Copa do Mundo

A força da Inglaterra e sua liga que eliminou o Canadá e vai à semifinal da Copa

A Inglaterra é semifinalista da Copa do Mundo depois de um jogo tenso contra a seleção mandante, Canadá. Eram 54 mil pessoas no estádio BC Place, em Vancouver, mas as inglesas não se intimidaram. As anfitriãs sim. As inglesas foram fatais, aproveitaram as falhas, partiram para cima, marcaram dois gols que deram a vantagem decisiva. O placar de 2 a 1 foi construído todo no primeiro tempo e as inglesas pareceram sempre muito confiantes. Personalidade forte de um time que acreditava que era possível, mesmo sem ser favorita. Graças, em parte, à grande atuação da zagueira e capitã do time, Steph Hughton. Mas tem a ver com um trabalho feito pela própria Inglaterra, internamente, desenvolvendo o seu próprio campeonato.

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A seleção inglesa semifina foi semifinalista na Eurocopa de 1995, quando a disputa ainda era em jogos de ida e volta, e acabou eliminada pela Alemanha. Foi finalista em 2009, na Finlândia, mas acabou massacrada pela Alemanha de Brigit Prinz na final, 6 a 2. Em 2007 e 2011, as inglesas pararam nas quartas de final da Copa, em eliminações para os Estados Unidos e França, esta nos pênaltis.

As inglesas já passavam por uma mudança sutil. Em 2010, o futebol inglês para mulheres foi reformulado. Foi criada a Woman’s Super League (WSL), a liga de futebol feminino do país. Se desgrudou do modelo dos homens. As mulheres jogam de março a outubro, e não de agosto a maio, como os homens. A liga é independente da Football Association (FA), assim como os homens.

São oito clubes na primeira divisão e a atual campeã é o Liverpool. Das 23 inglesas convocadas, só uma não atua no país, justamente a atacante Jodie Taylor, um dos destaques da partida contra o Canadá, que atua pelo Portland Thorns, dos Estados Unidos. São cinco jogadoras do Arsenal, cincodo Manchester City, quatro do Birmingham e quatro do Notts County. Assim como a seleção masculina, a base do time atua no próprio país, que tenta tornar a liga feminina uma potência. E tem conseguido bons resultados.

Na Copa do Mundo de 2015, a inglesas caíram no grupo da forte França. Perderam para as francesas na estreia por 1 a 0, mas se recuperaram com vitórias sobre o México e Colômbia, ambas por 2 a 1. Vieram então as oitavas de final e o adversário foi uma seleção tradicional do futebol femino: a Noruega, campeã mundial em 1995, Olímpica em 2000 e da Eurocopa em 1987 e 1993. Peso pesado perto das inglesas, que nunca levantaram uma taça nessas mesmas competições. Mas a Inglaterra venceu, 2 a 1, e avançou.

No sábado, era dia de jogo em Vancouver e os gols antes dos 15 minutos deram uma grande vantagem à Inglaterra. Primeiro, aos 11 minutos, Jodie Taylor aproveitou bem o erro da defesa canadense para fazer um bonito lance e marcar 1 a 0. Aos 14 minutos, em uma cobrança de falta, Lucy Bronze aproveitou que a goleira rebateu mal e marcou o gol que deu a vantagem por 2 a 0. Aos 42 minutos, Christine Sinclair marcou o gol que descontou a vantagem. Havia todo um segundo tempo pela frente. Não adiantou. Foi muito pouco. A Inglaterra se manteve firme e saiu de campo com a classificação assegurada.

“Este time mostrou uma incrível personalidade, resiliência e união. Estas jogadoras mostraram um desejo que eu nunca vi em um time da Inglaterra antes”, disse o emocionado técnico Mark Sampson, galês de nascimento, que tem 32 anos.

 

A adversária será ainda mais dura na semifinal. As inglesas enfrentarão o Japão, atual campeão mundial, que venceu a Austrália nas quartas. Do outro lado, duas das maiores favoritas se enfrentam, Estados Unidos e Alemanha. Duas potências do futebol feminino.

 

“O Japão será um desafio imenso e eu escolherei um time que nos dê uma chance de chegar à final”, afirmou o treinador. “Nós podemos ser um adversário muito difícil”, ele ainda declarou.  A capitã Houghton disse o que era o objetivo do time. “O nosso objetivo vindo aqui era inspirar a nação”, ela disse. “Espero que tenhamos feito isto esta noite”, ela afirmou.

Se a Inglaterra conseguir passar pelo Japão, não terá vida fácil. Mas para quem chegou à semifinal, por que não sonhar mais?

O orgulho resgatado pelas mulheres

A última vez que a Inglaterra esteve em uma semifinal de Copa do Mundo foi em 1990, quando o time que tinha Paul Gascoigne e Gary Lineker caiu diante da Alemanha, na Itália. Desde então, foram muitos times ingleses recheados de esperanças. Em 1996, na Eurocopa jogada em casa, novamente a decepção com a eliminação para a Alemanha. Novamente nos pênaltis.

Depois, vieram a eliminação dramática para a Argentina, também nos pênaltis, em 1998; o fracasso na Eurocopa de 2000, caindo na fase de grupos; em 2002, os ingleses caíram para o gol de Ronaldinho e Rivaldo, nas quartas de final; em 2004, Portugal foi o algoz dos ingleses, de novo nos pênaltis; em 2006, na Copa do Mundo da Alemanha, o adversário foi o mesmo e o resultado também: eliminação diante dos portugueses nos pênaltis; em 2008, sequer chegaram à Eurocopa; em 2010, os alemães passaram como tratores naquele dia do gol de Lampard que não foi validado; em 2012, os pênaltis de novo: desta vez, derrota para a Itália de Pirlo e Buffon; em 2014, por fim, queda na fase de grupos diante de Uruguai e Itália no grupo da morte. A geração de ouro inglesa ficou pelo caminho. A masculina, ao menos. A feminina vai mostrando que pode fazer história.

OS GOLS

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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