Copa do Mundo

Com grupo acessível, uma traumatizada Alemanha já definiu seu lema para Copa de 2026

Seleção de Julian Nagelsmann muda abordagem e espera voltar a sorrir em um Mundial após mais de uma década

A Alemanha conheceu os adversários da fase inicial da Copa do Mundo 2026 nesta sexta-feira (5) em sorteio realizado nos Estados Unidos. Equador, Costa do Marfim e Curaçao estão no caminho da tetracampeã mundial no Grupo E.

Os confrontos iniciais geram nervosismo em todas as equipes, mas no caso específico da seleção germânica, a apreensão também é enraizada pelos traumas anteriores. A equipe não passou da fase de grupos nas Copas de 2018 e 2022, e tem como principal objetivo virar essa página.

— A Alemanha sofreu duas eliminações precoces. Diante disso, aconteceu o que eles chamam aqui de distanciamento do torcedor em relação à seleção nacional. A seleção não estava jogando o que se chama ‘futebol autêntico’ — afirmou à Trivela o jornalista Philip Verminnen, da “Deutsche Welle (DW)”.

Verminnen diz que o país dá tom mais modesto ao Mundial, e essa tônica deve permear a jornada rumo ao penta. “A estratégia que tem imperado é a de menos conversa e mais ação. Não haverá as habituais declarações sobre ser uma das favoritas ao título e nem promessa de domínio em campo”, inicia.

— O lema é mais humildade. O foco é encarar um jogo por vez e não repetir os erros do passado, especificamente das duas últimas Copas.
O grande temor da Alemanha é ser eliminada na fase de grupos pela terceira vez consecutiva. Isso eles querem evitar de qualquer maneira.

O sorteio foi, portanto, um passo bem-sucedido para os alemães. Estar no Grupo E é fundamental em termos de logística para evitar viagens ao México ou jogos na costa oeste dos EUA.

Além disso, os adversários são considerados acessíveis. Curaçao vai estrear em Copas e nunca enfrentou os alemães; Costa do Marfim é combativa, mas tem apenas um jogo em retrospecto, empate por 2 a 2 no ano de 2009; e o Equador perdeu os dois duelos anteriores em que enfrentou a Nationalelf (4 a 2 e 3 a 0).

“Equador fez uma Eliminatória ótima, mas não tem o peso de Uruguai ou Colômbia”, afirma o jornalista. Ao levar em consideração que os primeiros, segundos e oito melhores terceiros colocados avançam, a projeção não poderia ser mais otimista. “Sorteio muito bem recebido na Alemanha”, complementa ele.

A seleção também conseguiu um chaveamento que pode ser mais seguro para as ambições se terminar na liderança do grupo (enfrenta o melhor terceiro entre A, B, C, D ou F). Portanto, o sucesso alemão na Copa depende da perfeita união entre a “humildade” e as estratégias de Julian Nagelsmann.

Era Nagelsmann começa sem foco em Copa do Mundo

O treinador assumiu a Alemanha em setembro de 2023 para suceder Hansi Flick, que estava no comando da seleção desde 2021. A missão inicialmente não era o ciclo da Copa do Mundo, e sim ter bom desempenho na Euro 2024 — tanto que o contrato firmado era apenas até o término do torneio continental.

Curiosamente, sua trajetória começou nos Estados Unidos, uma das sedes da edição de 2026 do Mundial junto com México e Canadá.

Venceu por 3 a 1 os EUA e empatou por 2 a 2 com os mexicanos. Após derrotas para Turquia e Áustria por 3 a 2 e 2 a 0, respectivamente, engatou quatro jogos invictos, o impulso que a equipe precisava para chegar mais animada à Euro em casa.

Julian Nagelsmann na seleção alemã (Foto: Icon Sport)

A competição foi um dos pontos altos da seleção alemã no ciclo para a Copa de 2026. Atuações consistentes indicavam que o grupo poderia voltar às altas prateleiras do futebol após acumular decepções e desempenhos abaixo das expectativas.

O “copo meio cheio” não bastou para diminuir a dor da eliminação nas quartas de final. A algoz foi a Espanha, em jogo parelho, decidido na prorrogação. La Roja depois se sagrou campeã.

Não teve título aos alemães, mas foi o suficiente para que Nagelsmann conquistasse a extensão de contrato. O vínculo iria até o fim do Mundial de 2026, porém, foi renovado por mais dois anos. Dessa forma, contempla a Euro 2028.

O técnico também conduziu o grupo à quarta colocação da Nations League em 2025, após perder para Portugal na semifinal e para a França na disputa pelo terceiro lugar.

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Montagem de elenco e as respostas que Nagelsmann conseguiu na seleção alemã

A campanha até então mostrava dificuldade particular da Alemanha em superar o alto escalão da Europa e ter um plantel mais competitivo se comparado aos principais adversários. Pensando em Copa, o sinal de alerta foi ligado.

Quando as Eliminatórias começaram, a lista de adversidades aumentou com a surpreendente derrota para a Eslováquia fora de casa. Não era “terra arrasada” no país, embora tenha se aproximado disso.

“Atuação desastrosa” e “derrota merecida” foram frases mencionadas na imprensa local para definir o jogo. Sem criatividade e defensivamente insegura, a seleção alemã teve no confronto respostas a qualquer possível questionamento que pudesse surgir acerca de seus principais problemas.

Aquele grupo impiedoso como se viu no Brasil em 2014 não dava mais sinais de que poderia reaparecer. Era um time pobre ofensivamente e com muitos erros na zona defensiva. As várias formações diferentes interferiram no processo, segundo o ídolo Philipp Lahm.

— Nagelsmann sempre gostou muito de rodar bastante os elencos nos clubes em que comandou. Essa é uma crítica que o Lahm fez. Disse que ele precisava formar uma base sólida porque a seleção alemã sempre foi muito forte por causa disso — relembra o jornalista.

Kimmich durante Eslováquia x Alemanha nas Eliminatórias
Kimmich durante Eslováquia x Alemanha nas Eliminatórias (Foto: Imago)

Conforme o ciclo se desenrolou, as laterais se mostraram um problema. David Raum parece ser a opção número um pelo lado esquerdo, e na direita, os experimentos indicaram que a melhor alternativa é Joshua Kimmich.

Ridle Baku e Nnamdi Collins foram testados, mas não corresponderam conforme as expectativas. “Nagelsmann apostou em montar uma boa base, com continuidade. Está encarando essa estratégia mais séria, não roda tanto o elenco”, analisa o jornalista sobre o panorama atual.

— Mas como a Alemanha está em uma espécie de entressafra de bons jogadores, na minha opinião, a grande cartada de Nagelsmann é criar na seleção alemã uma flexibilidade tática maior. A meu ver, o jogador mais importante é justamente Kimmich. No Bayern, joga como volante, e na seleção tem jogado, além de volante, na lateral-direita.

O técnico também precisa encontrar a melhor formação em termos de criatividade ofensiva. Sua ideia, como destaca Verminnen, é ter um meio-campo que pressione no ataque e deixar Florian Wirtz e Jamal Musiala com mais liberdade.

Isso geraria mais imprevisibilidade e haveria a possibilidade até de Gnabry entrar na rotação. Nagelsmann tem, portanto, um quebra-cabeça nas mãos.

A maior certeza está no ataque. “Depois de sofrer com Füllkrug, improvisar Muller e se frustrar com Timo Werner, Nick Woltemade tem agradado e deixado um floco de esperança, porque realmente essa é uma posição bastante carente nos últimos anos. Desde Klose não se achou um centroavante à altura”, diz Verminnen.

Julian Nagelsmann, técnico da Alemanha, no sorteio da Copa do Mundo
Julian Nagelsmann, técnico da Alemanha, no sorteio da Copa do Mundo (Foto: Imago)

A Alemanha tem amistosos a realizar na Data Fifa de março e depois é foco total nos preparativos para a Copa.

— Os jogadores estão comprando a ideia. O desafio do Nagelsmann é deixar a defesa sólida, não sofrer tantos gols — especialmente contra seleções de maior calibre –, criar diversidade tática, e o mais importante, criar um espírito competitivo, que o torcedor alemão abrace e empurre a seleção — destaca ele.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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