Copa do Mundo

Lloris e Modric: Lideranças distintas, mas prontas para a eternidade oferecida pela taça

Antes que a decisão da Copa do Mundo realmente comece no Estádio Luzhniki, uma figura conhecida surgirá no gramado carregando o prêmio maior. Philipp Lahm será o “guardião da taça”, o convidado de honra que trará o troféu e o colocará à vista de todos, exibindo o objeto de desejo inigualável em um campo de futebol. O veterano desfrutará o momento por ter sido o capitão da seleção campeã quatro anos antes. E sabe que, assim como ele, seus sucessores estão prontos a serem eternizados com o brilho dourado nas mãos. Tanto Hugo Lloris quanto Luka Modric representam os anseios de suas seleções nos últimos anos, diferentes maneiras de liderança e também histórias respeitáveis por suas qualidades como atletas.

A experiência na seleção é a primeira referência de ambos. Aos 32 anos, Modric é o quarto mais velho no elenco da Croácia, mas a diferença de idade não é tão grande em relação aos demais veteranos. Além disso, nenhum outro possui a sua rodagem com a camisa quadriculada. São 112 jogos a quem estava presente no elenco desde a Copa do Mundo de 2006 e, além de três Mundiais, também possui três Eurocopas no currículo. É quem melhor entende as frustrações que a seleção croata já viveu e tem noção de que esta é a grande oportunidade – pessoalmente, talvez sua última. Já perdeu pênalti em jogo decisivo na Euro 2008, nem passou das Eliminatórias para a Copa de 2010, caiu em fases de grupos na Euro 2012 e na Copa de 2014, viu o time sofrer um gol no fim do segundo tempo da prorrogação na Euro 2016. Por enquanto, apesar dos riscos, tudo vai dando certo aos alvirrubros. Modric se torna um dos responsáveis diretos.

Lloris, a meses de completar 32 anos, é o quinto na lista de mais velhos na seleção francesa, mas o primeiro entre os titulares absolutos. Como Modric, possui mais jogos pela equipe nacional do que qualquer outro convocado, 103 no total. Assumiu a meta dos Bleus às vésperas da Copa do Mundo de 2010, e participou de todas as competições internacionais desde então, experimentando diferentes provações. Sabe o peso que a má organização e os conflitos internos podem ter, vide a catástrofe ocorrida no Mundial da África do Sul, com o racha com o técnico Raymond Domenech ficando evidente. Na Euro 2012, outro desastre com a insatisfação pública de algumas estrelas, que acabaram afastadas depois disso. E se o mesmo se prenunciava meses antes da Copa de 2014, o grupo se fechou, superados os temores nas Eliminatórias, e teve uma campanha digna no Brasil. Desde então, os horizontes se abriram, ainda que os franceses não tenham escapado da decepção de perder uma Eurocopa diante de sua torcida em 2016, com Lloris inoperante diante do chute certeiro de Éderzito.

Lloris ganhou a braçadeira pela primeira vez em 2010, uma época em que ele mesmo tentava se firmar na seleção, suplantando o instável Patrice Evra no posto. Virou o capitão de vez em fevereiro de 2012, com Laurent Blanc, sem ajudar muito a cuidar do ambiente na Eurocopa seguinte. Na época, sofria com críticas por sua timidez, e por isso precisou mostrar outra faceta, uma liderança mais moderada. Respaldado, foi mantido na posição por Didier Deschamps, o capitão do título de 1998. A influência do arqueiro sobre o grupo, afinal, é perceptível, mesmo que se distancie de alguns estereótipos. Não é necessariamente quem fala mais ou mais alto.

“O capitão precisa ser respeitado, ser um líder. Os chefes de verdade são o treinador e o presidente, que tomam as decisões fora de campo. Este não é meu papel. Existem várias maneiras de ser capitão. A mais importante, eu penso, é ser quem você é. Eu não vou inventar uma personalidade. Futebol é envolvente e isso mexe com a mentalidade dos jogadores. Você não precisa viver com os velhos clichês que fazem um bom capitão. Não estou aqui para me policiar, mas para ajudar meus colegas, para transmitir as informações do treinador, para ser um exemplo. E para jogar de maneira consistente, porque é em campo que você legitima sua função. Mas também é importante entender que o capitão não pode estar sozinho. Líderes são importantes, mas apenas quando fazem parte do grupo. Sinto-me confiante porque tenho o respeito dos outros, e sou respeitado por aquilo que sou como homem. Somos escolhidos capitães e sou o que sou, nunca tentei me mudar. Para ser honesto, não gosto dizer que sou capitão. A braçadeira eleva o seu status, mas prefiro me ver como um igual, um membro do time”, avaliou Lloris, sobre sua função.

Modric, por sua vez, levou mais tempo para assumir a responsabilidade com a braçadeira. Durante os primeiros anos de carreira, acompanhou o estilo enérgico de Niko Kovac. Já o grande espelho viria ao longo da última década: Darijo Srna, aquele que lidera pelo exemplo, dono de atitudes louváveis, de uma fome de bola incomum e de também qualidade técnica. O cara que defendeu a seleção croata mais vezes do que qualquer outro e que, durante a Euro 2016, precisou deixar a concentração para acompanhar o enterro do próprio pai, mas voltou para seguir seu compromisso. Depois do torneio, aos 34 anos, o lateral deu adeus à seleção, mas também deixou sua lição a Modric, a escolha para substituí-lo na função. Nos últimos dois anos, a tarja foi do camisa 10.

“É um belo sentimento, estou orgulhoso. Preciso agradecer a confiança em mim e espero justificar minha nova função. É sempre bom me encontrar com os companheiros da Croácia. Temos um atmosfera sensacional e acredito que podemos seguir em frente. É a principal condição para atuar em alto nível e alcançar os melhores resultados. Nós só precisamos repetir o que se saiu bem em outras competições”, apontou o meio-campista, logo após assumir a braçadeira em 2016. A ascendência do camisa 10 sobre os companheiros certamente pesa bastante, não apenas pelo longo convívio, mas também pelo respeito que inspira por sua trajetória.

Dentro de campo, a liderança mais evidente de Modric é a técnica. O homem que recebe a bola e pensa o jogo da Croácia. Que faz a roda girar, embora tenha companheiros competentíssimos para ajudá-lo ou mesmo para assumir os encargos quando o meio-campista não vive as suas melhores jornadas. Diante da inspiração do camisa 10, todavia, a seleção croata consegue atingir seu máximo nível de excelência. É o que se viu na destrutiva atuação contra a Argentina, por exemplo. Modric, em compensação, também consegue ser o líder pelo exemplo. E como negar isso, vendo tudo o que ele correu contra a Rússia, a maneira como ele vem se doando nesta Copa? Da mesma forma, tem um currículo que fala por si, seja pelas taças empilhadas com o Real Madrid, seja pela vivência com a seleção. Que a braçadeira seja uma incumbência relativamente recente, soa como natural.

Lloris, diferentemente, não tem tantos companheiros tarimbados na seleção, que compartilhem mais esta liderança. Por isso mesmo, precisa exercer a sua voz de comando, aproveitar sua inteligência nos discursos para aglutinar o grupo. A recuperação antes da Copa de 2014 foi importante justamente porque ele desempenhou este papel, saindo em defesa de um elenco criticado, rumo a uma campanha digna no Mundial. E em uma equipe relativamente jovem, com a maioria absoluta dos titulares abaixo dos 25 anos, pesa bastante este tipo de atitude, de alguém que se assuma como escudo. Faltam mais títulos em seu currículo, mas não a vivência de lidar com o ambiente da seleção desde o sub-18 ou com clubes que sempre geraram expectativas. Já quando a bola rola, sua influência precisa ser calma, mas explosiva, entre a segurança de um goleiro que pode controlar os ânimos do time com suas qualidades e também acordá-lo com um milagre, como já ocorreu mais de uma vez nesta Copa.

Lloris e Modric, sobretudo, são exemplos de que não existe uma fórmula mágica para o sucesso, para ser um grande jogador, para ser um líder. O goleiro veio de uma origem bastante incomum. Filho de um banqueiro e de uma advogada, Lloris nasceu em uma família rica de Mônaco. Jogou tênis até o início da adolescência e poderia escolher outros caminhos, mas preferiu o futebol. Não é o contexto que nega o seu esforço para superar as desconfianças e também conciliar sua dupla jornada, enquanto seguia com os estudos em escolas públicas da Côte d’Azur, formando-se bacharel em ciências. Além disso, as condições financeiras não o eximiram de outras dificuldades, como a perda da mãe quando tinha 21 anos e já atuava profissionalmente pelo Nice. Neste momento, ganhou respeito ao redor do país ao entrar em campo apenas dois dias após o falecimento, enfrentando o luto para seguir em frente a sua vida.

Obviamente, não se comparam as incertezas de Lloris ao longo de sua juventude e o horror que Luka Modric encarou durante seus primeiros anos de vida. O croata nasceu em uma vila ao norte da cidade de Zadar, então parte da Iugoslávia. Filho mais velho de um mecânico de aeronaves e de uma operária da indústria têxtil, o garoto era criado pelo avô, também chamado Luka e de quem levara o nome em homenagem, quando a Guerra de Independência da Croácia estourou, no início da década de 1990. Seu pai foi convocado para o exército. Já o avô, durante um dia comum de trabalho na fazenda, enquanto tocava o gado, acabou capturado por uma facção composta por sérvios que viviam na Croácia. Ao lado de outros idosos da comunidade, foi executado a sangue frio pela milícia, que ainda ameaçou de morte o restante da família e ateou fogo na casa onde moravam.

Diante da barbárie, os Modric deixaram a localidade e se mudaram a Zadar, onde passaram a viver num hotel para refugiados. A realidade do garoto era permanecer enclausurado naquele espaço, convivendo com outras crianças que fugiam da guerra. Por mais que granadas caíssem diariamente na cidade, os pais tratavam de afastá-los da crueldade e criá-los em uma bolha, sem que as notícias sobre o conflito afetassem diretamente suas infâncias. Durante os anos mais pesados de batalhas, a bola se tornou a melhor válvula de escape a Luka, em meio à escassez de recursos. Ficou lembrado como o guri magrinho que adorava jogar no estacionamento do hotel.

O talento era visível desde então e, no momento em que as consequências da guerra abrandaram, Modric passou a integrar as categorias de base do NK Zadar, a partir dos 11 anos. Tempos depois, os pais do prodígio tinham a chance de retornar à vila onde moravam anteriormente, com o fim das ameaças de morte e dos conflitos. Entretanto, justamente pensando na carreira do adolescente, preferiram continuar em Zadar, vivendo em outro hotel a refugiados, e assim dar condições para que o jovem continuasse aprimorando o seu talento. O físico franzino era um problema em seu desenvolvimento e o novato chegou a ser recusado pelo Hajduk Split. Contudo, aos 16 anos, ganhou a confiança do Dinamo Zagreb e viu sua carreira deslanchar.

Não são as cicatrizes, porém, comuns a tantos outros compatriotas, que fazem Modric ser uma unanimidade no país. Pelo contrário, as relações que construiu no Dinamo viraram motivo de controvérsia. O camisa 10 nunca escondeu a gratidão por Zdravko Mamic, um dos responsáveis por sua chance na equipe, que também o ajudou financeiramente no início da carreira. No entanto, o dirigente é execrado pelos próprios torcedores como um símbolo da corrupção no futebol croata. Foi indiciado por fraude fiscal e subornos, além de ter sido condenado a seis anos e meio de prisão por ter se apropriado indevidamente de fundos do clube – inclusive, embolsando parte da própria transferência de Modric ao Tottenham. Diante da batalha judicial de Mamic, durante os últimos meses o meia chegou a depor a seu favor, e também foi indiciado sob suposto falso testemunho. Aquele que deveria ser um ídolo inegável e um exemplo, então, passou a ser achincalhado por muitos croatas que desaprovavam seus laços escusos. Tornaram-se comuns os insultos públicos e as ameaças ao veterano, até mesmo nas paredes do próprio hotel para refugiados onde cresceu. Questionaram também a validade de sua braçadeira.

Fora do país, a possível façanha de Modric pode representar muito. É a consagração de um craque como o melhor da história de seu país e um dos melhores de sua posição ao menos neste século, podendo ainda levar para casa a Bola de Ouro e outros prêmios. Já a muitos croatas, a taça nas mãos do camisa 10 talvez valha uma reconciliação, embora não o isente das controvérsias. Lloris, por outro lado, seria de vez reconhecido como um dos principais goleiros de sua época e muito provavelmente o melhor da posição que a seleção francesa já teve. Além disso, viraria também símbolo de uma união que superou os problemas internos dos Bleus. Independentemente de quem for glorificado, a braçadeira concede um rito de passagem à memória das Copas. Entre diferentes contextos e histórias de vida, o troféu estará em boas mãos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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