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Estádios lotados e regalias: Como foi a excursão do Santos de Pelé em Kinshasa, na RD Congo

Rei de Futebol fez parte das excursões do clube alvinegro pelo continente africano durante a década de 1960; duelos no Rio Congo marcaram carreira do camisa 10

A República Democrática do Congo está de volta à Copa do Mundo — e pela primeira vez com este nome. Em 1974, na única edição que havia disputado até aqui, a seleção viajou à Alemanha Ocidental sob a alcunha de “Zaire“, com ficou conhecida entre 1971 e 1997. Chegou até a enfrentar a seleção brasileira naquele Mundial.

À época, o antigo Congo Belga foi renomeado como “República do Zaire” pelo então ditador Mobutu Sese Seko. A ideia era eliminar as referências coloniais do novo país, formado na década de 1960 pela união dos Estados de Congo-Léopoldville. Zaire, em 1974, foi a primeira seleção africana a disputar uma Copa do Mundo. Cinquenta e dois anos depois, retorna ao principal palco do futebol — com méritos.

Antes de se classificar para seu primeiro Mundial, a República Democrática do Congo foi palco das excursões do Santos pelo continente africano. Em 1967 e 1969, visitou o país, e disputou quatro partidas contra os combinados locais. Esteve presente em Kinshasa, capital da RD Congo, e resultou em questões “diplomáticas” do governo.

Santos liderou excursões pela África com Pelé

Na era de Pelé, Coutinho, Edu, Durval, entre outros craques que brilharam com a camisa do Santos nas décadas de 1950 e 1960, era comum que o clube alvinegro lançasse excursões pela América, África, Europa e Ásia. Foi em uma destas viagens que, em 1969, surgiu a lenda de que o Santos teria parado uma guerra civil na Nigéria.

— Um dos meus grandes orgulhos foi ter parado uma guerra na Nigéria, em 1969, em uma das várias excursões que o Santos fez pelo mundo. Nós tínhamos um amistoso marcada na Cidade de Benin, que estava no meio de uma Guerra Civil. Só que o Santos era tão amado que as partes aceitaram um cessar-fogo no dia da partida — escreveu Pelé, em 2020. Rei do Futebol, ele morreu em dezembro de 2022, aos 82 anos.

Elenco do Santos em passagem pela África na década de 1960
Elenco do Santos durante excursão pelo continente africano (Foto: Divulgação/Santos)

Pelé, durante essas turnês pela África, já era bicampeão mundial pela seleção brasileira e o principal nome do elenco santista. Em 1969, quando visitou a República Democrática do Congo, já havia tido uma experiência prévia no país — mas que não agradou a crítica à época. O Santos, aliás, disputou 25 partidas no continente africano ao longo de sua história.

Em junho de 1967, o Peixe foi prestigiado por 75 mil pessoas no Estádio Tata Raphael, contra o combinado local, em Kinshasa. A vitória por 2 a 1, com gols de Lima e Pelé, não foi fácil. Pelé, à época, disse que as “equipes do Congo é quem deram mais trabalho ao Santos”. Para comentaristas, segundo relatos da “Reuters” e da “AFP”, o desempenho do camisa 10 naquele ano foi um fracasso.

Joseph Mobutu, presidente da RD Congo, esteve presente no estádio naquela ocasião. Além de Kinshasa, o Santos também disputou partidas em Brazaville, capital da República do Congo, em momentos de tensões políticas entre os dois países após a Guerra Civil, imersa no cenário da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética.

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Pelé recusou regalias em segunda visita do Santos à RD Congo

Mesmo sem ter agradado a maioria, Pelé continuou sendo endeusado nas visitas do Santos à África. Em sua primeira passagem pelos Congos, uma reunião ministerial em Brazaville foi palco de um dossiê sobre como o governo local conseguiu levar o Santos à República do Congo.

Pelé, em sua segunda ida a Kinshasa, em janeiro de 1969, recebeu diversas regalias. Além de ser holofote da mídia e do público local, o camisa 10 chegou com muita expectativa à RD Congo, já que em 1967 ainda se recuperava da lesão sofrida com a seleção brasileira durante a Copa do Mundo de 1966.

Pelé é o único tricampeão da Copa do Mundo
Pelé é o único tricampeão da Copa do Mundo. Foto: IMAGO / United Archives

O governo do Kinshasa ofereceu a Pelé, e somente a ele, um quarto no melhor hotel da cidade. A delegação santista ficaria abrigada em outros espaços ao longo dos dias em que permaneceriam na capital. O camisa 10, no entanto, recusou o presente e o planejamento do Ministério do Interior, e ficou no mesmo hotel que os demais jogadores e comissão técnica do Santos.

Àquela época, Pelé também se preparava para disputar a Copa do Mundo de 1970. Durante sua passagem por Kinshasa, manifestou seu desejo de estar presente na relação da seleção brasileira, que, no início de 1969, ainda não tinha um treinador definido: Aymoré Moreira deixou o comando no final de 1968, e João Saldanha só assumiu a equipe em abril do ano seguinte.

Santos teve de atravessar o Rio Congo para chegar a Kinshasa

Diferentemente de 1967, o Santos passou primeiro por Brazaville antes de chegar a Kinshasa. Na República do Congo, venceu por duas vezes o combinado com local, por 3 a 0 e 3 a 2. Ambas as partidas tiveram um grande público nos estádios.

Para chegar a Kinshasa, no entanto, Pelé e seus companheiros tiveram dificuldades: em função das relações entre Brazaville e Kinshasa, que haviam sido rompidas no ano anterior, a delegação santista não teve vida fácil para atravessar o Rio Congo. Isto porque o serviço fluvial havia sido suspenso. A RD Congo teve, então, de se encarregar de contratar embarcações particulares para levar o clube de uma margem a outra do Rio.

Dois jogos em três dias, contra dois combinados dos “Leopardos” — como é chamada a seleção da RD Congo — marcaram a visita do Santos ao país. Na primeira, em 21 de janeiro, a equipe enfrentou a “seleção B”, e venceu por 2 a 0, com gols de Toninho e Manoel Maria. Já no segundo confronto, no dia 23, sofreu seu primeiro revés em Kinshasa.

Contra a seleção principal da RD Congo, Pelé marcou duas vezes e o Santos foi ao intervalo vencendo por 2 a 1. Entretanto, na etapa final, Adelair e Kalala marcaram os tentos que deram o triunfo aos Leopardos. Esta foi a primeira vez que o Santos foi derrotado no continente africano.

Dirigentes e autoridades da RD Congo ficaram eufóricos com o triunfo, que também contou com polêmica nos minutos finais. No terceiro gol da seleção local, os jogadores do Santos reclamaram que Kalala estaria em posição irregular e, portanto, o gol deveria ter sido anulado. Além disso, Pelé foi derrubado na área próximo à reta final da partida, e pediu pela marcação do pênalti — que não foi assinalado pela arbitragem.

Ao final da partida, a polícia local teve de fazer um cordão de isolamento no estádio de Kinshasa, com ameaça de invasões ao campo por parte dos mais de 50 mil presentes, eufóricos com o triunfo dos Leopardos. Cinco anos depois, o então Zaire se tornou a primeira seleção africana a disputar uma Copa do Mundo de futebol, que é o esporte mais popular do país.

Visitas do Santos a Kinshasa impacta esporte e política

O Santos voltou à RD Congo na década de 1980 — já conhecida como Zaire —, mas já sem Pelé. As duas passagens anteriores, no entanto, tiveram impacto direto na cultural e política locais. Como destacado pelo “Jornal dos Sports”, em 1969, as crianças eram comumente chamadas de forma carinhosa como “Pelé”. O camisa 10, em sua chegada a Brazaville e Kinshasa foi recebido por outros milhares de “Mini Pelés”.

Além da classificação à Copa do Mundo de 1974, a RD Congo se sagrou campeã da Copa Africana de Nações em 1968, um ano após a primeira visita do Santos ao país. Este sucesso esportivo foi selado justamente com o triunfo sobre o Santos — no que foi batizado como “Jogo do Século” pela imprensa local.

— É difícil estabelecer uma relação causal direta, mas a coincidência temporal é impressionante (com as conquistas da RD Congo). O final da década de 1960 marcou a ascensão do futebol congolês como uma potência continental, e a visita do Santos tornou-se parte desse despertar futebolístico mais amplo — aponta Louis Mukoma Fargues, repórter do “Afrik-Foot”, à Trivela.

A ida do Santos também pode ser vista a partir de uma visão política: Mobutu, que havia recém ascendido ao poder, utilizou o esporte como ferramenta positiva para a ditadura no RD Congo — e futuramente Zaire. Pelé, além de se tornar um mito para o país, foi fotografado ao lado do presidente durante a passagem pela África.

— O esporte estava prestes a se tornar uma ferramenta de soft power muito importante para o regime, e trazer Pelé e o Santos para Kinshasa foi uma forma de projetar modernidade, prestígio e relevância internacional. O fato de o próprio Mobutu ter assistido à partida e declarado feriado nacional ilustra o quão significativo foi o evento — pontua Fargues.

Foto de Murillo César Alves

Murillo César AlvesRedator

Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP), com passagens por Estadão, UOL, 90min e QuintoQuarto.

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