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Goleiro dançante e herói da Austrália quase deixou o futebol para ser professor de ensino fundamental

Andrew Redmayne defendeu o pênalti que deu à Austrália a vitória sobre o Peru e uma vaga na Copa do Mundo do Catar

Houve um momento em que Andrew Redmayne duvidou se ser jogador de futebol era a melhor maneira de colocar comida na mesa. Estava com dificuldades para se firmar como titular dos clubes que defendia e aproveitava um programa que oferece bolsas de estudo a jogadores da A-League e da W-League para preparar a sua próxima profissão. Por alguns detalhes, poderia ter começado esta segunda-feira dando aulas no ensino fundamental antes de se sentar no sofá com uma cerveja na mão para assistir à Austrália enfrentar o Peru por uma vaga na Copa do Mundo, em vez de ter sido o grande herói da classificação.

Redmayne entrou em campo nos minutos finais da prorrogação apenas para a disputa de pênaltis, no lugar do titular Mathew Ryan. A aposta do técnico Graham Arnold se pagou. O goleiro de 33 anos fez a sua melhor imitação de Bruce Grobbelaar para tirar a atenção dos batedores peruanos. Dançou de um lado para o outro em cima da linha. Após Martin Boyle perder o primeiro à Austrália, Luis Advíncula acertou a trave, e Redmayne defendeu a batida final, de Alex Valera, para colocar a Austrália em sua quinta Copa do Mundo consecutiva, a sexta no total.

Mas, cerca de cinco anos atrás, ele não tinha certeza se conseguiria se firmar como goleiro titular de uma equipe da A-League, após uma temporada em que fez apenas nove jogos pelo Western Sydney Wanderers e pelo Sydney. Ele vinha de outros dois anos em que passou bastante tempo no banco de reservas e pensava se não era mais negócio virar professor, como seus pais, alguns tios, tias, primos e até o cunhado – parece ser a profissão favorita da família.

 

“Eu estava em uma certa encruzilhada na minha carreira e não tinha certeza se era o caminho que colocaria comida na mesa e um teto sobre a minha cabeça”, afirmou, em março de 2020, em entrevista ao podcast do Sindicato dos Jogadores da Austrália, que oferece bolsas de estudo para os atletas profissionais não dependeram exclusivamente do futebol. Àquela altura, ele havia dado a volta por cima na carreira e fora titular de dois títulos consecutivos do Campeonato Australiano pelo Sydney. Contribuiu também para uma conquista na Copa da Austrália.

“Eu acho que estudar tirou um peso das minhas costas. Como jovem jogador, você coloca todas suas fichas em um lugar só. Se não der certo como jogador, eu não tenho nada. Eu descobri que, se eu levar a universidade a sério, quando chego em casa dos treinamentos, coloco todo meu foco naquilo, em vez de pensar constantemente em futebol. Eu sinto que estudar e ter uma opção me permitiu encarar o futebol com mais força”, disse.

“Quando estou no futebol, dou 110%, e sei que se algo acontecer, eu tenho uma alternativa e tenho outro caminho para percorrer. Se eu não tivesse, eu ficaria preocupado com uma pancada ou uma lesão, mas agora eu sei que tenho um plano B e posso me soltar um pouco mais no futebol e realmente dar tudo que eu tenho”, acrescentou.

Pela relação familiar, a escolha pelo ensino foi natural. Redmayne até acredita que há semelhanças entre o professor e o goleiro e também é uma maneira de devolver alguma coisa à comunidade. “Sempre admirei professores como exemplos quando eu estava na escola. Eu gostaria de ajudar a desenvolver crianças, não apenas em aspectos do futebol, mas também da escola. É ótimo ser considerado um exemplo quando você entra numa sala de aula. Acho que há semelhanças entre ensinar e ser goleiro. Você tem que se comunicar muito e supervisionar tudo e tenho certeza que levarei coisas que aprendi na minha carreira profissional quando me aposentar e entrar na sala de aula”, disse.

Em outra entrevista, à Fox Sports da Austrália, o goleiro elogiou o programa do Sindicato dos Jogadores da Austrália e afirmou que é ótimo ter algo para fazer durante as viagens do Sydney. “Em aviões e ônibus e hotéis. É muito bom. Mesmo em jogos da Champions League ano passado foi bom preencher o tempo. Você não fica apenas sentado no seu quarto pensando demais sobre futebol. Também está preparando minha vida após o futebol, então me dá confiança nisso também”, acrescentou.

Redmayne fez sua estreia pela seleção australiana em 2019, em amistoso contra a Coreia do Sul, e havia feito apenas um outro jogo, contra Nepal, pelas Eliminatórias Asiáticas. Deve continuar na reserva de Ryan na Copa do Mundo, mas com certeza será muito popular com seus alunos quando trocar os campos de futebol pelas salas de aula.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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