Filho do cinema e operário no futebol: A rota cinematográfica de Liam Millar, atacante do Canadá
Criado nos bastidores do cinema e amparado pelo técnico Jesse Marsch durante grave lesão, atacante chega à Copa como peça de encaixe coletivo
Enquanto Alphonso Davies virou o rosto global da seleção canadense e Jonathan David se consolidou como principal referência ofensiva do país, Liam Millar seguiu um caminho bem mais discreto. Sem status de estrela ou números chamativos na Europa, o ponta construiu a carreira entre mudanças de país, empréstimos e adaptações constantes.
Ainda assim, existe um detalhe curioso que ajuda a explicar por que sua história foge do caminho mais comum percorrido por jogadores canadenses: Liam cresceu em uma família ligada à indústria cinematográfica.
O pai, Alan Millar, teve passagem pelas categorias de base do Charlton Athletic antes de migrar para o entretenimento. Alan construiu carreira nos bastidores do cinema e da televisão britânica como “film spark” (o termo técnico em inglês para um eletricista de set) e, posteriormente, “rigging gaffer” — função ligada à iluminação e montagem técnica de grandes produções.
Ele trabalhou em produções de grande porte e participou de equipes técnicas ligadas a séries como Game of Thrones e Peaky Blinders. Enquanto isso, a mãe de Liam, Jo-Ann MacNeil, consolidava o próprio nome em Hollywood como maquiadora e chefe de departamento de maquiagem.
Seus créditos incluem filmes como Duna, Blade Runner 2049, Esquadrão Suicida — cuja equipe venceu o Oscar de Melhor Maquiagem e Penteado –, Resident Evil 5: Retribuição, entre outros.
A mudança para a Inglaterra, quando Liam tinha cerca de 13 anos, foi motivada diretamente pelo seu sonho de se tornar jogador de futebol, mas só foi viável graças à profissão dos pais. Após ser cortado em testes no Toronto FC, o jovem decidiu que queria tentar a sorte no futebol europeu. Para apoiá-lo na base do Fulham, da Premier League, o pai mudou-se com ele e transferiu seu trabalho para os estúdios britânicos.
Enquanto isso, sua mãe permaneceu por um período trabalhando em grandes produções na América do Norte para ajudar a financiar os custos da família. É um caso incomum de forte sacrifício familiar: enquanto muitos jogadores canadenses precisaram deixar o país sozinhos em busca de estrutura competitiva melhor, Liam acabou chegando cedo ao futebol europeu amparado pela estrutura que os bastidores do cinema proporcionaram à sua família.
@liammillar11 last home game of the season brought together 4 generations of Millar!! Not the result but a great family night!! @pnefc pic.twitter.com/Jtz9kx5t2G
— Alan Millar (@Alan_B_Millar) April 30, 2024
A rota de um andarilho: Liam Millar foi da base do Liverpool ao ‘operariado’ europeu
Antes da Inglaterra, Liam Millar cresceu entre Brampton e Oakville, em Ontário. Passou pelas categorias de base do Brampton Youth SC e do North Mississauga SC antes da mudança definitiva para o futebol inglês.
A adaptação, porém, não foi simples. Em entrevistas, o próprio Millar já comentou sobre o impacto físico e competitivo das bases inglesas. Saiu de um contexto diferente no Canadá para um ambiente muito mais acelerado e exigente dentro das categorias de base. No Fulham, chamou atenção pela velocidade e pela capacidade de atacar espaços. Em 2016, o Liverpool decidiu contratá-lo após destaque na base do clube londrino.
Millar passou pelas categorias sub-18 e sub-23 dos Reds, chegou a participar de um jogo oficial no time principal sob o comando de Jurgen Klopp (contra o Shrewsbury Town, na FA Cup de 2019/20), mas percebeu rapidamente que teria pouco espaço real em um elenco principal cheio de estrelas. Vieram então os empréstimos para o Kilmarnock, na Escócia, e para o Charlton Athletic — clube onde seu pai havia começado —, na terceira divisão inglesa.
Nenhuma dessas passagens foi explosiva. Em 2021, deixou o Liverpool em definitivo para jogar no Basel. Foi na Suíça que conseguiu a sequência mais estável da carreira até então. Na primeira temporada, marcou gols importantes, participou da campanha europeia do clube na Conference League e começou a ganhar espaço mais consistente também na seleção canadense.
Depois, passou por empréstimo pelo Preston North End e transferiu-se em definitivo para o Hull City, mantendo praticamente o perfil de jogador: útil taticamente, intenso sem bola e valioso em transições rápidas, mas sem números ofensivos chamativos. Millar entrega profundidade, velocidade e recomposição defensiva. É um jogador mais funcional do que brilhante.
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O papel de Liam Millar no Canadá
Na seleção canadense, Liam Millar ocupa um espaço parecido com o que construiu nos clubes europeus: importante pela dinâmica, não pelo protagonismo. Desde que estreou pela equipe principal em 2018, ainda sob comando de John Herdman, virou opção recorrente pelos lados do ataque. Sua capacidade de acelerar transições e atacar profundidade encaixou bem em uma seleção que cresceu explorando velocidade pelos corredores.
Com Davies atraindo atenção pelo lado esquerdo e Jonathan David funcionando como principal referência ofensiva, Millar passou a ocupar funções complementares. Na Copa do Mundo de 2022, disputada no Catar, participou da estreia canadense contra a Bélgica, entrando nos minutos finais. O Canadá acabou eliminado ainda na fase de grupos, mas o torneio marcou o retorno do país ao Mundial depois de 36 anos.
No entanto, o caminho até o ciclo de 2026 exigiu um teste de resiliência que foi muito além das quatro linhas. Em outubro de 2024, atuando pelo Hull City, o ponta sofreu uma grave lesão no ligamento cruzado anterior (LCA) do joelho, enfrentando um longo e doloroso processo de 11 meses de recuperação física e mental.
Nesse período de isolamento, um apoio crucial veio justamente do comando técnico da seleção. Jesse Marsch assumiu um papel quase paternal, acompanhando Millar diariamente e demonstrando uma sensibilidade tocante — o treinador chegou a convidar o atleta e sua família para sua casa na Toscana durante o processo.
— Ele foi muito importante para mim. Acho que ele é um cara incrível, não só um grande treinador, mas um grande ser humano. Ele entende o lado humano do futebol. Para ele, não é só futebol: nós também somos pessoas. Ele conseguiu me ajudar a atravessar um período difícil da minha vida. Me ofereceu muito apoio, muita confiança e, quando eu voltei, eu senti essa confiança de novo. Isso só pode me ajudar em campo — disse Liam em entrevista ao site da Fifa.
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O torneio de 2026 terá contornos de enredo cinematográfico para Millar. Além do privilégio de jogar uma Copa do Mundo em casa, o sorteio colocou a Suíça no caminho do Canadá na fase de grupos. Será o reencontro do ponta com o país onde defendeu o Basel entre 2021 e 2024, enfrentando ex-companheiros de clube em um dos maiores palcos do planeta.
Mais do que as metas pessoais ou o reencontro com o futebol suíço, o garoto nascido em Toronto entende o peso histórico de fazer parte desta geração. Para ele, o torneio tem a missão de consolidar uma mudança cultural definitiva no país do hóquei no gelo.
— Acho que pode ter um impacto gigantesco. Quando eu era criança, não imaginaria que isso seria possível, porque o futebol não era tão grande quanto é hoje no Canadá, e eu nunca tive a chance de ver o Canadá jogar uma Copa do Mundo quando eu era criança. Eu só consigo imaginar que crianças pequenas que estão vivendo no Canadá e nos vendo em uma Copa do Mundo vão pensar: ‘Eu quero fazer isso um dia’. A gente quer criar o caminho para alguém depois da gente. Pode ajudar a transformar o país para se tornar uma nação futebolística.
No fim, a história de Liam Millar acaba sendo uma das mais incomuns do futebol canadense recente. Filho de dois profissionais que passaram décadas nos bastidores de grandes produções do cinema e da televisão, ele cresceu cercado por mudanças de país, aeroportos e rotinas pouco convencionais.
Poderia ter seguido caminho parecido ao dos pais, escondido atrás das câmeras do entretenimento. Preferiu os gramados, onde agora tenta ajudar a desenhar o roteiro mais ambicioso da história do futebol de seu país.