Copa do Mundo

O gol que entrou para a história: Por que o Haiti marcou época contra a Itália em 1974

Primeiro gol haitiano em Mundiais derrubou recorde de lendário goleiro italiano e virou símbolo de uma geração

Quando o Haiti entrar em campo para enfrentar a Escócia, neste sábado (13), pela primeira rodada do grupo C da Copa do Mundo 2026, estará encerrando uma espera de 52 anos. A seleção caribenha volta ao maior palco do futebol após uma trajetória marcada por dificuldades dentro e fora das quatro linhas, incluindo uma campanha de Eliminatórias disputada integralmente em campos neutros devido à grave crise de segurança provocada pela violência das gangues no país.

Será apenas a segunda participação haitiana em Mundiais. A primeira aconteceu em 1974, na Alemanha Ocidental. Embora aquela campanha tenha terminado com três derrotas em três jogos, um lance específico atravessou as décadas e permanece vivo na memória do futebol mundial: o gol marcado por Emmanuel “Manno” Sanon contra a poderosa Itália.

Mais do que o primeiro gol do Haiti em Copas do Mundo, o lance teve um peso simbólico e histórico gigantesco. Afinal, foi justamente Sanon quem conseguiu encerrar uma das mais impressionantes sequências defensivas já registradas no futebol internacional, superando o lendário goleiro Dino Zoff.

O dia em que um haitiano desconhecido surpreendeu o mundo

A seleção do Haiti perfilada para jogo da Copa do Mundo de 1974
A seleção do Haiti perfilada para jogo da Copa do Mundo de 1974. Foto: IMAGO / Horstmüller

O Haiti chegou ao Mundial de 1974 como franco azarão. A equipe havia garantido vaga ao conquistar o Campeonato da Concacaf de 1973, torneio que servia como classificatório para a Copa. No sorteio, acabou caindo em um grupo indigesto, ao lado de Itália, Argentina e Polônia.

A estreia aconteceu em 15 de junho de 1974, no Estádio Olímpico de Munique, diante da poderosa seleção italiana. Vice-campeã mundial em 1970, a Azzurra era considerada uma das favoritas ao título, sobretudo por sua forte defesa.

No centro dessa fortaleza estava Dino Zoff. O goleiro da Juventus atravessava um período extraordinário. Desde setembro de 1972, a seleção italiana não sofria gols em partidas internacionais. O número impressionava: 1.142 minutos consecutivos sem ser vazado, uma marca construída ao longo de 12 partidas e recorde absoluto.

A etapa inicial terminou empatada sem gols, resultado que já surpreendia os italianos. Logo no início do segundo tempo, porém, veio o momento que transformaria Emmanuel Sanon em herói nacional.

Aos 46 minutos, Philippe Vorbe encontrou um espaço raro na defesa adversária e lançou Sanon. O atacante disparou em velocidade, deixou Luciano Spinosi para trás, avançou sozinho em direção ao gol e teve frieza para driblar Zoff antes de empurrar a bola para as redes.

Incredulidade nos jogadores da Azzurra. O goleiro mais seguro do planeta havia sido vencido por um atacante haitiano desconhecido do grande público. E o Haiti estava na frente da Itália.

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Um gol maior do que o resultado

Emmanuel Sanon durante treino da seleção haitiana
Emmanuel Sanon durante treino da seleção haitiana em 1974 (Foto: Werek / Imago)

A vantagem durou pouco. Ainda assim, o impacto daquele lance foi muito além do placar. A Itália reagiu rapidamente e venceu por 3 a 1, com gols de Gianni Rivera, Romeo Benetti e Pietro Anastasi.

No entanto, o resultado acabou se tornando um detalhe diante da importância histórica do feito de Sanon. Para se ter dimensão do que aconteceu em Munique, Zoff era considerado um dos melhores goleiros do mundo. Sua sequência sem sofrer gols havia atravessado amistosos e partidas oficiais, resistindo inclusive a adversários tradicionais do futebol internacional.

O próprio atacante haitiano tinha consciência do tamanho do desafio. Ele chegou a afirmar que se incomodava ao ver a imprensa discutir quais craques europeus ou sul-americanos seriam capazes de superar Zoff, sem sequer cogitar um jogador haitiano. Em Munique, respondeu da melhor forma possível: com um gol que entrou para a história.

Sanon ainda deixaria outra marca naquele Mundial.

Na última rodada, contra a Argentina, marcou novamente, tornando-se até hoje o único jogador haitiano a fazer gols em Copas do Mundo. Seus dois tentos seguem sendo os únicos da seleção caribenha na história da competição.

Após a Copa, o atacante ganhou reconhecimento internacional e transferiu-se para o futebol belga, onde defendeu o Beerschot. Com o passar dos anos, transformou-se em uma das maiores figuras da história esportiva do Haiti. Falecido em 2008, permanece como símbolo de uma geração que conseguiu colocar o país no mapa do futebol mundial.

Agora, mais de meio século depois daquela tarde em Munique, o Haiti retorna à Copa do Mundo. A seleção de 2026 tentará escrever novos capítulos, mas dificilmente conseguirá apagar a imagem mais emblemática de sua trajetória no torneio: a arrancada de Emmanuel Sanon, o drible em Dino Zoff e o gol que derrubou um recorde histórico, transformando um azarão caribenho em personagem eterno do futebol.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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