questionável. Os costarriquenhos passaram a se dar melhor para rifar as bolas pelo alto. Navas só voltaria a ser exigido aos 35, num chute de longe dado por Kimmich que o goleiro pegou em dois tempos. Logo depois, Musiala bagunçou em lance individual, mas bateu torto.
Chamava atenção a empolgação da torcida da Costa Rica. Mesmo com as desventuras do time nessa Copa do Mundo, os Ticos faziam muito barulho nas arquibancadas em Al Khor, mesmo que o time não correspondesse em forma de jogadas. Um empate, a essa altura, classificava os costarriquenhos. E a esperança seria paga aos 42, em chance que caiu nos pés de Fuller. Foi um erro duplo da defesa germânica, com Raum e também Rüdiger furando a tentativa de corte. O lateral costarriquenho saiu de frente com Neuer e bateu no alto, mas o goleiro deu um tapa salvador. Ficava claro como o Nationalelf não deveria baixar a guarda. Somente antes do intervalo o time voltou a forçar, com um chute de Leroy Sané para fora e outro bloqueado pela zaga. Mesmo assim, nos acréscimos, Joel Campbell desperdiçou um contragolpe aberto.
Segundo tempo: Um jogo maluco e uma vitória que não bastou
Os dois times voltaram com mudanças para o segundo tempo. Kimmich reapareceu no meio-campo, no lugar de Goretzka, para a entrada de Lukas Klostermann na lateral direita. Já a Costa Rica apostava em Youstin Salas na vaga do apagado Brandon Aguilera. E a partida seguia no mesmo ritmo, com uma Alemanha ainda sem acelerar. A virada do Japão contra a Espanha no jogo paralelo fazia o time precisar de uma goleada. Parecia não haver exatamente muita vontade. Füllkrug entrou no lugar de Gündogan aos dez minutos, para aumentar a presença de área. E nada que desanimasse os costarriquenhos de buscarem uma bola vadia para assustar.
O desastre da Alemanha começava a se desenhar. Um contra-ataque rendeu o empate para a Costa Rica aos 13 minutos. Raum entregou a bola e a defesa foi permissiva, mas Neuer também falhou. Waston subiu ao ataque e estava na área para cabecear o cruzamento. O goleiro bateu rouba e Tejeda foi oportunista para marcar no rebote. Num jogo em que o camisa 1 quebrava o recorde de aparições de um goleiro em Copas, acabava marcado de maneira negativa tal qual um Sepp Maier em 1978.
A Alemanha dependia de Musiala. Era quem mais parecia disposto a jogar, num time sem sintonia. O garoto ia para cima e, numa jogada individual pela esquerda, bateu cruzado para acertar a trave. Logo depois, Musiala bagunçou de novo e Müller tinha liberdade na batida, mas Oviedo deu um carrinho providencial para travar. Já aos 17, o cruzamento rasteiro de Kimmich chegou limpo a Rüdiger, mas o zagueiro não pegou o chute em cheio e bola ainda triscou a parte externa da trave. Havia um claro drama, sendo que o Nationalelf ainda precisava torcer pela Espanha. E o time deu sorte quando Fuller não dominou numa arrancada sozinho aos 21.
Hansi Flick realizou duas trocas ousadas aos 22, com as entradas de Havertz e Götze, nas vagas de Raum e Müller. Rüdiger passava a ocupar o lado esquerdo da defesa. E a trave continuava sendo um grande empecilho. Musiala de novo tentou de fora, de novo parou no poste esquerdo de Navas. Como se o roteiro do desastre estivesse escrito, a Costa Rica virou o jogo aos 25, a partir de uma bola parada. Os Ticos ganharam três vezes a bola pelo alto no lance. Neuer saiu um tanto quanto estabanado para tentar brecar Vargas e também deu azar, numa bola que espirrou nele e entrou, computada como gol contra.
Menos mal para a Alemanha é que a resposta não demorou, com o empate aos 28. Foi talvez o primeiro lance do jogo em que os germânicos realmente meteram o pé na dividida, depois de uma bola que a defesa da Costa Rica não rifou por completo. Füllkrug seria fundamental no pivô, com um desvio que habilitou Havertz sozinho na área. Diante de Navas, o atacante finalizou com categoria. Mesmo assim, o Nationalelf não dependia só de si, com a necessidade da virada e de um empate da Espanha no outro jogo. E não que os costarriquenhos se retraíssem. Jewison Bennette e Ronald Matarrita davam novo gás, nas vagas de Venegas e Fuller.
A partida se transformou num tiroteio. A Costa Rica estava plenamente confiante de que poderia conquistar a vitória. Também estava exposta aos contra-ataques. E a Alemanha quase aproveitou aos 31. Havertz acionou Sané na esquerda, que conectou com um solitário Füllkrug dentro da área. O centroavante bateu firme, mas viu Keylor Navas se agigantar para uma defesa inacreditável, muito comemorada pelos companheiros. Qualquer coisa poderia acontecer a essa altura, até pela indefinição no Japão x Espanha. Batia também o desespero, com uma dose de nervosismo pelo que não acontecia.
A Alemanha seguia vulnerável na defesa. Cada subida da Costa Rica demandava ações arriscadas. Porém, com a quantidade de atacantes em campo, o time tinha mais recursos. Musiala tentou fazer tudo sozinho e chutou torto. O terceiro gol, da nova virada, aconteceu aos 40. Gnabry caprichou muito no cruzamento e a bola passou também por uma defesa passiva. De novo Havertz estava no lugar certo para a conclusão, no segundo pau. O que ainda não bastava para a classificação, com a vitória paralela do Japão. Havertz forçaria nova boa defesa de Navas, que sustentava as chances do time. Os alemães começaram a circular mais a bola, o que era prudente, já que marcar outros sete gols não parecia mais possível. O problema era depender dos espanhóis.
A vitória da Alemanha se definiu aos 44. Kimmich lançou para o lado esquerdo da área, onde Sané surgiu sozinho nas costas da defesa. O atacante ajeitou de cabeça e Füllkrug completou a jogada com oportunismo, para anotar seu segundo tento na Copa. O lance seria inicialmente anulado por impedimento, mas acabou confirmado pela tecnologia. Seriam dez minutos de acréscimos, contra uma Costa Rica que, neste momento, parecia desanimada. Navas ressurgiu para travar Havertz, enquanto Füllkrug teria uma cabeçada por cima do travessão. Com bem menos minutos, os atacantes mostraram como poderiam ter entrado antes. E nem Musiala conseguiu seu merecido gol, travado na hora da batida na área. Acabava a campanha alemã.
Ficha técnica
Alemanha 4×2 Costa Rica
Local: Estádio Al Bayt, em Al Khor (Catar)
Árbitro: Stephanie Frappart (França)
Gols: Serge Gnabry, aos 10’/1T; Yeltsin Tejeda, aos 13’/2T; Manuel Neuer (contra), aos 25’/2T; Kai Havertz, aos 28’/2T e aos 40’/2T; Niclas Füllkrug, aos 44’/2T
Cartões amarelos: Óscar Duarte (Costa Rica)
Cartões vermelhos: nenhum
Alemanha: Manuel Neuer, Joshua Kimmich, Antonio Rüdiger, Niklas Süle (Mathias Ginter), David Raum (Mario Götze); Leon Goretzka (Lukas Klostermann), Ilkay Gündogan (Niclas Füllkrug); Leroy Sané, Jamal Musiala, Serge Gnabry; Thomas Müller (Kai Havertz). Técnico: Hansi Flick.
Costa Rica: Keylor Navas, Keysher Fuller (Ronald Matarrita), Óscar Duarte, Juan Pablo Vargas, Kendall Waston, Bryan Oviedo (Roan Wilson); Joel Campbell, Celso Borges, Yeltsin Tejeda (Anthony Contreras), Brandon Aguilera (Youstin Salas); Johan Venegas (Jewison Benette). Técnico: Luis Fernando Suárez.



