Copa do Mundo

Há 20 anos, biquinho de Ronaldo carimbava passagem do Brasil para a terceira final de Copa do Mundo seguida

Duelo foi marcado pela tensão e pelo desejo de revanche por parte da Turquia

Se alguém dissesse, meses antes da estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2002, que a Turquia seria um dos adversários mais complicados e a pedra no caminho para a final do torneio, seria tachado de maluco. Afinal, a pouca tradição dos turcos em Mundiais implicava que a Seleção de Luiz Felipe Scolari não deveria se incomodar com os adversários de grupo.

Mas em uma Copa do Mundo como aquela, em que as surpresas se proliferaram e ajudaram a contar histórias magníficas como a do estreante Senegal, da anfitriã Coreia do Sul e da própria Turquia, semifinalista, a zebra e o imponderável entraram em campo pra valer. Para começo de conversa, o primeiro Brasil x Turquia em 2002 foi por si só um jogo bastante complicado. Impossível esquecer do susto com o gol de Hasan Sas, a cera de Rivaldo na bandeirinha de escanteio, do gol de empate de Ronaldo e, claro, da falta fora da área em Luizão que acabou premiada equivocadamente com um pênalti.

A vida da Seleção foi até tranquila, se considerarmos os duelos contra China e Costa Rica, fechando os grupos. É verdade que o elenco brasileiro sobrava demais em comparação ao resto do torneio, sobretudo por conta das eliminações precoces de França e Argentina, outras grandes favoritas com listas de convocados de muito respeito. Quando veio o mata-mata, o Brasil precisava de testes relevantes para medir sua força, e isso aconteceu logo contra a Bélgica, que ofereceu um jogo daqueles. Rivaldo decidiu a questão.

Contra a Inglaterra, roteiro similar ao da estreia contra os turcos: gol de Michael Owen no primeiro tempo, Brasil pressionado, gol de Rivaldo, sufoco e um Ronaldinho surgiu para tirar o coelho da cartola naquele gol que até hoje ninguém sabe se foi culposo ou doloso, por cobertura em David Seaman. Quando o chaveamento das semifinais foi desenhado, era óbvio o favoritismo brasileiro, já que o adversário seria a velha conhecida Turquia, enquanto na outra chave, Alemanha e Coreia do Sul batalhavam pelo outro posto na decisão. Mas não pense você que a tradição canarinha culminou em uma partida fácil e tranquila.

Vingança ou confirmação do favoritismo?

Ronaldo. O Fenômeno deu outra grande volta por cima em sua carreira e, mesmo com sérias dúvidas em relação à sua forma física e explosão, fez uma grande Copa do Mundo como protagonista. Há quem diga que Rivaldo foi o melhor do Brasil no torneio e essa discussão é bastante válida. Mas poucos conseguiriam concentrar em si a responsabilidade de reverter a dura derrota para a França, quatro anos antes, como o camisa 9.

O artilheiro já tinha cinco gols marcados antes da semifinal e despontava como favorito ao prêmio de goleador do torneio, rivalizando apenas com Miroslav Klose, também com cinco tentos. A questão é que Ronaldo apareceu nas vésperas da partida diante dos turcos com um penteado bizarro, que muita gente prontamente chamou de Cascão, da Turma da Mônica. Anos mais tarde, o próprio jogador revelou que vinha sofrendo com problemas físicos e dores nas costas. Para que seu desempenho não fosse questionado ou notado com ares de dúvida, o Fenômeno conseguiu desviar o foco da imprensa para o seu penteado e, a bem da verdade, ninguém notou nenhuma grande diferença no seu futebol ao longo da competição.

Brasil e Turquia entraram em campo no dia 26 de junho de 2002, em Saitama, no Japão. O paralelo com a Copa de 1994 era evidente: assim como os turcos, a Suécia enfrentou a Seleção duas vezes e vendeu caríssimo a derrota na semifinal, decidida com gol de Romário. Para o supersticioso torcedor canarinho, qualquer coincidência com campanhas vencedoras deve ser levada muito a sério. Assim sendo, a Turquia de Senol Gunes pretendia seguir com sua muralha defensiva no objetivo de parar Ronaldo e quem quer que ameaçasse a meta de Rustu Reçber.

Sem medo da truculência

A vontade de vencer e esmagar a oposição ficou clara desde os primeiros minutos. Nem turcos e nem brasileiros tinham vergonha de um bom tranco ou divididas com força excessiva. Aos 18 minutos, em bola quase perdida, Emre Belozoglu entrou de carrinho em Edmílson, que quase deu uma cambalhota na linha de fundo e saiu furioso com o adversário. Pouco depois, o troco: Lúcio antecipou a marcação e, na dividida com Yildiray Basturk, atingiu o meia com uma joelhada, parando o lance de maneira truculenta.

A Turquia não se intimidou e desafiou Marcos como pôde. Especialmente no lance em que Alpay Özalan pegou uma sobra na cabeça da área e testou firme. O goleiro saltou e espalmou para escanteio na primeira grande chance do jogo. Aos 20, Cafu recebeu na direita, infiltrou a área e resolveu tentar a sorte: a pancada estava no caminho certo para as redes, mas Rustu defendeu e praticou um milagre para ceder o escanteio. No minuto seguinte, foi a vez de Roberto Carlos levar perigo, driblando o marcador e pisando na área. Mas o chute foi na rede pelo lado de fora.

Uma cena bastante curiosa aconteceu no minuto 22, consolidando o bombardeio do Brasil. Rivaldo recebeu de Roberto Carlos, saiu de dois marcadores, ousou e chutou de perna esquerda, de fora da área. Rustu tentou encaixar a bola, acabou soltando e Ronaldo, bem posicionado, se lançou para pegar o rebote, mas o arqueiro conseguiu se recuperar e salvar. Essa jogada se repetiu na final, mas Oliver Kahn não deu a mesma sorte de Rustu.

Aos 33′, o novo Rivaldo x Rustu teve defesa importante do goleirão turco, que se jogou no canto e conseguiu salvar um chute bastante venenoso do camisa 10 brasileiro. A tentativa se repetiu aos 35′, quase do mesmo lugar, Rivaldo tirou demais e a bola foi pela linha de fundo, ainda que passando perto da trave. Vale a pena enfatizar o papel de Rivaldo na primeira etapa como a grande ameaça canarinha, infernizando a vida da dupla de zaga turca, formada por Bülent Korkmaz e Alpay Özalan.

Gilberto Silva parou, aos 38′, uma jogada que poderia ter sido fatal para o Brasil. Derrubou Basturk sem a menor piedade, levando cartão amarelo. Na queda, Basturk ainda foi atingido por um desgovernado Roque Júnior, que vinha para apoiar Gilberto e não teve tempo de parar. Roque discutiu com Sas e as coisas quase saíram do controle. Pouco antes do intervalo, Roberto Carlos costurou a zaga e forjou um espaço para finalizar, mas Rustu encaixou seu chute rasteiro sem dificuldade. Em comparação à outra semifinal, que foi bastante morna, o Brasil x Turquia foi um verdadeiro espetáculo.

Falamos muito de Ronaldo, e no minuto 49′ ele justificou as citações. Muito bem marcado pela defesa rival, o camisa 9 resolveu de maneira simples uma jogada completamente desfavorável. Cercado por vários turcos, o Fenômeno entrou na área e, como não tinha nenhuma opção de passe, teve a genialidade de tentar o chute na diagonal. Usando o bico da chuteira, algo incomum para alguém de seu calibre, Ronaldo emendou uma ótima finalização e surpreendeu Rustu, que até tocou na bola, mas não impediu o gol brasileiro.

A Turquia se lançou desesperadamente ao ataque e tentou pela bola aérea causar algum estrago. Marcos estava ligado para cortar um cruzamento desviado que tinha destino certo no alto de sua meta. A partida ficou mais aberta e propensa a grandes emoções. Como na jogada em que Ronaldo foi garçom acionando Edílson dentro da área. O Capetinha estava sendo vigiado de perto por Fathi Akyel, que desviou sua finalização para escanteio.

Ronaldo de novo? Não. O atacante se posicionou no mesmo lugar do primeiro gol e, com mais espaço, deu um passe para que Kléberson tentasse ampliar o marcador. Mas o meia chutou em cima de Rustu, que defendeu sem sustos. A dificuldade em selar a classificação para a final gerou um nervosismo extra na torcida. Houve várias oportunidades para o segundo gol e o Brasil não aproveitou. Luizão entrou na vaga de Ronaldo e quase fez um golaço antológico. Cafu deu um cruzamento perfeito e o centroavante emendou um voleio, mas a bola quicou e foi por cima da baliza de Rustu.

Depois dos 30, entramos na Hora Denílson. O atacante, que entrou apenas para prender a bola, gastar tempo e irritar a marcação adversária, viveu um dos momentos mais icônicos de sua carreira, quando foi perseguido por quatro turcos da área até a lateral e fez a famosa fumaça, ainda que sem grande impacto. Apesar do controle mental, o Brasil não necessariamente foi até o apito final sem um aperto. Ilhan Mansiz, que entrou no segundo tempo, tentou um chute cruzado e a bola passou rente ao travessão de Marcos. Ainda houve um giro perigoso de Hakan Sukur, na pequena área, que culminou em nova defesa do arqueiro. A Turquia suou sangue por 90 minutos, mas pereceu no apito final, exausta após uma luta inglória.

Ao Brasil estava reservada a terceira decisão de Copa consecutiva. O adversário já era conhecido: a Alemanha, que no dia anterior venceu a Coreia com gol de Michael Ballack. Embora jamais tivesse enfrentado os alemães em Copas, o Brasil sabia que os planetas se alinhavam para a conquista do Penta. Além da ampla vantagem técnica e de desempenho perante o outro finalista, Felipão tinha a boa notícia da suspensão de Ballack para comemorar.

A Alemanha de Rudi Völler dependia de Miroslav Klose e da segurança do melhor goleiro do torneio, Oliver Kahn. Se ao menos Völler pudesse vestir novamente aquele uniforme alvinegro, o drama seria menor. Premiado às vésperas da finalíssima como melhor jogador do torneio, Kahn viveu a mais triste das ironias ao falhar no momento mais crucial de sua carreira, aos pés de um sedento Ronaldo em Yokohama. Essa história, no entanto, a gente só te conta no dia 30 de junho. Vamos fingir que não sabemos como tudo acaba.

Foto de Felipe Portes

Felipe Portes

Felipe Portes é zagueiro ocasional, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes
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