Copa do Mundo 2026

Pochettino encontra solução sem Pulisic e Estados Unidos começam a sonhar mais alto na Copa

Movimentações inteligentes, pressão sufocante e repertório ofensivo marcaram atuação dominante dos anfitriões diante da Austrália

A ausência de Christian Pulisic representava o primeiro grande teste dos Estados Unidos nesta Copa do Mundo. Um dos destaques na goleada por 4 a 1 sobre o Paraguai na estreia, o camisa 10 ficou fora do duelo contra a Austrália, nesta sexta-feira (19), por conta de uma lesão na panturrilha. Nem por isso a equipe sentiu sua falta. Muito pelo contrário.

Em uma atuação madura e dominante, os anfitriões venceram por 2 a 0, em Seattle, e reforçaram a impressão de que possuem algo além de bons talentos individuais: uma ideia de jogo sólida e cada vez mais assimilada. Não à toa, garantiu vaga na fase de mata-mata com uma rodada de antecedência no Grupo D.

O resultado foi construído com autoridade. A seleção comandada por Mauricio Pochettino controlou os espaços, impôs seu ritmo e encontrou diferentes caminhos para agredir o adversário. A Austrália raramente conseguiu escapar da pressão americana e passou a maior parte do confronto reagindo aos movimentos de um time que mostrou organização, intensidade e versatilidade.

Mais do que a segunda vitória consecutiva, o jogo serviu para destacar a capacidade de adaptação construída pelo treinador argentino. Sem um de seus principais jogadores, os Estados Unidos não buscaram um substituto que reproduzisse as características de Pulisic. A solução foi coletiva. E funcionou.

Estados Unidos de Pochettino: estrutura dinâmica e superioridade pelos lados

Mauricio Pochettino, técnico dos Estados Unidos
Mauricio Pochettino, técnico dos Estados Unidos (Foto: Ayano Miura / AFLOSPORT / Imago)

A escalação inicial indicava a manutenção de um 4-2-3-1 semelhante ao utilizado na estreia. Em campo, porém, a equipe apresentou uma série de ajustes que tornaram sua organização ofensiva bastante interessante.

Pelo lado esquerdo, Antonee Robinson teve papel fundamental. Oficialmente lateral, ele atuou durante boa parte do jogo como um ala, ocupando posições muito avançadas e garantindo amplitude constante. Sua presença no corredor empurrava a linha defensiva australiana para trás e criava espaços importantes para os companheiros circularem por dentro.

No lado oposto, a parceria entre Sergiño Dest e Weston McKennie chamou atenção pela fluidez. Os dois se encontravam com frequência através de aproximações curtas, ultrapassagens e trocas de posição. Quando Dest acelerava pelo corredor, McKennie surgia por dentro para oferecer apoio. Em outras situações, o meia se deslocava para a faixa lateral e abria espaço para as infiltrações do companheiro. Foi uma associação que gerou vantagens repetidamente.

O trio de meio-campo também teve papel decisivo na execução da proposta. Tyler Adams assumiu a responsabilidade pela primeira fase de construção, funcionando como o principal organizador da saída de bola. Posicionado à frente dos zagueiros, distribuía o jogo e dava equilíbrio à equipe.

Já McKennie e Malik Tillman receberam funções mais livres. Em vez de permanecerem centralizados, os dois passaram boa parte do tempo ocupando os “meio-espaços” e se deslocando para os lados do campo. À esquerda, aproximavam-se de Robinson. À direita, ajudavam a potencializar a dobradinha formada por Dest. O resultado foi uma equipe capaz de criar constantes situações de superioridade numérica nos corredores.

Durante a fase ofensiva, o desenho se aproximava de um 3-4-2-1. Isso acontecia porque Alex Freeman, lateral-direito de origem, praticamente não avançava. Com Dest recebendo liberdade para atacar e McKennie ocupando frequentemente o mesmo setor, Freeman permanecia mais recuado, auxiliando na circulação da bola e formando uma linha de três defensores durante a construção.

Essa configuração oferecia segurança para sustentar os ataques e, ao mesmo tempo, permitia que vários jogadores ocupassem zonas avançadas. Os Estados Unidos conseguiam atacar com volume sem abrir mão da estabilidade defensiva.

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Ricardo Pepi responde bem e pressão sufoca Austrália

A escolha de Ricardo Pepi para ocupar a vaga deixada por Pulisic também merece destaque. Embora possuam características bastante distintas, o atacante foi peça importante para manter a fluidez ofensiva da equipe.

Sua atuação se destacou principalmente pela movimentação. Em vários momentos, Pepi aparecia próximo de Folarin Balogun, formando uma dupla de ataque que dificultava o trabalho dos zagueiros australianos. Em outros, recuava para participar da construção, atraindo marcadores e abrindo espaços para infiltrações dos companheiros.

Essa mobilidade ajudou a tornar o ataque americano menos previsível. Em vez de concentrar as ações em um único jogador, os Estados Unidos distribuíram protagonismo e encontraram diferentes mecanismos para avançar.

Sem a bola, a equipe foi igualmente convincente e a intensidade apareceu de forma clara. Sempre que perdia a posse, a seleção norte-americana reagia imediatamente para recuperá-la. O perde-pressiona funcionou com eficiência e impediu que a Austrália encontrasse qualquer tipo de conforto na partida.

A recuperação rápida permitia que os anfitriões permanecessem instalados no campo ofensivo durante longos períodos. Além disso, a pressão constante gerava erros e acelerava novas oportunidades de ataque.

Foi um futebol elétrico, agressivo e muito bem executado coletivamente.

EUA começam a sonhar na Copa do Mundo

Torcedores norte-americanos presentes no Lumen Field
Torcedores norte-americanos presentes no Lumen Field (Foto: Peter Dovgan / Uk Sports Pics Ltd / Imago)

Naturalmente, ainda existem desafios maiores pela frente. Mas a atuação em Seattle deixa uma mensagem importante. A ausência de Pulisic neste segundo compromisso tinha potencial para alterar a dinâmica ofensiva da equipe estadunidense e reduzir parte de sua capacidade criativa. O que se viu, porém, foi um time capaz de redistribuir responsabilidades e encontrar novos caminhos para manter seu padrão de jogo.

Depois de duas apresentações bastante convincentes, os Estados Unidos começam a reunir argumentos para olhar além de uma campanha digna como anfitriões. É muito cedo — e precipitado — colocá-los no bolo de favoritos, mas o trabalho desenvolvido por Mauricio Pochettino já produziu algo valioso: uma equipe com identidade, convicção e recursos suficientes para competir em alto nível.

Se continuar evoluindo nesse ritmo, sonhar com voos mais altos deixa de ser apenas empolgação momentânea e passa a fazer parte da realidade norte-americana nesta Copa do Mundo.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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