Guia da Copa do Mundo 2022 – Grupo H: Portugal
Sem estar mais no auge, Cristiano Ronaldo e um talentoso time português tenta uma campanha histórica na Copa que deve ser a despedida da sua estrela - e com um técnico contestado
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Portugal chega à Copa do Mundo com clima de despedida. Aos 37 anos, é bastante provável que seja a última vez que Cristiano Ronaldo jogue a competição. O grande craque do time não está sozinho em termos de talento e Portugal terá que lidar com uma pequena turbulência causada pelo seu astro em uma entrevista bombástica que detonou o seu clube, o Manchester United, sendo que há dois companheiros de seleção que jogam por lá. É incerto qual foi o efeito, mas o temor existe. Em uma chave da qual é cabeça de chave, Portugal sabe que não terá vida fácil contra Uruguai e Gana, mas tem condição de sair do grupo como primeiro colocado. Até porque ficar em segundo é um risco: pode ter que enfrentar o Brasil logo nas oitavas de final. Algo que ninguém em Portugal acharia uma boa.
Como foi o ciclo até a Copa
Portugal não trocaria o título da Eurocopa de 2016 por nada, mas um sub-produto daquela improvável campanha é que ficou meio difícil demitir Fernando Santos. Ele deu motivos para isso. Se é possível argumentar que tirou leite de pedra na França, também é, bastante, que não consegue aproveitar todo o talento que Portugal agora tem à disposição. Foram raras as ocasiões em que conseguiu fazer o seu time atuar coletivamente como ele pode, contestado por ser excessivamente conservador e cauteloso. Não fez uma grande Euro 2020 e teve problemas nas últimas duas eliminatórias que disputou, especialmente na mais recente. Precisou encarar a repescagem. O que está em jogo no Catar é enorme: se Portugal não tiver uma grande campanha, terá desperdiçado um dos melhores jogadores da história – em Copas do Mundo. Não passou das oitavas de final ou da fase de grupos nas últimas três edições, quando Cristiano Ronaldo estava no auge. Ele não está mais, mas ainda pode ter um grande momento em Mundiais como um dos protagonistas porque em 2006 era apenas um garoto.
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Como foi o ciclo até a Copa
Portugal chegou com expectativas à Copa do Mundo da Rússia. Era o atual campeão europeu, sempre uma credencial importante. Cristiano Ronaldo ainda não havia entrado em decadência (44 gols em 44 jogos pelo campeão europeu Real Madrid). O grupo tinha um cruzamento com a Espanha, mas não gerava risco real de eliminação – que, no fim, existiu. Portugal passou com cinco pontos, dois empates, um deles contra o Irã, e uma vitória magra sobre Marrocos. Mas ok, cruzaria nas oitavas de final com o Uruguai. Longe de ser favas contadas, longe de ser carne de vaca, mas com um elenco menos qualificado tecnicamente. O trabalho defensivo dos sul-americanos prevaleceu, Edinson Cavani decidiu na frente, e Portugal foi eliminado.
O resultado foi bem ruim para a seleção portuguesa. Cair nas oitavas de final provavelmente não estava nos planos, e isso porque contou com um ótimo Cristiano Ronaldo, o que não havia acontecido em 2010 ou 2014. Principalmente, não conseguiu jogar bem, e as contestações começaram a aparecer para o trabalho de Fernando Santos. Antes que elas ficassem altas demais, ele acrescentou um título ao seu currículo. Sim, sim, eu sei que foi apenas a Liga das Nações. Mas para um país como Portugal, que não tem a sala de troféus mais vasta do mundo (antes de 2016, nem existia), a vitória sobre a Holanda foi algo a se comemorar.
Enquanto isso, porém, a campanha nas Eliminatórias da Eurocopa apresentava problemas. Tropeçou nas duas primeiras rodadas, contra Ucrânia e Sérvia. Recuperou-se, com três vitórias seguidas, mas perdeu em Kiev e ficou apenas em segundo lugar. A segunda campanha na Liga das Nações, antes da Euro 2020, foi menos bem sucedida, embora tenha dado um calorzinho na França, que passou em primeiro com três pontos a mais. A defesa do título europeu, porém, não foi das mais inspiradas.
É verdade que não deu muita sorte, caindo no grupo de Alemanha e França. Começou com uma vitória suada sobre a Hungria, que era obrigação a quem queria passar – e, no fim, foi o único que conseguiu. Lutou em Munique, mas perdeu por 4 a 2 na melhor atuação da Alemanha no torneio. Classificou-se em terceiro após um empate por 2 a 2 com os franceses, no qual Ronaldo e Karim Benzema ficaram dois gols cada, para o delírio dos torcedores do Real Madrid. Nas oitavas, cruzou com a Bélgica e, embora tenha criado mais e sofrido gol no único chute no alvo do adversário, foi eliminado sem apresentar um grande futebol.
O burburinho em torno de Santos ficou mais alto. O elenco de Portugal estava bem mais qualificado que o da Eurocopa de 2016, mas o desempenho coletivo não acompanhou. A campanha nas Eliminatórias para a Copa do Mundo não ajudou. Empatou em Belgrado, empatou com a Irlanda em Dublin e, na última rodada, foi derrotado em casa pela Sérvia. Não conseguiu o primeiro lugar. Teria que passar pela repescagem, e o sorteio novamente não foi exatamente benéfico: teria que enfrentar a Itália, se passasse pela Turquia.
Vocês sabem que na verdade não teve. A Itália foi eliminada pela Macedônia do Norte na semifinal dos playoffs, e Portugal, embora tenha pregado muito respeito ao adversário, teve vida um pouco mais fácil para carimbar vaga em sua sexta Copa do Mundo consecutiva. Nas últimas Datas Fifas, não teve tantos problemas quanto outras seleções, como Inglaterra, França e Alemanha, mas também não brilhou e ficou em segundo lugar, atrás da Espanha. Teve goleadas importantes contra Tchéquia e Suíça, dois bons times europeus, que pelo menos passaram certo otimismo, mas o geral do ciclo foi de questionamentos à capacidade de Fernando Santos de tirar o melhor do seu elenco.
Como joga
De uma coisa, Fernando Santos não pode reclamar: qualidade. Portugal tem um dos elencos mais profundos do mundo, com reservas à altura dos titulares e peças suficientes para ser armado de diversas maneiras. A sua formação base varia entre o 4-1-4-1 sem a bola para algo mais parecido com o 4-3-3 na fase ofensiva. Geralmente, com dois jogadores dando solidez ao meio-campo para liberar Bruno Fernandes à criação, um meio-campista pela direita e um atacante mais agudo pela esquerda, todo mundo tentando botar a bola em uma boa posição para Cristiano Ronaldo mandar para dentro.
Rui Patrício é o terceiro do elenco com mais partidas pela seleção e foi titular durante 10 anos, mas ficou para trás. Hoje na Roma, perdeu a posição para Diogo Costa, que tem brilhado com a camisa do Porto nas últimas temporadas, especialmente nesta fase de grupos da Champions League, em que se habituou a defender pênaltis. Além de ótimos, os laterais permitem variações. João Cancelo sabe como poucos fazer a função do ala que afunila e cria sobrecarga no meio-campo. No Manchester City, partindo da esquerda para dentro. Diogo Dalot oferece mais força física. Na esquerda, Nuno Mendes tem chegada à linha de fundo e bom cruzamento, enquanto Raphaël Guerreiro é mais técnico e também sabe trabalhar por dentro.
Extremamente experiente, Pepe foi convocado, apesar de uma lesão no joelho que colocou sua quarta Copa do Mundo em risco. Ele conseguiu disputar alguns minutinhos pelo Porto no fim de semana antes da paralisação. Se estiver em forma, é provável que seja o parceiro de Rúben Dias, absoluto na vaga. Senão, a preferência é pelo volante Danilo Pereira, até porque o outro zagueiro de ofício convocado é o jovem António Silva, de 19 anos, que ainda não fez um jogo pelo time principal de Portugal. Pereira tem sido zagueiro no PSG.
O negócio começa a ficar interessante de verdade a partir do meio-campo. Santos tem inúmeras opções para escalar os seis da frente. Como não é exatamente conhecido por ser ousado, costuma optar por dois volantes, com Rúben Neves começando na frente de defesa, auxiliado por William Carvalho. Esses dois dão sustentação para Bruno Fernandes se movimentar pelo setor ofensivo, com sua incrível visão de jogo e precisão de passe. Bernardo Silva parte da direita, frequentemente buscando o centro, na prática como um quarto meia.
O lado esquerdo é onde tem mais velocidade. Fernando Santos estava gostando de escalar Diogo Jota, mas problemas físicos tiraram o atacante do Liverpool da Copa do Mundo. Talvez Jota perdesse a posição de qualquer maneira porque Rafael Leão, maduro, campeão pelo Milan, pede passagem. A fase ruim no Manchester United não importa: Cristiano Ronaldo, maior artilheiro da história das seleções masculinas, será o centroavante.
A partir dessa base, Santos pode buscar algumas alternativas. A mais utilizada foi a entrada de Otávio para fazer essa função de meia-direita, deslocando Bernardo Silva para o meio do gramado. Isso aumenta a qualidade técnica e capacidade de reter a bola de Portugal. O que também faria isso seria a entrada de Vitinha no lugar de Carvalho, mantendo Silva pela direita. Mesmo jovem, chegou chegando no Paris Saint-Germain e tem bastante potencial. Outra opção é escalar um centroavante ao lado de Ronaldo, liberando-o a se movimentar ainda mais. Essa função costuma ser de André Silva.
Time base: Diogo, Costa; João Cancelo, Ruben Dias, Pepe (Danilo Pereira) e Raphaël Guerreiro; Ruben Neves, William Carvalho e Bruno Fernandes; Bernardo Silva, Rafael Leão e Cristiano Ronaldo. Técnico: Fernando Santos
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Donos do time
Uma hora aconteceria, ninguém é imortal, todo mundo morre no final, mas ao longo do último ciclo Cristiano Ronaldo passou do craque de um tricampeão europeu ao protagonista da pergunta: ainda dá para montar um time competitivo com ele? O físico, seu atributo mais fascinante, segue funcionando para algumas coisas, principalmente para subir bem alto e cabecear uma bola de futebol. Mas ele se movimenta menos e não pressiona. É bem difícil montar um time competitivo com um atacante que não pressiona no futebol de clubes. No futebol de seleções, para a felicidade de Portugal, é um pouco mais fácil.
Depois da Copa do Mundo da Rússia, Ronaldo encerrou sua passagem pelo Real Madrid. Novos desafios, novos ares, aquela coisa toda. Estava também ciente que o ciclo daquele grande time merengue estava chegando ao fim e tentou marcar seu nome em outro gigante europeu. Fez seus gols pela Juventus, 101 em 134 jogos, e foi decisivo em um confronto de oitavas de final contra o Atlético de Madrid. Também ganhou o prêmio de artilheiro em sua última campanha na Itália, com 29 gols em 33 rodadas em 2020/21.
Se individualmente se provou em outra grande liga, não transformou o destino da Juventus como havia feito em Manchester United e Real Madrid. Ele deveria ser a peça final para transferir o domínio doméstico para a Europa, transformar o clube em uma potência da Champions League, mas acabou deixando a Velha Senhora pior do que a encontrara: sem chegar longe na Champions e com a sequência de scudettos quebrada. Não foi apenas culpa sua porque o clube de Turim tomou uma série de decisões equivocadas, mas ele não era mais tão bom a ponto de minimizar esses erros. Em 2021, pediu para ser negociado.
Manchester ficou à beira da guerra civil quando isso aconteceu porque parecia que o Manchester City estava com tudo acertado para contratá-lo, mas a intervenção de bandeiras do Manchester United, incluindo Alex Ferguson, convenceu-o de que o melhor era retornar a Old Trafford. Foi um momento até bonito, com juras de amor dos dois lados e uma sensação de que no fim tudo estava no lugar certo. Em campo, a história foi diferente.
Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Cristiano Ronaldo salvou o Manchester United diversas vezes com gols decisivos no final, mas será que a sua presença no time, como o atacante que menos exercia pressão da Premier League, não estava contribuindo para o United estar naquela situação? Novamente, era difícil ter certeza porque o clube também não tomou cravou todas as suas decisões e a contratação de Ralf Rangnick como interino para substituir Ole Gunnar Solskjaer acabou sendo um desastre.
O United não conseguiu vaga na Champions League, e Ronaldo pediu para ser negociado durante as férias para voltar a disputá-la. E, então, se viu diante de um cenário inédito: simplesmente não tinha mercado. Ninguém achou que o que oferecia valia o salário que ganha. O Manchester United expôs ao público que gostaria de mantê-lo, mas Erik ten Hag o transformou em reserva. Não pegou muito bem. Precisou afastá-lo do elenco para um jogo com o Chelsea após ele se recusar a entrar em campo contra o Tottenham. E assim que o elenco foi dispensado para a Copa do Mundo, deu uma entrevista bombástica criticando o técnico, o clube, a estrutura, todo mundo.
Ainda não dá para saber o quanto isso será uma distração. No futebol menos exigente de seleções, Ronaldo ainda coloca a bola para dentro com frequência. Durante a Eurocopa, com seus gols contra a França, chegou a 109 gols e igualou o recorde de Ali Daei de artilheiro de seleções masculinas. Não demorou muito para superá-lo. O sucesso de Portugal ainda depende bastante de seu craque, cuja capacidade de finalização e de se colocar nos lugares certos dentro da área continuam espetaculares. Mas nunca foi tão claro que está se encaminhando para o fim da sua carreira.
Em 2018, Bruno Fernandes era uma promessa do Sporting. Na Euro 2020, estava estabelecido como craque do Manchester United, mas teve uma competição decepcionante. O Catar é um bom lugar para dar a resposta. Hoje é um dos melhores meias do mundo porque tem o pacote completo: passe preciso para quebrar linhas, chute de fora da área, chegada para finalizar e, principalmente, inteligência. Muita inteligência. Tem memória quase fotográfica para lembrar lances de jogos anteriores e tem uma estratégia interessante para encontrar os espaços no campo de ataque: seguir o árbitro.
“É sobre encontrar áreas não ocupadas ou às vezes áreas mortas onde ninguém pode vê-lo ou marcá-lo. Ou, se marcá-lo, eles criam espaços no meio do gramado para outras pessoas. Normalmente, eu chamo de ‘áreas do árbitro’ porque ninguém marca o árbitro. Às vezes, é isso que os técnicos dizem aos jogadores que jogam entre as linhas ou aos pontas que entram por dentro ou ao atacante quando ele recua. Também depende da maneira como o árbitro apita o jogo. Mike Dean, por exemplo, corre muito centralmente, o que é provavelmente para ele ver o jogo, mas, para nós, como camisas 10, essa não pode ser nossa posição, então você tem que encontrar para onde pode ir”, disse, em entrevista ao The Athletic em setembro.
Como todo o Manchester United, o rendimento de Fernandes caiu desde que ele chegou voando em janeiro de 2020 e depois fez uma temporada fenomenal, com 28 gols e 18 assistências. Sua participação diminuiu, mas ainda fica claro que, quando ele está bem, o United está melhor, e que o time precisa de sua melhor versão para ter sucesso. Na Copa do Mundo, a situação é parecida. Se Bruno Fernandes estiver brilhante, as chances de chegar longe são maiores para Portugal.
É um pouco incrível que Pepe ainda pertença a esta seção. Ele disputou a última Copa do Mundo como jogador do Besiktas, após ser brilhante para o Real Madrid, o que parecia aquela decisão que encaminha o fim da carreira. Seis meses depois, rescindiu contrato com o clube turco, que passava por problemas financeiros, e retornou ao Porto. Desde então, não é apenas um sábio ancião que passa sua experiência para a garotada. Mesmo com lesões aqui e ali, teve temporada em que fez 40 jogos em bom nível. Mesmo na última, entrou em campo 33 vezes. Uma lesão no joelho a cerca de um mês da Copa do Mundo deixou sua participação em dúvida, mas se recuperou a tempo e estará no Catar.
Caras novas
Portugal ganhou jogadores muito importantes durante o último ciclo. O principal talvez tenha sido Rúben Dias, especialmente diante da necessidade de renovar a sua defesa. Foi convocado à Copa do Mundo da Rússia, ainda como um garoto promissor do Benfica, e sequer entrou em campo. Quatro anos depois, é um dos melhores zagueiros do mundo. Foi contratado por uma bala pelo Manchester City, em 2020, uma das tentativas de Pep Guardiola para acertar sua defesa após a aposentadoria de Vincent Kompany e problemas de rendimento de outros nomes. Junto com outras mudanças táticas, ele rapidamente se transformou em um jogador dominante e foi um dos melhores jogadores da temporada 2020/21, quando o City foi campeão inglês e chegou à final da Champions League. Acumulou 38 jogos pela seleção desde o Mundial da Rússia, em campo praticamente sempre que estava disponível.
Santos é criticado por decisões conservadores. Em 2018, uma delas foi tomada antes mesmo do torneio começar. Ele preferiu levar apenas um volante de ofício, William Carvalho, e rechear o meio-campo com nomes mais experientes, como Manuel Fernandes e Adrien Silva, e deixou Rúben Neves em casa. É verdade que ele ainda era um garoto em ascensão, mas era evidente que se tratava de um talento especial. Havia disputado a segunda divisão inglesa por causa da relação do Wolverhampton com Jorge Mendes. Com sua capacidade de ditar o jogo e uma bela pancada de fora da área, virou um dos destaques da Premier League fora do Big Six, frequentemente especulado para grandes transferências.
Portugal também ganhou mais um atacante de primeira linha. Rafael Leão sempre mostrou potencial. Rescindiu seu contrato com o Sporting alegando justa causa depois do elenco ter sido atacado por torcedores do Leão em maio de 2018. Parece uma causa justa, mas a Corte Arbitral do Esporte disse que ele deve € 16 milhões ao clube português. Deve rachar o prejuízo com o Lille, que aproveitou para assegurar os seus serviços e o repassou para o Milan em 2019. Se os dois primeiros anos foram um pouco irregulares, explodiu em 2021/22, conduzindo o gigante italiano à conquista do scudetto como o craque da Serie A. Ficou tão bom que Portugal nem sente tanta falta de Jota. O Leão do último ano e meio é melhor que o atacante do Liverpool.
Diogo Costa é um homem do Futebol Clube do Porto. Nascido na Suíça, mudou-se para a região quando era jovem, começou nas categorias de base dos Dragões e estreou em 2019/20. Teria que esperar para ser titular, o que aconteceu apenas na última temporada, tomando o lugar do experiente Agustín Marchesín que, depois de virar reserva, saiu para o Celta de Vigo. Aos 23 anos, Costa é uma commoditiy rara: um goleiro jovem que já mostra segurança e maturidade para atuar no mais alto nível. Santos percebeu isso e lhe deu a titularidade na maioria dos jogos mais recentes, incluindo na repescagem das Eliminatórias.
O técnico
Fernando Santos marcou seu nome na história do futebol português. Isso é inegável. Os dois títulos da história da seleção são dele. Também teve uma passagem importante por clubes, campeão nacional pelo Porto em 1998/99, alguns anos depois de quase abandonar a carreira de técnico para seguir sua outra profissão – é formado em engenharia eletrotécnica e de telecomunicações. Conquistou uma Copa da Grécia com o AEK Atenas e perdeu o título do Campeonato Grego para o Olympiacos no saldo de gols. Foi terceiro colocado com o Sporting e foi novamente vice-campeão na Grécia com o PAOK. Ao substituir o campeão europeu Otto Rehhagel na seleção grega, conseguiu bons resultados, com quartas de final da Eurocopa e uma inédita oitavas de final da Copa do Mundo.
Tudo isso para dizer que ele não é um impostor no comando de uma das seleções mais talentosas do mundo, mas, depois de vencer a Eurocopa de 2016 e a Liga das Nações de 2019, o seu trabalho não evoluiu como se esperava. As contestações passaram a ser mais frequentes na imprensa local após jogos fracos porque os jogos fracos se multiplicaram, e as expectativas cresceram com a expansão do talento português. Depois da Copa do Mundo, é possível que siga em frente de qualquer jeito porque oito anos é um ciclo longo, mesmo para as seleções. Qual impressão deixará dependerá do que conseguir fazer no Catar.
Geografia do elenco
Como era de se esperar, as antigas colônias de Portugal têm laços com a seleção. Pela quinta Copa do Mundo consecutiva, uma pessoa nascida no Brasil defenderá as cores portuguesas. Essa tradição começou com Deco, em 2006. Quatro anos depois, ele teve a companhia de Liedson e de Pepe. Deco e Liedson não chegaram a 2014, quando o Mundial foi realizado em solo brasileiro, mas Pepe ficou. Em 2018 também. E em 2022 também. Nascido em Alagoas, 39 anos atrás, o zagueiro do Porto ainda não parece pronto para se aposentar. Ele estará ao lado do paraibano Otávio, desde 2014 em Portugal.
E do carioca Matheus Nunes. Abandonado pelo pai, ele se mudou com a mãe e o padrasto para Ericeira, cidade próxima a Lisboa, aos 13 anos, e fez toda sua carreira no país. Destacou-se pelo Estoril e brilhou de verdade pelo Sporting, antes de se juntar à colônia do Wolverhampton. Ano passado, foi convocado por Tite para jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo em setembro e também estava no radar de Fernando Santos, o selecionador português. A vacinação incompleta contra Covid-19, que poderia implicar em quarentena ao retornar, lhe deu mais tempo para pensar sobre sua decisão.
Em outubro daquele ano, estreou por Portugal em amistoso contra o Catar e, três dias depois, fez 10 minutos de um jogo oficial contra Luxemburgo pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. “Falei com ambos os técnicos e, depois de pensar muito com minha família e meu padrinho, cheguei à conclusão de que o melhor para mim era jogar pela seleção portuguesa. Foi muito difícil, foi a decisão mais difícil da minha carreira, porque cheguei a Portugal com 13 anos. Eu já me sinto português, tenho muitos dos hábitos e da cultura daqui de Portugal. Quando recebi a chamada do Brasil na primeira vez, foi um orgulho muito grande, porque tinha esse sonho desde criança, quando ainda morava no Brasil, mas tive de decidir entre uma seleção e a outra e acho que tomei a decisão certa”, disse, explicando sua escolha.
Entre as ex-colônias africanas, a com maior influência na convocação é Angola. William Carvalho nasceu em Luanda e foi nas ruas do de Sambizanga que começou a jogar bola. O bairro é casa do Progresso, clube que foi defendido pelo seu avô, Praia, e seu tio, Afonso. Após se mudar para Portugal, começou a carreira no Algueirão. Quando estava nas categorias de base da seleção portuguesa, rechaçou a abordagem de Angola para defender o país africano. O lateral Nuno Mendes e o experiente meia João Mário têm sangue angolano.
Danilo Pereira nasceu na Guiné-Bissau e se mudou para Portugal aos cinco anos. Sua carreira tem uma trajetória curiosa porque, embora tenha feito categorias de base no Benfica, passou por três países – Itália, Grécia e Holanda – antes de começar a se destacar pelo Marítimo, depois pelo Porto. O goleiro Diogo Costa nasceu de pais portugueses em Rothrist, na Suíça, mas chegou à região da Cidade do Porto aos sete anos. Raphaël Guerreiro é dos subúrbios de Paris, de pai português e mãe francesa, e começou a carreira naquele país, defendendo Caen e Lorient antes de chegar ao Borussia Dortmund. Poderia defender as duas seleções, e escolheu a que lhe passa mais identificação, mesmo que tenha crescido e se desenvolvido na França. Teve uma experiência especial em 2016 quando conquistou a Eurocopa por Portugal em solo francês.
Entre os jogadores nascidos em Portugal, sete são da região de Lisboa: Rúben Dias, João Cancelo, Nuno Mendes, Bernardo Silva, João Palhinha, Rafael Leão e Ricardo Horta. Cinco, da Cidade do Porto: João Mário, Bruno Fernandes, Rúben Neves, Vitinha e André Silva. António Silva e João Félix vieram de Viseu, ao sudeste do Porto. José Sá e Diogo Dalot são de Braga, e Rui Patrício nasceu em Leiria. Gonçalo Ramos é de Olhão, no extremo sul. E Cristiano Ronaldo é filho da Ilha da Madeira.
Onde jogam
Houve momentos em que dava para questionar a companhia com a qual Cristiano Ronaldo andava na seleção portuguesa. Esse momento passou. Nem o elenco campeão europeu em 2016 era tão qualificado quanto esse, não apenas com jogadores em clubes grandes da Europa, mas com papéis importantes. Começando por Manchester. No lado vermelho, o sucesso do United precisa passar por grandes atuações de Bruno Fernandes. Diogo Dalot também é titular, embora seja um pouco por falta de opção. Ronaldo, naturalmente, é um caso à parte. Ele está na reserva, colocou fogo no parquinho antes de se apresentar à seleção portuguesa e deve deixar Old Trafford em breve. Mas é Cristiano Ronaldo.
No lado azul da cidade, João Cancelo, Bernardo Silva e Rúben Dias estão entre os pilares de um time que, quando não é incontestavelmente o melhor do mundo (como, por exemplo, quando está em sequência de 20 vitórias seguidas na Premier League), está sempre entre eles. Dias precisou de um minuto ou dois, mas supriu a aposentadoria de Vincent Kompany com louvor. Cancelo foi um dos melhores jogadores de um título inglês recentemente. Apenas Silva está um pouco mais em baixa, com rumores de que pretende deixar o clube em breve.
E como podemos falar de futebol inglês e jogadores portugueses sem citar o Wolverhampton, o clube-satélite de Jorge Mendes? A enorme colônia do Molineux enviou três representantes à seleção: Rúben Neves, provavelmente o seu principal jogador, o terceiro goleiro José Sá e o meia Matheus Nunes. Nélson Semedo, Gonçalo Guedes e o veterano João Moutinho são nomes que em outros momentos também estariam com a delegação. Fechando a Inglaterra, João Palhinha é responsável pelo equilíbrio do meio-campo do Fulham.
Embora com menos protagonismo, outra potência europeia, o Paris Saint-Germain, tem três jogadores no elenco de Fernando Santos. Nuno Mendes e Danilo Pereira, como zagueiro, começam a maioria das rodadas da Ligue 1. Vitinha também, mesmo tendo acabado de chegar. Portugal também tem jogadores importantes que brigam na ponta das tabelas da Serie A e da Bundesliga, com destaque para Rafael Leão, o craque da conquista do Milan na última temporada. A Roma conta com Rui Patrício debaixo das suas traves. O Borussia Dortmund tem o lateral esquerdo Raphaël Guerreiro. André Silva perdeu um pouco de espaço no RB Leipzig com o retorno de Timo Werner, mas continua entrando frequentemente nas partidas.
Na Espanha, o Betis tem William Carvalho no seu meio-campo, e João Félix é uma enorme aposta do Atlético de Madrid que ainda sofre com altos, baixos e problemas físicos. O resto da seleção atua em Portugal, com três jogadores do Benfica (António Silva, João Mário e Gonçalo Ramos) e três do Porto (Diogo Costa, Pepe e Otávio). O Sporting não enviou nenhum embaixador. O Braga poderá se orgulhar de Ricardo Horta.
Um herói em Copas
Um dos heróis de Portugal em Copas do Mundo acabou de se aposentar da carreira de treinador. Luiz Felipe Scolari comandou o Athletico Paranaense no último jogo de uma carreira brilhante que incluiu a melhor campanha de Portugal em Mundiais em 40 anos, com a semifinal na Alemanha, em 2006, igualando o feito de Eusébio e companhia. Aquele time tinha Luis Figo, Deco e Pauleta, mas chegou tão longe graças ao brilhantismo de Ricardo debaixo das traves. O goleiro, então com 30 anos, havia chamado atenção pelo Boavista e se destacou pelo Sporting. Na época da Copa, estava no Betis e carregava um histórico importante quando entrou em campo em Gelsenkirchen para enfrentar a Inglaterra.
Dois anos antes, defendeu o pênalti de Darius Vassel nas quartas de final da Eurocopa contra os ingleses e depois ele próprio bateu a cobrança que colocou o time da casa na semifinal. Portugal encontrou a Inglaterra na mesma fase na Alemanha. Foi uma partida tensa, com a expulsão de Wayne Rooney, aos 17 minutos do segundo tempo, por um pisão em Ricardo Carvalho. Cristiano Ronaldo era companheiro de Rooney, mas isso não o impediu de pressionar o árbitro em busca do cartão vermelho. Simão Sabrosa abriu os trabalhos para Portugal, e Ricardo fez a sua primeira defesa contra Frank Lampard.
Hugo Viana desperdiçou, e Hargreaves marcou para a Inglaterra, que empatava a disputa. Seria, porém, seu último gol naquela noite. Petit mandou para fora, mas Ricardo defendeu a batida de Steven Gerrard. Hélder Postiga colocou os portugueses à frente, e Jamie Carragher parou novamente nas mãos do goleiro de Felipão. Cristiano Ronaldo, garotinho de tudo, definiu a parada. O jogador decisivo, porém, foi Ricardo, o primeiro a defender três pênaltis em uma disputa válida pela Copa do Mundo. Ao contrário da Euro, pelo menos estava usando luvas.
Calendário
Portugal x Gana, 24/11
Portugal x Uruguai, 28/11
Coreia do Sul x Portugal, 02/12
Todos os convocados
| Número | Posição | Jogador | Data de nascimento | Clube | Jogos | Gols | Local de Nascimento |
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