Kudus apresentou credenciais de protagonista por Gana – e sua inexplicável substituição custou bastante ao time
Kudus sobrava como o melhor de Gana e tinha dado a assistência do gol, mas deixou o campo e o time caiu de imediato
Gana chegou à Copa do Mundo com uma equipe titular ainda em formação. Muitos dos principais talentos à disposição dos Estrelas Negras estão em eclosão, enquanto outros optaram apenas recentemente pela nacionalidade ganesa. A equipe teve dificuldades, mas conseguiu competir com Portugal na derrota por 3 a 2. E se ainda há claras necessidades de acertos, pelo menos um protagonista Gana tem – para o presente e para o futuro. Mohammed Kudus, aos 22 anos, fez uma excelente estreia em Mundiais. Sobrava como o melhor em campo de seu time, até que incompreensivelmente foi substituído após servir uma assistência. Os ganeses viram o resultado escapar ali.
Kudus é um dos tantos talentos descobertos pelas academias de futebol que fincam bases na África. O meia surgiu na Right to Dream, um dos principais projetos existentes em Gana. A academia foi criada por um antigo olheiro do Manchester United e tamanha é sua força que se tornou dona do Nordsjaelland, clube da primeira divisão do Campeonato Dinamarquês. Kudus aproveitou o intercâmbio constante e se mudou à Dinamarca em 2018, aos 18 anos. Sua estreia pelo clube aconteceu sob as ordens de Kasper Hjulmand, o atual treinador da seleção dinamarquesa, com ampla história no Nordsjaelland e inclusive um título da liga à frente da agremiação.
Duas temporadas bastaram para Kudus apresentar seu talento no Nordsjaelland. Começou a ganhar minutos em 2018/19, antes de se tornar um dos principais jogadores da equipe em 2019/20 – e atuando em quase todas as posições do meio para frente. Seu potencial não passou despercebido e o Ajax desembolsou €9 milhões para contratar o jovem de 20 anos em agosto de 2020. Entretanto, o início do ganês em Amsterdã teria as suas tribulações. Kudus sofreu com diferentes lesões e, em suas duas primeiras temporadas, não conseguiu ter grande sequência pelos Ajacieden.
A própria seleção de Gana precisou esperar um pouco mais para desfrutar de Kudus. Após participar do Mundial Sub-17 em 2017, sua estreia pelo time principal aconteceu em 2019, mas raras vezes o prodígio esteve à disposição. Não pôde disputar a Copa Africana de Nações em 2022 por contusão e de longe veria a campanha vexatória dos Estrelas Negras, a pior do país na história da competição. Ao menos, o jovem se recuperou para disputar os duelos finais contra a Nigéria nas Eliminatórias e, titular em ambas partidas, deu sua contribuição para que os ganeses se garantissem no Mundial do Catar – com dois empates.
Para felicidade de Gana e também do Ajax, essa temporada de 2022/23 confirma todas as expectativas ao redor de Kudus. Se o trabalho de Alfred Schreuder na Johan Cruyff Arena não anima, o ganês é uma das melhores notícias dos Ajacieden. O camisa 20 é aproveitado de diferentes maneiras: como meia, como ponta direita e também como falso 9. O jovem não é alto, mas garante mobilidade e ótima leitura de jogo. Também sabe marcar seus gols, com 10 tentos em 21 partidas pelo clube. Algumas de suas principais aparições aconteceram na Champions League.
Dentro do elenco jovem de Gana, Kudus naturalmente ascendeu como uma das principais alternativas. O técnico Otto Addo aproveita o camisa 20 mais vezes no meio-campo, até mais próximo dos volantes. Não parece ser problema a quem se declara fã de Thiago Alcântara, além de admirar Michael Essien e Sulley Muntari. Nesta estreia de Copa do Mundo, o camisa 20 foi o principal elo dos Estrelas Negras no meio. Mesmo que o time não tenha brilhado no primeiro tempo, Kudus foi o principal respiro. Fechou a cabeça de área pela faixa central, mas também acelerou e buscou o drible para abrir a defesa de Portugal. Faltou um pouco mais de colaboração dos companheiros. Já no segundo tempo, o time cresceu com auxílio do novato.
Kudus carregou o ataque de Gana em bons momentos da partida. Quando o time não criava nada, partiu do jovem a iniciativa de arriscar as finalizações. Mandou um tiro perigoso ao lado da trave, antes de parar no goleiro Diogo Costa. E o gol de empate de Gana sairia na conta do camisa 20. Num passe infiltrado de Abdul Baba Rahman, Kudus passou nas costas de João Cancelo e aproveitou o buraco na área. Danilo Pereira ainda tentou afastar o passe, mas a bola chegou para André Ayew completar às redes.
Pois quando Gana parecia renascer no jogo, o técnico Otto Addo tomou uma decisão incompreensível: tirou André Ayew e também Kudus. O autor do gol era uma substituição mais entendível, porque não fazia uma boa atuação até o tento, mas Kudus era exatamente o melhor do time. O camisa 20 não escondeu certa insatisfação e, de fato, o time sentiu sua perda. Os ganeses se desmontaram e tomaram dois gols num estalo. Por mais que Osman Bukari tenha descontado e os Estrelas Negras ameaçassem no final, ficou a impressão que o resultado escapou quando o meio-campista seguiu ao banco de reservas.
O placar fica aquém daquilo que Gana pode conseguir, mas deixa uma impressão de que os Estrelas Negras podem competir pela classificação. O elenco tem alguns recursos e pegará dois oponentes que apresentaram menos virtudes nesta primeira rodada. Além disso, os ganeses saem com um dos destaques do grupo. Kudus foi a principal liderança técnica da equipe e se coloca entre as potenciais revelações da Copa. Pela idade, também para protagonizar os ganeses por mais tempo.



