Copa do Mundo

Koulibaly homenageou o eterno Bouba Diop com sua braçadeira e com outro gol para a história de Senegal

Nos dois anos da morte de Bouba Diop, o grande herói de Senegal em 2002, Koulibaly prestou tributo e seria premiado com um gol gigantesco para os Leões da Teranga

Há 20 anos, Senegal se reunia como uma só nação ao redor de uma bandeirinha de escanteio em Seul. A alegria dos Leões da Teranga, especialmente de Papa Bouba Diop, deixou um retrato para a posteridade das Copas do Mundo. O meio-campista anotou o gol da vitória por 1 a 0 sobre a França, que derrubava os atuais campeões na abertura do Mundial de 2002 e carregava um significado além, como um triunfo de colonizados sobre colonizadores. Bouba Diop permaneceu tratado como um herói nacional até seus últimos dias, falecido em 29 de novembro de 2020, aos 42 anos, vítima de uma doença neurodegenerativa. Nos dois anos exatos de sua morte, com as memórias do camisa 19 tão vivas, Senegal conquistou sua vitória em Copas mais importante desde então. Kalidou Koulibaly, o capitão que trazia o número 19 escrito de caneta na braçadeira, seria decisivo. Pareceu inspirado pelo lendário Bouba Diop para marcar o gol que valeu a vitória por 2 a 1 sobre o Equador e colocou os senegaleses nas oitavas de final do Mundial, como não acontecia há duas décadas.

Koulibaly faz parte de uma geração de senegaleses marcada por aquelas histórias da Copa do Mundo de 2002. O garoto estava às vésperas de completar 11 anos quando a inesquecível vitória em Seul aconteceu. E as vibrações daquela partida seriam mais fortes num filho de imigrantes que vivia em Saint-Dié-des-Vosges, cidade no noroeste da França onde o futuro zagueiro nasceu. Ele estava na escola e imaginava que não conseguiria assistir ao jogo de abertura do Mundial, até que seu milagre infantil aconteceu.

“Eu me lembro que, durante a Copa do Mundo de 2002, tivemos que ir à escola durante a partida entre França e Senegal. O torneio acontecia na Coreia do Sul e no Japão, então havia diferença de fuso. Todos nós saímos para o recreio e jogamos futebol como se fosse a final da Copa, mas então tivemos que voltar para a sala e estudar. Estávamos muito deprimidos. A partida era às duas da tarde. À 1h59 o professor nos disse para abrirmos os livros. Abrimos. Estávamos sonhando, porém. Ninguém conseguia se concentrar na leitura. Pensávamos sobre Henry, Zizou, Diouf… Dois minutos se passaram. Três. Então nosso professor olhou para o relógio e disse: ‘Ok, todo mundo pode guardar seus livros'”, relembrou Koulibaly, no Players’ Tribune.

“Não entendemos direito. Aí ele falou: ‘Agora vamos assistir a um filme educativo que tenho certeza que todos vão achar muito chato’. Ele pegou o controle remoto e ligou a TV na partida. ‘Esse é nosso pequeno segredo, tudo bem?’. Foi um dos momentos mais lindos da minha vida. Éramos 25 na turma – turcos, marroquinos, senegaleses, franceses – mas estávamos todos juntos. Eu me lembro claramente de, depois da vitória de Senegal, voltar para casa andando e ver os pais dos meus amigos senegaleses dançando nas ruas. Eles estavam tão felizes que os pais dos turcos e franceses começaram a dançar com eles. Essa memória fica na minha cabeça, porque futebol é sobre isso. É assim que minha vizinhança era”, complementou.

Koulibaly pôde se inspirar desde cedo na seleção senegalesa de 2002. Pôde tratar Papa Bouba Diop como um grande exemplo. E o jovem de origem senegalesa tinha talento. Despontou no Metz, antes de fazer sucesso também no Genk e chegar ao Napoli em 2014. Passou pelas seleções francesas de base e disputou até o Mundial Sub-20 em 2011, mas optou por defender Senegal no nível adulto. Tomou sua decisão em setembro de 2015, quando já começava a construir sua idolatria em Nápoles, num momento em que Didier Deschamps se dizia atento à progressão do zagueiro. O beque preferiu se tornar parte da geração que recolocou os Leões da Teranga em uma Copa do Mundo.

“Conversei com minha esposa e escolhi Senegal. Quando vi o brilho nos olhos dos meus pais quando disse a eles que escolhi Senegal, fiquei realmente feliz e confortável com a minha escolha”, declarou Koulibaly, em 2018, à BBC Sport. “Não tenho arrependimentos porque quero escrever o futuro do futebol de Senegal e espero que consiga fazer isso. Aprendi a cultura francesa na escola e a amo, mas também tenho outra cultura em casa, a de Senegal. Acho que crescer desse jeito me tornou a pessoa que sou hoje – porque tenho duas culturas”.

(JUNG YEON-JE/AFP via Getty Images/One Football)

A Copa do Mundo de 2018 serviu de marco à carreira de Koulibaly, mas não ainda a um final feliz. O zagueiro era titular absoluto de Senegal, mas a campanha foi de mais a menos. Depois da vitória sobre a Polônia na estreia e do empate com o Japão na partida seguinte, a equipe perdeu a classificação na rodada final contra a Colômbia. Os senegaleses precisariam dar a volta por cima nos anos seguintes e o beque se tornaria uma liderança ainda mais expressa nesse processo. Inclusive, assumiu a braçadeira de capitão.

Koulibaly fez uma senhora Copa Africana de Nações em 2019. Foi uma das principais razões para a campanha de Senegal até a final. Porém, sua ausência na decisão seria muito sentida. Suspenso por acúmulo de cartões amarelos, o beque viu do lado de fora a derrota para a Argélia. Os anos seguintes tornariam Senegal mais forte, Koulibaly mais influente. Seu peso no Napoli é histórico. E tal imponência se notou também na seleção, em especial na conquista da Copa Africana de 2022. Enfim, os Leões da Teranga conseguiam o inédito título que tanto sonhavam. O prêmio de melhor jogador ficou com Sadio Mané, mas talvez fosse até mais justo se acabasse nas mãos do capitão. O desempenho do camisa 3 foi colossal, gravado com a taça nas mãos.

E a liderança de Koulibaly precisou preponderar novamente rumo à Copa de 2022, primeiro na dura classificação contra o Egito, depois pelo baque de não ter Mané ao lado. O zagueiro pode enfrentar dificuldades de adaptação nesse início no Chelsea, mas nada que atrapalhe a ascendência dentro dos vestiários de Senegal. Uma grandeza que, sem o principal companheiro ao lado, teria que se reiterar no Mundial. É o que o capitão faz no Catar, como uma referência técnica e mental aos Leões da Teranga. Não se destacou tanto na estreia contra a Holanda ou na vitória sobre o Catar. O protagonismo aconteceria quando mais preciso, diante do Equador.

O número 19 na braçadeira era uma inspiração. Vários torcedores levaram homenagens a Papa Bouba Diop nas arquibancadas e o capitão não seria diferente, com uma lembrança que remetia tanto à sua história. A atuação do camisa 3 seria digna daqueles heróis de 2002. O primeiro tempo feito por Koulibaly contra o Equador já seria excelente. O beque travou qualquer esboço de ataque dos sul-americanos, sempre muito firme nos lances. Enner Valencia ficou em seu bolso. Permitiu a superioridade dos senegaleses, que sobraram no ataque e marcaram seu primeiro gol. Já no segundo tempo, quando La Tri cresceu e passou a pressionar os Leões da Teranga, o time cedeu o empate numa bola parada na qual o zagueiro não pôde fazer nada. Mas pôde reagir de imediato.

Dois minutos foram suficientes para a resposta de Senegal. Para a vitória decisiva e para o gol de Koulibaly. O zagueiro subiu ao ataque para uma cobrança de falta e recebeu o presente num erro da defesa equatoriana. A bola chegou limpa em seus pés, mansa, pedindo para ser chutada. O capitão bateu com gosto e estufou as redes. Experimentou as sensações que Bouba Diop tinha vivido há 20 anos e provocou novas vibrações em todo o seu país. Mais anedótico ainda, foi apenas o primeiro gol de Koulibaly pela seleção. É até curioso que tenha demorado tanto, considerando a qualidade do beque e inclusive suas contribuições nos clubes. Ainda assim, o esperado tento veio na hora certa.

Nos 25 minutos finais da partida, coube a Koulibaly liderar a resistência de Senegal contra o empate do Equador. Mas a verdade é que, mentalmente, os sul-americanos haviam perdido qualquer crença em si mesmos. Não seriam tantos perigos assim contra o forte sistema defensivo senegalês. A vitória valeu a classificação e vaga nas oitavas que tinha escapado quatro anos antes. Garantiu um lugar ainda maior a Koulibaly entre os grandes ídolos da história de Senegal. E o tributo continuou na saída do gramado. Apontou o número 19 na braçadeira, exibiu ao lado dos companheiros um cartaz com a imagem de Bouba Diop que dizia: “Um leão de verdade nunca morre”. É essa eternidade que as Copas garantem e que o capitão também desfrutou à sua maneira.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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