Copa do Mundo

Justiças e injustiças: a via-crúcis do México pelas oitavas de final da Copa do Mundo

O tempo passou, o tempo voou, e o destino colocou novamente o México diante de um desafio de dificuldade considerável nas oitavas de final de uma Copa do Mundo. É menor (embora existente) o número de pessoas que acredita ser El Tri capaz de superar a Seleção Brasileira, nesta segunda, em Samara. De todo modo, o time mexicano entrará em campo sabendo que terá uma motivação adicional, além de superar aquela considerada pelo técnico Juan Carlos Osorio “a melhor seleção do mundo”: superar também a “maldição do quinto jogo”.

Pois é: corroborando sua tradição em Copas (só não esteve nos Mundiais de 1934, 1938, 1974, 1982 e 1990), o México quase sempre marca ponto nas oitavas. Mas também, delas não passa: desde 1994 elas representam o ponto final para El Tri na Copa, iniciando uma sequência que simboliza cautela e pessimismo para os torcedores. Aliás, é possível dizer que tais sentimentos tiveram raiz ainda em 1986, quando o México até chegou às quartas de final da Copa que sediou.

Enfrentando a Alemanha naquele 21 de junho de 1986, era grande o sonho mexicano de chegar às semifinais. O Nationalelf tinha a tradição… e quase que só isso: sofria com muitas coisas (calor, contusões, más atuações), e seus destaques não conseguiam fazer a diferença: Karl-Heinz Rummenigge tinha de ser escalado com parcimônia pelos problemas físicos, enquanto Lothar Matthäus, embora crescente, ainda não era o destaque que seria em 1990. Prato cheio para o México se agigantar. Até por estar com um a mais desde os 20 minutos do segundo tempo, quando Thomas Berthold foi expulso. Nem isso aconteceu: Hugo Sánchez e Manuel Negrete decepcionaram no ataque, as chances escasseavam, os mexicanos se mostravam inesperadamente tímidos.

0 a 0 no final dos 90 minutos, a vantagem numérica desapareceu já na prorrogação: aos 10 minutos da primeira parte, Javier Aguirre foi expulso. E o México aceitou o ritmo lentíssimo que a Alemanha impôs àquela partida, permitindo a ida aos pênaltis depois de 120 minutos sem gols. Azar, porque o goleiro alemão era quase insuperável em situações de tensão como aquela: um dos melhores arqueiros daquela década, imponente debaixo das traves, com autoconfiança gigante, Harald “Toni” Schumacher foi a barreira a amedrontar os mexicanos. O zagueiro Fernando Quirarte bateu pessimamente (tão pessimamente que Schumacher agarrou o pênalti sem soltar a bola). Outro defensor, Raúl Servín, chutou melhor, mas Schumacher soube pular esticando as pernas no meio do gol para defender outra cobrança. Enquanto isso, a Alemanha converteu todos os seus chutes. E chegou ao 4 a 1 que a levou a mais uma semifinal de Copa, enquanto o caminho de decepções mexicanas começava ali, nas quartas de final.

Para 1990, a decepção foi até pior: um escândalo de falsificação de identidades de jogadores das seleções de base levou a Fifa a suspender a federação mexicana, tirando-a sumariamente das Eliminatórias. O México só voltou em 1994. E ali, começou a “maldição do quinto jogo”, que incluiu quedas mais dolorosas ou mais compreensíveis. Maldição que pode durar só até esta segunda – ou seguir até 2022. Enquanto isso não se decide, cabe ver como foram as atuações mexicanas nas oitavas de final, em todas as frustrações.

1994

El Tri se recuperara plenamente do erro pesado da federação. Dentro de campo, voltara da suspensão com uma boa geração, na qual o já veterano Hugo Sánchez contava com jogadores voluntariosos (o zagueiro Claudio Suárez, o meio-campo Marcelino Bernal), tecnicamente capacitados (o meio-campo Alberto García Aspe, o atacante Luis García) ou até carismáticos (claro, Jorge Campos). Servira para o vice-campeonato na Copa América, em 1993, logo na primeira participação no torneio sul-americano de seleções. E servira para superar o equilibrado grupo E daquela Copa como líder: mesmo num tríplice empate com Itália, Noruega e Irlanda, fizera mais gols.

Chegando para enfrentar a Bulgária nas oitavas (5 de julho de 1994), o México teve um revés precoce: logo aos seis minutos do jogo em Nova Jérsei, Hristo Stoichkov fez 1 a 0. Mas a equipe da América Central era experiente, e teve calma para esperar a chance que surgiu num pênalti, convertido por García Aspe para o 1 a 1 aos 18 minutos. De resto, a partida foi equilibrada. E teve mais divididas do que chances de gol – ficou mais na memória o insólito acidente da quebra de uma trave, após queda de Bernal na rede, ainda no primeiro tempo.

No segundo tempo, seguiram as faltas duras – tanto que vieram dois cartões vermelhos: Emil Kremenliev para os búlgaros aos 5 minutos, Luis Garcia no México aos 12. Com uma partida truncada, o ritmo seguiu duro até o final dos 90 minutos, com 1 a 1. E até o final dos 120, após a prorrogação, com o empate inalterado.  Abrindo a série de cobranças, García Aspe, que convertera o pênalti no tempo normal. Porém, cansado, o meio-campista mandou por cima do gol. Krasimir Balakov até devolveu as esperanças aos mexicanos, também errando seu chute. Mas Bernal e Jorge Rodríguez mandaram seus chutes nas mãos de Borislav Mihaylov. A Bulgária foi competente, fez 3 a 1 e seguiu para as quartas de final.

1998

Seríssima candidata a derrota mais dolorosa dos mexicanos nas oitavas de final. A seleção treinada por Manuel Lapuente se tratava de um time esforçado, experiente (Jorge Campos, Suárez, Bernal e García Aspe vinham de 1994) e talentoso (principalmente na dupla de ataque, com Cuauhtémoc Blanco e Luís Hernández). Tivera alguma sorte na fase de grupos: valeu-se do empate entre Bélgica e Coreia do Sul, e foi buscar outro empate contra a Holanda (2 a 2, com Hernández marcando aos 48 do 2º tempo) para passar, como segunda colocada do grupo E. E o adversário seria a Alemanha, que tanta dor causara em 1986.

Mesmo com atuações medianas, e um time extremamente envelhecido, a Alemanha foi até melhor no primeiro tempo em Montpellier, no dia 29 de junho de 1998. Criou chances – a maior delas, num cabeceio de Oliver Bierhoff que terminou no travessão. Mas o México se aguentava, apostando no contra-ataque. E teve o prêmio pelos cuidados defensivos: logo no começo do segundo tempo, aos dois minutos, Hernández saiu na cara do goleiro Andreas Köpke e chutou cruzado para o 1 a 0. Minutos depois, Jesús Arellano chegou a chutar na trave – e na sequência, Köpke defendera à queima-roupa o chute de Hernández. O México dominava a Alemanha.

Mas aí, a Mannschaft decidiu se valer do que fez a sua fama. Psicologicamente, com a persistência e a serenidade – simbolizadas em Lothar Matthäus, 37 anos. Futebolisticamente, pela precisão no aproveitamento das chances, graças a uma dupla respeitável de ataque. Aos 30 minutos, Dietmar “Didi” Hamann cruzou da direita, Jürgen Klinsmann venceu a dividida com dois zagueiros e tocou na saída de Jorge Campos para o 1 a 1. Finalmente, aos 41 minutos, Ulf Kirsten levantou a bola na área, e Bierhoff fez o que era previsível: subiu para cabecear de maneira inalcançável para Jorge Campos. 2 a 1. Alemanha, mesmo deficiente, nas quartas de final. Nunca estivera tão perto para os mexicanos.

2002

No Japão/na Coreia do Sul, o México vivia uma entressafra. Veteranos como Jorge Campos, García Aspe e Hernández estavam na reserva. E no time costumeiramente escalado por Javier Aguirre naquela Copa, Cuauhtémoc Blanco e Jared Borgetti eram os únicos a se destacarem no ataque. De resto, apenas coadjuvantes: o zagueiro Pavel Pardo, o volante Gerardo Torrado, Rafa Márquez já capitaneando na zaga. Mas serviu para uma boa primeira fase: liderança do grupo G, superando Croácia e Equador e causando sérios temores na Itália, que só empatou para garantir a segunda posição da chave aos 40 minutos do segundo tempo. Nas oitavas de final, coube aos mexicanos encararem um rival muito conhecido: os Estados Unidos. Tinham até mais capacidade técnica para passarem, a princípio.

Mas na cidade sul-coreana de Jeonju, em 17 de junho de 2002, tiveram péssima surpresa. Já aos oito minutos da etapa inicial, o coeso time norte-americano fez 1 a 0, com Brian McBride completando cruzamento de Josh Wolff. Precisando da virada, o México manteve mais a posse de bola e criou mais chances, só que parava em Brad Friedel, um dos melhores goleiros daquela Copa. A seleção comandada por Bruce Arena se aguentou para evitar o empate, e já no segundo tempo, foi precisa: aos 20 minutos, num contra-ataque rápido, Eddie Lewis cruzou da esquerda, e Landon Donovan, a referência norte-americana em campo, fez 2 a 0. O México até possuía um time melhor, mas saiu derrotado na primeira vitória dos Estados Unidos num mata-mata em Copas. Logo dos Estados Unidos…

 2006

Em poucas Copas se viu o México tão ambicioso quanto em 2006. Pelos resultados dentro de campo (quarto lugar elogiável na Copa das Confederações em 2005, com direito a vitória sobre o Brasil) e pela própria postura do técnico argentino Ricardo Lavolpe, esperava-se que enfim a barreira das oitavas fosse superada. Havia razões para ter otimismo em campo. Os novatos de 2002 já estavam maduros para terem destaque – caso do goleiro Oswaldo Sánchez e de Rafa Márquez, titulares absolutos na Alemanha. Torrado e Pardo eram outros remanescentes que davam força defensiva ao meio-campo, dando lições a um jovem Andrés Guardado que já era titular. No ataque, Ricardo Lavolpe fechou os ouvidos para os massivos pedidos por Blanco: deixou o veterano fora da convocação, numa decisão polêmica, e apostou em Borgetti – auxiliado ora por Omar Bravo, ora pelo brasileiro naturalizado Antônio Naelson, o Sinha. Serviu para uma fase de grupos decente. Só o empate sem gols contra Angola saiu do esperado: derrota para Portugal, vitória contra Irã, segundo lugar do grupo.

Nas oitavas de final, em Leipzig, no 24 de junho de 2006, a Argentina. E mesmo que a equipe sul-americana fosse respeitabilíssima, o começo serviu para fazer o México sonhar de novo: apostando nos cruzamentos, El Tri trazia perigo, até concretizá-lo no precoce 1 a 0, com Rafa Márquez completando após desvio de cabeça. Mas se com jogada aérea os mexicanos feriram, com jogada aérea foram feridos: já aos 10 minutos, num escanteio, Hernán Crespo cabeceou para empatar. A partir de então, o jogo ficou truncado. A Argentina tentou atacar no resto dos 90 minutos; o México soube se valer da defesa sólida para manter o empate e levar o jogo à prorrogação.

Um tempo extra não era nada que não se esperasse: afinal, ambas haviam decidido a semifinal na Copa das Confederações nos chutes da marca do pênalti, no ano anterior. E o equilíbrio tenso fazia crer numa repetição disso, caso não surgisse nenhum lance diferente e diferenciado. Surgiu. E embora a Argentina tivesse mais talento técnico do que o México, foi um coadjuvante da Albiceleste que bancou o craque: aos oito minutos da primeira parte da prorrogação, Máxi Rodríguez dominou no meio antes do voleio que encobriu Oswaldo Sánchez para se consumar no mais bonito gol daquela Copa de 2006. Um impacto que o México não suportou. Porque, se tinha um bom time, não tinha gente capaz de desequilibrar, como a Argentina tinha.

2010

Para a Copa na África do Sul, o técnico Javier Aguirre tomou decisão extremamente polêmica. Afinal, Guillermo “Memo” Ochoa já era quase icônico no gol do América, já havia sido reserva em 2006 para “tomar experiência”, já era considerado sério candidato a melhor goleiro que o México já tivera. Nada disso foi suficiente para que Aguirre desse a titularidade no gol: o treinador escolheu o veteraníssimo Óscar Pérez, 37 anos, titular em 2002. De resto, o México contava com uma defesa sólida – Rafa Márquez, claro, era o destaque, tendo Francisco “Maza” Rodríguez e Carlos Salcido ao seu lado, com Héctor Moreno sendo o jovem de futuro. Mas o ataque era apenas promissor: por mais que Cuauhtémoc Blanco houvesse voltado para sua terceira Copa, ainda se olhava para Javier “Chicharito” Hernández, Giovani dos Santos e Carlos Vela como nomes para se destacarem em Mundiais futuros. Já serviu para uma primeira fase elogiável: o México fez a partida de abertura empatando contra a África do Sul, mas se valeu de sua organização em campo para sobrepujar uma França em frangalhos (dentro e fora de campo) e garantir pelo menos a segunda posição do grupo A, por causa da derrota para o Uruguai.

Coube aos mexicanos, novamente, a Argentina, nas oitavas de final. E naquele 27 de junho de 2010, no Soccer City de Joanesburgo, a Albiceleste nem sofreu tanto quanto havia quatro anos. A arbitragem ajudou nisso: no 1 a 0 aos 26 minutos do primeiro tempo, Carlos Tevez estava impedido ao desviar para as redes o toque de Lionel Messi, após rebote de Pérez – mas nem o replay exibido no telão do Soccer City fez com que o juiz italiano Roberto Rosetti abdicasse de validar o 1 a 0. Já aos 33 minutos, não houve perdão para os mexicanos: Ricardo Osorio errou um recuo de bola, e Gonzalo Higuaín fez 2 a 0 para os argentinos. No segundo tempo, Tevez compensou a jogada irregular com um golaço aos sete minutos: chute indefensável no ângulo esquerdo de Pérez. “Chicharito” Hernández ainda diminuiu para 3 a 1, mas novamente era o fim mexicano nas oitavas. Por mais que Aguirre tenha criticado o claro erro da arbitragem, por mais que Tevez tenha confessado que estava impedido, por mais desorganizada taticamente que fosse a Argentina, restou ao México baixar a cabeça para seguir em frente.

2014

A campanha del Tri nas Eliminatórias da Concacaf assustara: mesmo com os personagens de 2010 mais experientes (Ochoa, Héctor Moreno, Guardado, Javier Hernández), mesmo com a continuação de Rafa Márquez, mesmo com a aparição de novos destaques (Miguel Layún, Héctor Herrera, Oribe Peralta), o México correu seríssimo risco de sequer ir à Copa. Basta dizer que, na última rodada do hexagonal final de qualificação, a seleção perdeu para Honduras (1 a 2), e só se agarrou à quarta posição pela derrota do Panamá para os Estados Unidos – 3 a 2, com os norte-americanos virando o placar com dois gols nos acréscimos. Haveria a segunda chance na repescagem contra o vencedor das Eliminatórias da Oceania, e os mexicanos aproveitaram: 5 a 1 na ida contra a Nova Zelândia, 4 a 2 na volta, lugar na Copa garantido. Mas algumas coisas precisariam mudar: Miguel Herrera chegou para treinar a seleção, e fez algumas alterações.

Já bastou para que os mexicanos se pacificassem dentro de campo. Com um estilo tático definido e os destaques aparecendo, El Tri surpreendeu no grupo A: mereceu superar Camarões por placar bem maior do que o 1 a 0 em Natal (até gol incorretamente anulado houve), viu Ochoa se agigantar em Fortaleza para frustrar o Brasil com sua elasticidade e posicionamento que mantiveram o 0 a 0 em Fortaleza, e foi soberano para superar a Croácia e fazer 3 a 1. O destaque era compartilhado: Ochoa, Rafa Márquez, Herrera, Guardado, “Chicharito” Hernández, Peralta – todos tiveram seus momentos na primeira fase. Com Herrera tendo boas sacadas táticas, o time chegou renascido para enfrentar a Holanda, nas oitavas de final.

Pelo menos durante 70 minutos, o México provou tal renascimento. Conteve a Laranja, foi mais perigoso no primeiro tempo, e finalmente saiu na frente com Giovani dos Santos. Então, Herrera tomou uma decisão para sempre questionada (tirou Giovani dos Santos para a entrada de Javier Aquino), e o México passou a apostar nos contra-ataques. Enquanto isso, Ochoa tinha outra atuação para ser lembrada, segurando as tentativas de quem quer que vestisse laranja. E restava a Arjen Robben puxar os ataques holandeses, que terminavam com ele buscando sofrer pênaltis – ora verdadeiros (como no fim do primeiro tempo, em jogada que causou fratura na tíbia de Héctor Moreno), ora meras “cavadas”. Mas a Holanda tentava, ainda mais ofensiva com as entradas de Memphis Depay e Klaas-Jan Huntelaar.

Por fim, a Oranje conseguiu o que buscava, de um jeito cruel para os mexicanos. Veio o empate, aos 43 minutos do segundo tempo, com chute indefensável de Sneijder. E aos 49, nos acréscimos, aquela queda de Robben após ficar perto de Rafa Márquez na área. Muitos acharam pênalti, por mais leve que tivesse sido; outros tantos acharam simulação canhestra do camisa 11 holandês. E os dois grupos tinham certa razão. Para azar mexicano, o juiz português Pedro Proença estava no primeiro grupo. Marcou o penal, Huntelaar cobrou, 2 a 1, Holanda classificada. E mais uma frustração para os mexicanos nas oitavas de final. Talvez seja a última, depois desta segunda. Ou não.

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