Copa do Mundo

Infantino dá passo atrás e diz que Copa a cada dois anos “só acontecerá se for benéfica a todo mundo”

Presidente da Fifa dá passo atrás, diz que debates acalorados são normais e que discussão será colocada no Congresso da entidade em dezembro

A proposta da Copa do Mundo a cada dois anos coleciona críticas e parece que a Fifa resolveu dar um passo atrás. Nesta quarta-feira, em coletiva de imprensa após reunião do Conselho da Fifa, o dirigente disse que não haverá mais votação em dezembro, mas uma discussão e que só será realizada uma mudança caso todas as partes se beneficiem dela. O projeto parece ter destratado, depois de tantas críticas, e a entidade parece já mirar outros objetivos.

LEIA MAIS: Wenger quer calendário de março a novembro, menos datas Fifa e Copa do Mundo a cada dois anos

A Uefa tem sido consistentemente contra a proposta, com o presidente da entidade, Aleksander Ceferin, fazendo discursos duros contra a proposta. A Conmebol foi outra confederação a manifestar ser contra a ideia. A oposição à ideia vinha até de parceiros, como a Adidas, que também se manifestou contrária. A Associação de Clubes Europeus (ECA, na sigla em inglês) foi dura com a Fifa ao falar sobre o “impacto destrutivo aos clubes”. Até a MLS se manifestou criticando a ideia.

Nesta terça-feira, Infantino se reuniu via teleconferência com representantes de associações europeias e ouviu muitas críticas e oposição à Copa a cada dois anos. Mais do que isso: alguns europeus se mostraram dispostos a se desfiliarem da Fifa caso a proposta fosse aprovada.

A pressão mais forte que a Fifa sofreu veio do Comitê Olímpico Internacional (COI). A entidade manifestou preocupações em relação à ideia, disse que seria esticar demais a corda em relação ao bem-estar dos atletas, além de prejudicar o futebol feminino, além de prejudicar a própria Olimpíada, que seria disputada pouco depois da Copa do Mundo.

O COI citou que “tênis, ciclismo, golfe, ginástica, natação, atletismo, Fórmula 1 e muitos outros esportes seriam afetados por ter mais uma Copa do Mundo” e que “isso prejudicaria a diversidade e o desenvolvimento de outros esportes além do futebol”. Além disso, o COI criticou a falta de consulta sobre partes envolvidas, “que obviamente não aconteceu”. Curiosamente, Infantino é membro do COI, como representante do futebol.

Com tudo isso, a entrevista de Infantino nesta quarta-feira foi muito mais cautelosa, dando passos atrás para falar sobre o assunto. “As discussões sobre nossas Copas do Mundo provocaram reações fortes. Ouvi alguns comentários críticos e ouvi outros muito entusiasmados também. As discussões são muito diferentes em diferentes partes do mundo. Meu objetivo é tentar juntar todo mundo e nós temos que estar juntos”, afirmou Infantino.

“O que disse desde o começo é que iremos mudar as coisas apenas se estivermos completamente convencidos que é benéfico para todo mundo. Para todo mundo. Se for benéfico para todo mundo, não consigo ver por que as pessoas não concordariam com isso”, continuou o dirigente.

“A Fifa não está acostumada à cultura da democracia, mas o debate e a discussão sobre o futuro do futebol são importantes. Não se trata da Fifa, ou do futuro da Copa do Mundo, é sobre nossas crianças. Temos que olhar para o futuro e garantir que nossos filhos, e os filhos deles, continuem a se apaixonar pelo jogo que nós todos amamos”, disse Infantino.

O dirigente foi perguntado se a proposta iria adiante, mesmo com tantas manifestações importantes contrárias. “Nós só iremos adiante se todos estiverem melhores, não apenas economicamente, mas esportivamente. Há a chance de chegar a um consenso global. Esse é o meu objetivo. Não estou aqui para dividir. Não é sempre fácil ser presidente da Fifa, especialmente nesse contexto, onde todo mundo tem chance de falar”.

“Eu entendo que é difícil aceitar quando você sugere mudanças a algo que está do mesmo jeito há 100 anos. Estou pedindo às pessoas para se acalmarem e serem racionais sobre isso, e espero que possamos apresentar uma proposta no dia 20 de dezembro”, continuou. “Como um árbitro na partida, no meio de uma confusão, temos que tentar levar razão às pessoas. Nosso objetivo é fazer o futebol melhor”.

Consenso não costuma acontecer mesmo nas democracias mais evoluídas, até porque as ideias sempre têm consequências para alguém. A Fifa embarcou no trem que é conduzido pela Federação Saudita de Futebol, que pediu um estudo de viabilidade sobre a Copa do Mundo a cada dois anos. A ideia do estudo foi aprovada com facilidade entre as 211 federações da Fifa, o que ligou um alerta em todos que são contrários à ideia – mesmo alguns que votaram a favor do estudo, porque disseram que a votação era só pelo estudo, não pela mudança.

Inicialmente, a ideia era que a proposta fosse já votada em dezembro, mas isso não irá mais acontecer, segundo Infantino. O dirigente mudou o evento, que seria um Congresso de emergência para se tornar apenas uma Cúpula, onde não há votações. O presidente da Fifa admitiu que qualquer votação neste momento poderia ser um “processo encenado”.

“Estou confiante que no dia 20 de dezembro poderemos apresentar uma solução comum. Como isso será, para mim está aberto. Talvez haja um jeito que ainda não encontramos, mas se conversarmos todos juntos podemos encontrar. Então, qualquer ideia, qualquer proposta, é bem-vinda”.

A ideia de uma Copa do Mundo a cada dois anos parece desidratada, mas há outras no caminho que podem ganhar força. Uma delas é um projeto de Liga das Nações a nível mundial, com base no que a Uefa faz com a sua Liga das Nações. Esta é uma ideia que a Fifa já ensaia há algum tempo. Talvez a Copa do Mundo a cada dois anos seja um bode na sala e, a partir da sua retirada, a ideia de uma Liga das Nações global não tenha tanta oposição quando parecia que teria quando surgiu. Esta é uma ideia que parece mais interessante, mas precisaria de mais discussões.

Mostrar mais

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo