Copa do Mundo

Maurício Noriega: A FIFA não gosta de futebol

Decisão de fatiar a Copa do Mundo entre seis países e três continentes mostra que o negócio está dando as costas para jogadores e torcedores para faturar mais

Em seu louco desejo de ter as principais estrelas do futebol mundial jogando cada vez mais sob seu holofote e para seus patrocinadores, a FIFA pode estar ferindo de morte seu principal produto: a Copa do Mundo. Após inflar a competição para 2026, com 48 seleções se deslocando entre três países na América do Norte, a entidade maior do futebol decidiu que o Mundial de 2030, que marcará o centenário da Copa do Mundo, será realizado em seis países de três continentes: Uruguai, Argentina, Paraguai, Espanha, Portugal e Marrocos; América do Sul, Europa e África.

Em 2020, no auge da pandemia do Coronavírus, Gianni Infantino, presidente da FIFA, disse que estava preocupado com o excesso de torneios de futebol no mundo. Mas ao ser reeleito, no início de 2023, ele mudou radicalmente seu discurso. Em sua visão expansionista declarou que o futebol precisava de mais e não de menos torneios para se desenvolver. Infantino também pensou em realizar a Copa do Munda a cada dois anos, recordemos.

O que está por trás desse discurso expansionista é o desejo de ter os principais jogadores de futebol do mundo atuando cada vez mais por suas seleções nacionais e, consequentemente, para a FIFA e seus patrocinadores. Esse modelo também busca capturar os talentos para o guarda-chuva da entidade com as tentativas frequentes de aumentar as datas e os participantes do Mundial de Clubes, um projeto que a FIFA ainda não conseguiu fazer decolar.

O crescimento em popularidade e importância econômica da Champions League, o sucesso da UEFA Euro e da Nations League têm relação com a guinada da FIFA. No projeto de calendário para 2030 há a previsão de 16 dias de cessão de atletas para seleções nacionais: de 23 de setembro a 8 de outubro. O dobro do atual, que é de oito dias.

Dentro do projeto megalômano da FIFA para 2030 está um agrado político ao Uruguai, que receberá a partida de abertura da Copa do Mundo. Parece até poético ver a Copa começar cem anos depois no mesmo estádio em que nasceu. Mas a cereja do bolo ficará com a Europa, com os jogos mais importantes e decisivos divididos entre Espanha e Portugal e um agrado para Marrocos, separado da Península Ibérica pelo Estreito de Gibraltar (para usar o argumento da distância reduzida de deslocamentos).

Que pensam os jogadores que devem iniciar o Mundial jogando sob os rigores do inverno do Sul da América do Sul e depois atuarão no alto verão do ponto mais quente da Europa e no Norte da África? Fuso-horário importa? Para os torcedores, como fica a situação? Será viável comprar um pacote para acompanhar a Copa inteira com deslocamentos intercontinentais envolvidos? O congraçamento e a união de vários povos em um único país, o grande charme da Copa do Mundo, foi vendido pela FIFA. Em sua defesa, a entidade divulgou que distribuirá até 2 bilhões de reais para os clubes que cederem jogadores para as Copas de 2026 e 2030.

Acompanhar uma Copa do Mundo no local da competição, viajar pelo país-sede, presenciar o espetáculo de torcedores de diversas culturas e formas de torcer interagindo será cada vez mais caro e, talvez, reservado para convidados da FIFA e seus patrocinadores. Acompanhar e cobrir um Mundial ficará cada vez mais caro e difícil para emissoras de TV, streaming, rádio e empresas de comunicação em geral. Os jogadores serão submetidos a maratonas de viagens e deslocamentos, mudanças climáticas e terão cada vez menos tempo de descanso e recuperação.

Gulosa, a FIFA pouco se importa com as reservas naturais de seu negócio: os atletas e os torcedores. A bola que ela quer fazer rolar pelo mundo é a da fortuna. O futebol e seus artistas são um detalhe.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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