Mehdi Taremi traz esperança e apoio a um Irã fragilizado pela guerra com os Estados Unidos
Seleção iraniana era dúvida no Mundial em função do conflito bélico com um dos países-sede; atacante do Olympiacos se posicionou contra o regime islâmico ao longo dos últimos anos
Entre conflitos bélicos no Oriente Médio e ameaças diárias dos Estados Unidos, a seleção iraniana viveu meses de tensão às vésperas da Copa do Mundo. Além da preocupação por seus familiares, o destino da equipe, entre junho e julho, era incerto até poucas semanas antes da convocação.
Não é à toa. Diante dos conflitos com os Estados Unidos, o Ministério de Esportes do Irã se mostrou contrário à ideia que a equipe viajasse justamente para a América do Norte, para disputar a Copa do Mundo. O país também é um daqueles com bloqueio de vistos por partes do governo estado-unidense, e Donald Trump, presidente dos EUA, não se mostrou aberto a receber a delegação iraniana durante o torneio.
Gianni Infantino tentou, durante meses, apaziguar a relação entre EUA e a seleção do Irã até a Copa do Mundo. Diversas reuniões ocorreram, com sugestões para que o Irã disputasse seus jogos no México, mas foram recusadas pela Fifa. Até que a Federação Iraniana selecionasse seus convocados na última semana e montasse seu planejamento para a Copa do Mundo, a entidade máxima passou por incertezas.
No Irã, em meio à guerra, o futebol deixou de ser prioridade. E entre os 26 nomes que irão em busca de um feito inédito (classificar a equipe ao mata-mata da Copa do Mundo), idem. Entre os milhares de quilômetros percorridos pelos Estados Unidos, e diante da apreensão no Oriente Médio, alguns desses jogadores surgem como um fio de esperança. E Mehdi Taremi, confirmado na pré-lista para o Mundial, é um destes.
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Taremi é crítico do regime instaurado no Irã
Taremi nasceu em Buxer, uma das províncias mais populosas do Irã, em 1992. Na segunda Copa do Mundo que a seleção iraniana disputou, em 1998, ainda tinha apenas cinco anos. Naquela edição, a equipe do Oriente Médio enfrentou justamente os Estados Unidos, duelo que foi divulgado pela Fifa como “Jogo da Paz”.
Depois de 28 anos, e com as tensões entre os países, Taremi se transformou na principal esperança do Irã dentro do campo. Diplomaticamente, EUA e Irã tiveram conflitos durante essas três décadas. Agora, desde o assassinato do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país, a escalada de conflitos pode afetar o próprio atacante do Olympiacos.
Em janeiro deste ano, Taremi se manifestou a favor do Irã e contra a ditadura dos aiatolás, que governam o país desde a década de 1970. Naquele mês, em duelo com o Atromitos, se recusou a celebrar um dos gols marcados no Campeonato Grego, em alusão aos protestos dos iranianos.
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— Há problemas entre o povo e o governo. O povo está sempre do nosso lado, e é por isso que estamos do lado deles. Não consegui comemorar por solidariedade ao povo iraniano. Sei que os torcedores do Olympiacos gostariam que eu estivesse feliz, mas não comemoro os gols, em solidariedade ao que o povo iraniano está passando — afirmou, à época.
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Irã busca liberação de sua seleção para disputar a Copa do Mundo
Taremi é o segundo maior artilheiro da história da seleção iraniana, com 57 gols — atrás apenas de Ali Daei, maior ídolo do país no futebol. Ambos os jogadores já se manifestaram contrários ao governo. Em 2022, Daei apoiou os protestos antes da Copa do Mundo e foi proibido pelo governo iraniano de deixar o Oriente Médio.
O atacante do Olympiacos ainda busca a liberação para viajar aos Estados Unidos. Desta vez, não há uma restrição do governo ou da federação iraniana, mas sim pela falta de visto, obrigatório para disputar o torneio. Isso se deve ao fato de, no início da década de 2010, Taremi ter servido a marinha da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês).
— Os Estados Unidos podem não conceder vistos a alguns jogadores devido ao local onde prestam serviço militar. É por isso que já começamos a nos preparar e selecionamos substitutos para os jogadores que possam não receber vistos — afirmou Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana de Futebol (FFIRI).
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A seleção iraniana treina na Turquia, enquanto aguarda uma definição do governo americano. No Grupo G, ao lado de Bélgica, Nova Zelândia e Egito, todos os jogos do Irã serão disputados nos Estados Unidos. E na ausência de Taremi, já que o governo norte-americano classifica o IRGC como uma organização terrorista, o Irã perderia seu artilheiro das Eliminatórias.
Esse cenário já ocorreu na última temporada. Quando ainda defendia a Internazionale, foi impedido de viajar aos Estados Unidos para disputar o Mundial de Clubes em função dos bombardeios de Israel a Teerã, capital iraniana.
Taremi mantém vivo o sonho de disputar o Mundial, o terceiro de sua carreira. Em 2022, no Catar, marcou dois gols, ambos contra a Inglaterra, na estreia. O líder da seleção tem a difícil missão dentro e fora de campo de representar o povo iraniano.