Copa do Mundo

Por que um ensaio viking da Noruega virou polêmica antes da Copa do Mundo

Projeto beneficente com jogadores caracterizados como vikings reacendeu discussões sobre identidade nacional no país

O retorno da Noruega à Copa do Mundo após quase três décadas deveria ser celebrado apenas dentro de campo. Com uma geração liderada por nomes como Erling Haaland e Martin Odegaard, o país desperta grande expectativa entre os torcedores quanto a participação no torneio. Mas, nos últimos dias, um assunto completamente diferente passou a dominar o debate nacional: fotografias oficiais da equipe inspiradas na cultura viking.

Produzida pelo fotógrafo britânico David Yarrow, as imagens mostram jogadores da seleção vestidos como guerreiros vikings diante de um fiorde norueguês — extensas entradas de mar cercadas por altas montanhas rochosas.

O registro faz parte de uma campanha especial que prevê a comercialização de 250 cópias limitadas da fotografia. Dependendo do tamanho da impressão, os exemplares serão vendidos por valores que variam entre 100 mil e 250 mil coroas norueguesas.

A iniciativa também possui um caráter beneficente. Caso toda a tiragem seja comercializada, a arrecadação poderá alcançar cerca de 39 milhões de coroas norueguesas (mais de 21,3 milhões de reais). Parte desse montante deve ser destinada a uma associação dedicada ao combate ao câncer infantil. A combinação entre esporte, arte e filantropia ajudou a impulsionar a repercussão internacional da campanha. Dentro da Noruega, porém, a reação ficou longe de ser consensual.

Seleção da Noruega entre orgulho nacional e estereótipos

Plantel da seleção norueguesa em foto com temática viking
Plantel da seleção norueguesa em foto com temática viking (Foto: Divulgação / seleção norueguesa)

O ensaio foi recebido por muitos torcedores como uma celebração da história e da identidade cultural do país. Afinal, poucas imagens são tão imediatamente associadas à Noruega quanto a figura dos vikings, navegadores que se tornaram um dos símbolos mais conhecidos da Escandinávia.

Entretanto, a mesma escolha visual que agradou parte do público também despertou críticas de jornalistas, pesquisadores e comentaristas que questionam a mensagem transmitida pela campanha. Para esses críticos, retratar os jogadores como guerreiros pode reforçar uma visão simplificada e antiquada da sociedade norueguesa.

O argumento central é que a Noruega contemporânea costuma ser reconhecida internacionalmente por valores ligados à diplomacia e à promoção da paz. Nesse contexto, alguns observadores consideram que recorrer ao imaginário “selvagem” dos vikings não representa adequadamente a identidade atual do país.

A colunista Janne Stigen Drangsholt, do jornal “Aftenposten”, foi uma das vozes mais contundentes nesse debate. As discussões rapidamente ganharam espaço nos principais veículos de comunicação noruegueses e transformaram a campanha publicitária em uma discussão nacional sobre identidade, representação e memória histórica.

— Há uma espécie de estética masculina e uma vibração um tanto tóxica e infantil. Eles poderiam ter pensado em algo melhor — criticou a jornalista.

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As críticas ao imaginário viking

Torcedores noruegueses com bandeiras e fantasias de vikings
Torcedores noruegueses com bandeiras e fantasias de vikings (Foto: Eibner / Pressefoto Memmler / Imago)

A controvérsia aumentou quando alguns críticos passaram a relacionar elementos da campanha a símbolos frequentemente apropriados por grupos extremistas. O jornalista Markus Slettholm, do jornal “Morgenbladet”, classificou as imagens vikings como “chauvinistas e excludentes”.

— Elas lembram as preocupações dos neonazistas de 10 anos atrás — disse ele em entrevista à emissora “NRK”.

O debate também alcançou o meio acadêmico. Em artigo publicado no jornal “Klassekampen”, a pesquisadora Jane Haug Skjoldli argumentou que determinadas representações do passado nórdico podem reforçar idealizações masculinas e nacionalistas.

Ela chamou atenção especialmente para o uso de inscrições rúnicas nos uniformes da seleção para a Copa do Mundo. Segundo a pesquisadora, alguns desses elementos seriam “infelizes e típicos da linguagem simbólica neonazista e fascista”.

Em resposta, defensores da campanha argumentam que abandonar referências culturais por causa de seu uso indevido por grupos extremistas significaria abrir mão de parte importante da herança histórica do país.

O deputado Mímir Kristjánsson, integrante do Partido Vermelho (ideologicamente descrito como de esquerda e de extrema-esquerda no espectro político), foi uma das principais vozes nesse sentido. O parlamentar rejeitou a ideia de que símbolos tradicionais da cultura nórdica devam ser automaticamente associados ao extremismo.

— É uma Copa do Mundo onde culturas de todo o mundo se encontrarão. A Noruega precisa trazer sua própria cultura para que a diversidade funcione. Os nazistas não são donos de Thor, Odin, da escrita rúnica ou de Valhalla. Temos que retomar isso deles. Acho que a seleção nacional está dando um ótimo exemplo — afirmou à “NRK”.

Quem foram os vikings?

Os vikings foram povos escandinavos que viveram entre os séculos VIII e XI e ficaram conhecidos pelas expedições marítimas que os levaram a diferentes regiões da Europa, do Atlântico Norte e até da América do Norte. Originários dos territórios que hoje correspondem principalmente à Noruega, Suécia e Dinamarca, eles atuaram como comerciantes, exploradores, colonizadores e também guerreiros.

Ao longo do tempo, a cultura popular consolidou uma imagem quase exclusivamente militar desses povos. Filmes, séries e produções de entretenimento ajudaram a popularizar a figura do guerreiro forte, violento e vestido para a batalha. Historiadores, porém, costumam destacar que essa representação é apenas uma parte da história.

É justamente nesse ponto que se concentram muitas das críticas à campanha da seleção norueguesa. Para seus opositores, o ensaio reforça uma visão romantizada e excessivamente masculina do passado escandinavo. Já os defensores sustentam que a fotografia utiliza os vikings como um símbolo cultural amplo, sem qualquer intenção de exaltar violência ou ideologias radicais.

A própria Federação Norueguesa de Futebol rejeitou as acusações e afirmou que a proposta da campanha está ligada a valores considerados fundamentais para a atual geração da seleção.

— Usamos a história como uma imagem de algo que ainda hoje é forte no futebol norueguês: comunidade, voluntariado, coragem e a capacidade de se manter unido quando é preciso — explicou Ragnhild Ask Connell, diretora de comunicação da entidade.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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