Copa do Mundo

Como família – fora e dentro de campo – fez Florian Wirtz virar esperança da Alemanha

Meia do Liverpool tem trajetória no futebol ligada à família e tornou-se esperança por recuperação da Alemanha na Copa

A seleção da Alemanha chega à Copa do Mundo de 2026 com um novo perfil. Jogadores mais jovens e uma nova geração que busca reconquistar o auge da equipe nacional pouco mais de dez anos após o título do Mundial no Brasil. E se esse grupo pode contar com novos talentos, um dos seus líderes é Florian Wirtz.

Mas para entender como o jogador se tornou uma das principais esperanças dos alemães neste ciclo é preciso voltar no tempo e buscar a sua infância. Nascido em Pulheim, suas origens sempre estiveram ligadas ao futebol.

O seu pai, Hans-Joachim Wirtz, é presidente do clube amador Grun-Weiss Brauweiler e foi lá que o meia-atacante deu os seus primeiros passos. Aliás, a rotina girava em torno do esporte.

O ambiente vivido por Florian foi voltado para que ele tivesse o máximo de contato com o mundo exterior. Em vez de ficar sentado na sala de estar, Wirtz e sua irmã Juliane jogavam futebol no clube, onde viam o pai na maior parte do tempo.

De perfil reservado e tímido, Wirtz era incentivado a brincar na rua e como o próprio jogador relatou em entrevista à revista “Bundesliga Magazine” ao afirmar que “não fazia nada além de ficar ao ar livre e me exercitar”.

— Ele também não tinha celular naquela época. Grande parte do sucesso se deve à proteção que sua família lhe proporcionou. Sempre admirei a determinação deles em não apenas seguir o caminho mais rápido para o futebol profissional, mas sim o caminho da saúde — declarou Martin Heck, que treinou o Wirtz nas categorias de base.

Florian Wirtz e o seu pai, Hans, durante treinamento do jogador do Bayer Leverkusen (Foto: IMAGO / Nordphoto)
Florian Wirtz e o seu pai, Hans, durante treinamento do jogador do Bayer Leverkusen (Foto: IMAGO / Nordphoto)

Florian é o caçula de uma família com 10 crianças que costumava se reunir em uma van e partia para um acampamento durante as férias de verão onde, claro, o futebol estaria presente.

Florian e Juliane — hoje jogadora profissional do Werder Bremen na Frauen-Bundesliga — tinham apenas 18 meses de diferença e costumavam jogar um contra o outro durante o período no acampamento ou participar de jogos com outras crianças.

Paixão de família virou legado

Hans era treinador mas também foi, por muitos anos, chefe das categorias de base do Grun-Weiss Brauweiler. Além de atuar como dirigente, ele também participou de outras funções no clube, que incluíam até a manutenção do gramado.

— Ele é o cara para tudo. Sem ele, o clube não funcionaria. Ele tem que fazer tudo. Às vezes, no domingo, ele até traça as linhas no campo. Ele realmente faz tudo. Eu não tinha outra escolha [a não ser jogar por eles]. Ele também foi meu primeiro treinador. Ele era mais exigente comigo, mas acho que isso me ajudou um pouco — disse Wirtz em janeiro, durante entrevista à “BBC”.

Apesar da imersão no futebol ao longo de toda a infância, o jogador lembra que ele e a irmã nunca se sentiram pressionados pelo pai a seguir a carreira no esporte.

Florian e sua irmã Juliane Wirtz são jogadores profissionais (Foto: Instagram/Florian Wirtz)
Florian e sua irmã Juliane Wirtz são jogadores profissionais (Foto: Instagram/Florian Wirtz)

— Quando éramos crianças, o importante era nos divertirmos jogando. Para nós dois, era simplesmente legal ir aos jogos de futebol com nosso pai nos fins de semana. Ele certamente não era ambicioso demais e não nos pressionava para jogar futebol depois da escola. Mas mesmo assim nos ensinou muito — contou à “11Freunde”.

A ligação com Juliane se fortaleceu especialmente na infância, quando passaram desenvolveram a paixão pelo futebol. Mas logo em seguida passaram a vivenciar boa parte das experiências no futebol profissional de forma simultânea. Aliás, a jogadora também atua como meia.

—  Minha irmã [Juliane] joga no Werder Bremen. Ela também jogou no Brauweiler, Colônia e Leverkusen. Jogamos ao mesmo tempo em três clubes. Às vezes podíamos ir juntos de carro para o treino. Estou muito orgulhoso dela, ela está indo bem. Estou feliz por ela porque está tendo uma ótima temporada com o time. Minha irmã sempre me deseja boa sorte nos jogos e me liga ou manda mensagens. Sempre que posso, tento assistir aos jogos dela. É legal termos as mesmas ambições e a mesma maneira de pensar sobre futebol. Fico feliz que ela seja jogadora de futebol, assim temos algo em comum e isso é ótimo — destacou à “BBC”.

Florian Wirtz junto ao seus pais Hans Wirtz e Karin Groß (Foto: IMAGO / Sportfoto Rudel)
Florian Wirtz junto ao seus pais Hans Wirtz e Karin Groß (Foto: IMAGO / Sportfoto Rudel)

A veia esportiva da família também passa pelas ligações com a mãe, Karin. Ex-jogadora e treinadora de handebol, ela foi responsável pela descoberta de uma das maiores estrelas do handebol alemão, Julian Koster, quando ele ainda era criança.

Após a vida de atleta, ela passou a dividir a gestão de carreira dos filhos junto a Hans. Aliás, a dupla recebe elogios pela forma como conduzem a carreira tanto de Florian quanto de Juliane.

O jornalista Sam Dean, do “Telegraph”, lembrou que, quando uma agência enviou um presente para o ainda adolescente Florian, na tentativa de convencê-lo a assinar contrato, Karin devolveu o pacote sem abrir. Isso porque a família não via necessidade de um agente ser responsável pela carreira dos filhos.

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O primeiro contrato

As primeiras atuações na equipe local levaram Wirtz à cidade vizinha de Colônia, onde ingressou nas categorias de base do clube homônimo em 2011 e permaneceu até 2020. Ainda criança, o jogador dividia a atenção entre a equipe da cidade e o Bayer Leverkusen.

—  Isso foi quando eu tinha seis ou sete anos. Mesmo naquela época, eu estava escolhendo entre o Bayer Leverkusen e o Colônia. Eu treinava nos dois clubes porque meus pais me incentivaram a fazer isso, só para experimentar, já que eu era um garotinho muito tímido. Fui para o Colônia e eles fizeram de tudo para me convencer a entrar para o time deles. É melhor do que um clube pequeno – eles têm técnicos melhores, times melhores, então isso era importante. Acho que fiz essa escolha, embora na verdade eu não quisesse. Depois de nove anos e meio, dei o passo para o Leverkusen. Acho que foi a coisa mais importante que fiz — revelou o jogador à “BBC”.

A primeira transferência do jogador não teve caminhos tão fáceis. Isso porque o Colônia alegou que a saída do atleta quebrou um acordo de cavalheiros segundo o qual os dois clubes não contratariam jogadores formados nas categorias de base um do outro. 

Florian Wirtz durante treinamento do Bayer Leverkusen (Foto: IMAGO / Jan Huebner)
Florian Wirtz durante treinamento do Bayer Leverkusen (Foto: IMAGO / Jan Huebner)

Segundo o “Telegraph”, o Leverkusen simplesmente considerou Wirtz, cujo contrato com o Colônia estava expirando, “uma promessa boa demais para desperdiçar”.

Outro fator, de acordo com o “The Athletic”, é que Wirtz e a sua família também estavam insatisfeitos com o desempenho do clube, que brigada na parte de baixo da tabela da Bundesliga e havia contratado três técnicos em três anos.

De acordo com uma fonte do jornal, “todos os clubes alemães queriam Florian. Todos entraram em contato com a família dele, mas a família queria ficar na região. Esse foi o principal motivo pelo qual ele não foi para o Bayern de Munique”.

O meia chegou ao clube com 16 anos para integrar as categorias de base, mas em poucas semanas conquistou vaga no elenco principal, na época comandado por Peter Bosz.

— Eu o observei e não conseguia acreditar. O que era aquilo? A cada passe difícil, ele se livrava com um toque. Uau. Anotem o que eu digo: ele será o melhor jogador do mundo um dia. Ele ganhará a Bola de Ouro — afirmou Bosz em entrevista à revista polonesa “Asystent Trenera”. 

Florian Wirtz em atuação pelo Bayer Leverkusen (Foto: IMAGO / pepphoto)
Florian Wirtz em atuação pelo Bayer Leverkusen (Foto: IMAGO / pepphoto)

A visão sobre Wirtz foi compartilhada pelo seu treinador no Colônia. Para Martin Heck, uma das principais características do jogador é a capacidade de analisar as jogadas e tentar prever o próximo passo.

— Não era só a habilidade e a técnica, mas o jogo que ele jogava mentalmente. Ele jogava futebol como se fosse xadrez e fazia coisas que normalmente não se vê em jogadores jovens. Ele pensava no que viria na segunda ou terceira fase, depois do passe. Era incrível — explicou Heck.

Recordes e destaque na Bundesliga

A chegada de Florian Wirtz à Bundesliga também quebrou recordes. Com 17 anos e e 15 dias, ele se tornou o jogador mais jovem do Leverkusen a atuar na liga, superando Kai Havertz, companheiro de seleção.

Algumas semanas depois, virou o artilheiro mais jovem da história da Bundesliga, título que agora pertence a Youssoufa Moukoko, do Borussia Dortmund, que marcou o seu primeiro gol com apenas 16 anos e 28 dias, em 2020.

— Eu nem imaginava que isso aconteceria. Eu só pensava: “Quem sabe eu consiga ser jogador da Bundesliga”. Conheci muita gente fantástica, ótimos jogadores, ótimos treinadores. Quebramos alguns recordes… talvez eles já estejam sendo quebrados novamente pela nova geração! O melhor de tudo foi sermos campeões pela primeira vez na história do clube e de forma invicta. Essa foi a minha maior conquista até hoje.

A adaptação do jogador ao Campeonato Alemão foi rápida e importante para determinar o perfil de Wirtz em campo. Com a equipe titular, o meia passou a desenvolver um domínio de bola maior, além de encontrar espaços em meio à marcação. Ambos se tornaram algumas das principais características do jogador.

Florian Wirtz comemora conquista da Bundesliga pelo Bayer Leverkusen na temporada 2023/24 (Foto: IMAGO / Beautiful Sports)
Florian Wirtz comemora conquista da Bundesliga pelo Bayer Leverkusen na temporada 2023/24 (Foto: IMAGO / Beautiful Sports)

— Ele é muito bom em encontrar espaços entre as linhas e seu desempenho final é simplesmente fantástico. Ele tem essa mecânica de se movimentar e chutar quase em movimento — disse Jackson Irvine, capitão do St. Pauli e adversário de Wirtz ao “The Athletic”.

Em março de 2022, Florian rompeu o ligamento cruzado anterior justamente em uma partida contra o Colônia, e trouxe à tona preocupações sobre o seu retorno, especialmente no caso de um jogador que optava pelos movimentos rápidos.

Após dez meses, a volta aos gramados trouxe surpresas ao atleta. O meia recuperou o seu espaço no time que passou a ser comandado pelo técnico Xabi Alonso e se destacou como a força criativa do elenco, em uma campanha invicta do Leverkusen na Bundesliga — que rendeu o título inédito da equipe — e na Copa da Alemanha em 2023/24.

Na mesma temporada, ele foi o jogador da Bundesliga que completou o maior número de dribles na competição, além de ser o que mais recuperou a bola no terço final do campo, resultando no  prêmio de Melhor Jogador Alemão do Ano em 2024.

O ‘não’ a Guardiola, chegada no Liverpool

Com todos os destaques de uma sequência de temporadas positivas, não demorou para que Florian Wirtz fosse disputado por grandes potências do futebol mundial. Entre elas, o Bayern de Munique, Manchester City e Liverpool.

A  combinação de habilidade ofensiva e entrega defensiva fez com que o meia optasse pelos Reds em uma transferência fechada em 116 milhões de libras e que surpreendeu parte do mercado europeu.

A decisão também contou com o poder de convencimento de Arne Slot, técnico do clube inglês. De acordo com Hans Wirtz, o neerlandês apresentou em detalhes sua proposta tática para a equipe e como Wirtz se encaixaria em um time que valoriza a posse de bola, pressão alta e transições rápidas.

— Este é o lugar certo para melhorar e me tornar um jogador melhor. Virgil [van Dijk] disse que ficaria feliz se eu fosse, e talvez eu pudesse ajudar a equipe a ficar ainda melhor do que no ano passado. São coisas que a gente gosta de ouvir e que nos ajudam a tomar uma decisão no final. Continuo feliz por ter tomado essa decisão, mesmo que o começo não tenha sido tão fácil — comentou o jogador à “BBC”.

Florian Wirtz se transferiu para o Liverpool na temporada 2025/26 (Foto: IMAGO / Sportimage)
Florian Wirtz se transferiu para o Liverpool na temporada 2025/26 (Foto: IMAGO / Sportimage)

Com 45 jogos, sete gols e oito assistências, o meia oscilou durante a sua estreia no campeonato inglês e em meio a uma temporada difícil do Liverpool na Premier League, o que colocou pressão especialmente pelo valor em que foi negociado.

— Eu estava muito empolgado quando cheguei e queria ter sucesso instantaneamente. Mas não foi assim. Eu só precisava manter a cabeça erguida e continuar acreditando em mim mesmo, que uma hora as coisas iam dar certo. Eu dizia para mim mesmo: “Você se saiu tão bem na Alemanha, não pode simplesmente esquecer como jogar futebol aqui”. Não era um futebol completamente diferente. Nem sempre era fácil ter confiança em campo, mas acho que lidei muito bem com isso e as pessoas ao meu redor me ajudaram — relembrou.

Aposta de Klopp e esperança da Alemanha na Copa

Mas para além dos clubes, Florian Wirtz disputará a Copa do Mundo de 2026 como uma das principais esperanças da Alemanha no Mundial. Mas se por um lado o jogador buscava encontrar soluções para melhorar o desempenho no Liverpool, na seleção ele já havia confirmado a volta por cima.

No amistoso preparatório para a Copa contra a Suíça, o meia-atacante somou duas assistências e foi responsável por outros dois gols que garantiram a virada dos alemães na Basileia.

O rendimento do alemão resultou em elogios por parte de Jürgen Klopp. O ex-técnico do Liverpool — cotado a assumir a equipe nacional após a Copa — acredita que Wirtz possui todas as qualidades necessárias para se destacar no torneio mundial.

Florian Wirtz celebra gol pela seleção da Alemanha (Foto: IMAGO / Moritz Müller)
Florian Wirtz celebra gol pela seleção da Alemanha (Foto: IMAGO / Moritz Müller)

Vale lembrar que o jogador também se tornou uma peça indispensável no esquema tático comandado por Julian Nagelsmann, sendo titular em todos os jogos da Alemanha no último ano.

— Espero que Flo Wirtz tenha uma Copa do Mundo fantástica, fantástica. Acho que ele tem tudo o que é preciso para ser um jogador de destaque. Não quero colocar pressão sobre o garoto. Acho mesmo que ele já mostrou o quanto pode ser bom em uma temporada difícil — ressaltou Klopp em entrevista à “BBC”.

Aliás, o desejo também é compartilhado pelo próprio jogador. Questionado sobre o que espera do Mundial, Wirtz foi enfático ao afirmar que o torneio “vai ser difícil, mas vamos ver. Todos nós vamos lá para ganhar. Vai ser difícil, mas espero que possamos ir longe”.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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