Copa do MundoEuropa

Infantino usou um argumento absurdo para a Copa a cada dois anos: reduzir refugiados africanos na Europa

Em reunião da União Europeia, Infantino, presidente da Fifa, defendeu que Copa a cada dois anos criaria oportunidades que poderiam reduzir a imigração

Defender a Copa do Mundo a cada dois anos é possível, ainda que seja difícil conseguir argumentos razoáveis, mas o presidente da Fifa, Gianni Infantino, usou um argumento dos mais canalhas para isso. Em reunião do Conselho da Europa, da União Europeia, ele disse que a Copa do Mundo a cada dois anos criaria oportunidades que fariam com que refugiados africanos não precisassem “atravessar o Mediterrâneo”, ou seja, tentar chegar à Europa, algo que é sempre de alto risco.

Infantino, de 51 anos, tem defendido a ideia da Fifa de uma Copa do Mundo a cada dois anos há algum tempo, inclusive com um estudo pedido por muitos países – o que é verdade –, mas ignorando completamente qualquer estudo contrário. Tem angariado apoio com Arsène Wenger como seu principal articulador, já que o lendário técnico é Chefe de Desenvolvimento do Futebol na Fifa. Além dele, tem escalado ex-jogadores notáveis para serem também defensores ou, ao menos, que defendam abrir a cabeça para essa ideia.

Já explicamos o que está por trás da proposta da Copa do Mundo a cada dois anos, mas há uma forte resistência contra isso, especialmente da Uefa e da Conmebol, as duas confederações mais fortes do mundo político da Fifa. Joseph Blatter, ex-presidente da Fifa, foi outro a dizer que a Copa do Mundo a cada dois anos é uma estupidez.

O presidente da Fifa, porém, segue defendendo a ideia. Desta vez, em uma arena política e tentou usar algo que tem sido visto como um problema do continente, a imigração, para angariar apoio. Para ele, a proposta traria mais oportunidades para pessoas ao redor do mundo, especialmente fora da Europa – onde, ele sabe, há muito mais resistência a essa ideia.

“Entendo que na Europa a Copa do Mundo aconteça duas vezes por semana. Porque os melhores jogadores do mundo estão jogando na Europa. Então, na Europa, não há necessidade de possibilidades e eventos adicionais”, disse Infantino. “Mas acho que no resto do mundo, a grande maioria da Europa que não vê os melhores jogadores ou participa das principais competições, então temos que pensar no que o futebol traz, o que vai além do esporte”.

O dirigente veio então com a sugestão que as oportunidades econômicas que a Copa do Mundo a cada dois anos faria com que as ondas de refugiados que chegam na Europa fossem reduzidas.

“Precisamos encontrar modos de incluir o mundo inteiro. Dar esperança aos africanos para que eles não precisem cruzar o Mediterrâneo para encontrar, talvez, uma vida melhor, mas com uma probabilidade maior de encontrar a morte no oceano”, afirmou Infantino. “Nós temos que dar dignidade e precisamos dar mais oportunidades, não ao promover caridade, mas ao permitir que o resto do mundo também participe”.

O argumento é canalha, porque a Copa do Mundo, claro, pode gerar benefícios econômicos, mas evidentemente está longe de ser uma solução para problemas sociais. Aliás, o que vimos no histórico recente da Copa, com África do Sul, Brasil, Rússia e agora o Catar, é que pode inclusive agravar alguns problemas. É verdade que, nesse aspecto, Infantino mudou a Fifa, extinguindo o tal “padrão Fifa” que Blatter impunha às candidaturas para Copa antigas, mas daí a dizer que resolverá um problema de imigração, que tem muito mais complexidades, é um pouco demais.

Apesar dessa defesa atrapalhada – para dizer o mínimo –, o próprio Infantino admitiu que a Copa do Mundo a cada dois anos “talvez não seja a resposta” (jura? Que surpresa). “Iremos discutir a melhor maneira de ser mais inclusivo, não apenas falar não para a discriminação, mas de fato agir exatamente nessa direção”, disse o dirigente. “Ser mais inclusivo ao trazer todo mundo a bordo. Ao tentar dar mais oportunidades, esperança e dignidade a todo o mundo”.

Como propaganda da sua própria gestão, Infantino disse que foram feitos “significativos progressos no Catar” no campo de direitos humanos, que é justamente o tópico mais sensível quando se fala sobre a Copa do Mundo no país, que será no final deste ano de 2022. O dirigente atribui a melhora ao fato do país ser sede da Copa, o que é uma inversão de valores completa. Devemos colocar a Copa nos países com mais problemas sociais ou de direitos humanos para tentar melhorar a situação? Parece fazer pouco sentido.

Por que a Copa a cada dois anos?

Para a Fifa, a resposta é simples: é politicamente e financeiramente muito lucrativa. Politicamente porque a entidade tem seguido a cartilha de João Havelange e dando mais chances a países menores para jogar, como já tinha feito ao aumentar a Copa de 32 para 48 seleções. Ao ter Copa a cada dois anos, aumenta também a chance de países menores chegarem ao torneio.

Com isso, Infantino se fortalece, ganha apoio de muitos países menores. Era a política que Havelange executava na Fifa e que Blatter deu continuidade. Até porque o voto de um país campeão do mundo vale tanto quanto um país minúsculo e inexpressivo como Ilhas Faroe, Camboja ou Ilhas Cayman. Infantino sairia fortalecido ao dar mais chances desses países jogarem a Copa.

Além disso, a Fifa, supostamente, dobraria o seu ganho. Afinal, a entidade consegue algo em torno de US$ 4 bilhões a cada Copa, mas se dobrar o número de edições, o número crescerá, ao menos inicialmente – a entidade evidentemente não dá muita importância a uma possível deterioração que o torneio poderia sofrer com o aumento da frequência. A Uefa e a Conmebol também são contra por isso, além do aspecto esportivo: suas competições de clubes são as mais lucrativas, além de terem suas próprias competições continentais, a Eurocopa e a Copa América.

Enquanto isso, os países menores gostam da ideia de jogar a Copa, porque além de politicamente ser bom para os dirigentes dessas federações, também significa aumentar os ganhos financeiros: quem vai para a Copa recebe mais dinheiro da Fifa por direitos de transmissão e premiação.

Fifa cria problema para vender a solução

Vender a ideia é difícil para os países mais fortes e especialmente para clubes, ligas e confederações poderosas como a Uefa e a Conmebol. Então, como tentar conseguir apoio? Um dos principais argumentos é um problema que, em parte, a própria Fifa é responsável: reduzir o número de jogos internacionais.

O argumento que Wenger frequentemente usa é que há muitas viagens, especialmente para jogadores não-europeus, e a ideia é concentrar o ano em dois momentos de jogos internacionais: em outubro, quando seriam jogadas as Eliminatórias, e em junho e julho, quando seriam as competições, Copa do Mundo e torneios continentais.

A ideia é acabar com qualquer outro torneio que não esses dois e concentrar os jogos internacionais neles. Wenger argumenta que isso traria mais jogos interessantes e significativos ao calendário, acabando com amistosos, por exemplo. Porém, o custo é que todo ano haveria competição: ou continental, ou Copa do Mundo.

É uma batalha que tem a ver com uma disputa especialmente de Uefa e Fifa por grana, além de poder, é claro. E é uma briga longe do fim. Por enquanto, parece um pouco difícil da ideia ganhar apoio, mas isso não significa que ela não pode ser aprovada. Afinal, a votação para isso depende única e exclusivamente dos países que são membros da Fifa aprovarem por maioria simples. Por enquanto, Infantino não quer se desgastar colocando em votação, então continua tentando vender a ideia antes de levar a cabo.

Mostrar mais

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo