Copa do Mundo 2026

Escócia x Brasil: Por que último jogo da fase de grupos pode ser prévia para a Seleção nos 16 avos

Equipe comandada por Ancelotti fecha participação na fase de grupos já pensando em possível próximo adversário

A seleção brasileira chega à última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo liderando o Grupo C, com quatro pontos. Depois de um empate complicado contra Marrocos, na estreia, e um primeiro tempo dominante que garantiu a vitória contra o Haiti, agora é a vez da equipe de Carlo Ancelotti enfrentar a Escócia, nesta quarta-feira (24).

O italiano mudou a escalação e a ideia central de jogo para enfrentar o Haiti, o que deu resultados. Com um 4-3-3 com pontas tradicionais e um meio-campo mais dominante, Ancelotti parece ter encontrado uma fórmula positiva para o restante do Mundial.

Agora, diante da Escócia, o Brasil pode fazer um teste ainda mais firme já pensando na fase eliminatória: nos 16 avos de final, pode enfrentar Países Baixos ou Japão, duas equipes que se defendem em 5-4-1 — assim como a Escócia. E encontrar uma boa saída contra a defesa escocesa pode ser a chave para seguir na competição.

Brasil tem o melhor teste para se preparar para os 16 avos

A seleção brasileira voltou ao 4-3-3 que se esperava com a convocação para o Mundial: Vinicius Júnior e Raphinha (e depois Rayan) nas pontas, com Matheus Cunha como um falso nove com liberdade para baixar entre as linhas. Foi assim que o time destravou a defesa haitiana, que também defendia em 5-4-1.

Contra o Haiti, no entanto, há diversos ressalvar a serem feitoa, sobre o desempenho adversário e o próprio brasileiro:

  • O Haiti não pressionava alto a construção brasileira, mas sua última linha de defesa ainda assim era muito alta;
  • Os zagueiros acompanhavam individualmente as movimentações brasileiras e facilmente quebravam a estrutura da linha, deixando ainda mais espaço;
  • Depois do 3 a 0 construído no primeiro tempo, a Seleção quase abdicou do jogo em termos ofensivos e só foi finalizar efetivamente (sem contar o gol impedido de Endrick) depois dos 90 minutos.
O técnico Carlo Ancelotti na partida entre Brasil e Haiti pela Copa do Mundo
O técnico Carlo Ancelotti na partida entre Brasil e Haiti pela Copa do Mundo. Foto: IMAGO / Gribaudi/ImagePhoto

O último tópico gera um misto de preocupação e compreensão: é entendível que o Brasil tenha diminuído o ritmo contra um adversário inferior com um jogo já ganho. Mas ainda assim, mostra como as mudanças de jogadores e principalmente de comportamento podem ser perigosas.

Contra a Escócia, no entanto, o teste promete ser mais próximo de um jogo “à vera” por diferentes motivos:

  1. Os escoceses se defendem melhor, mesmo com a estrutura igual de 5-4-1;
  2. Além de mais compactos, têm mais qualidade para ferir o Brasil em contra-ataques e bolas paradas;
  3. É uma partida quase eliminatória: caso perca e Marrocos vença, dependendo dos saldos, a Seleção pode acabar em terceiro lugar no grupo — ainda pode passar como um dos melhores terceiros, mas é um cenário que busca ser evitado.

Mais do que um duelo que pode ajudar Ancelotti a montar o time taticamente para enfrentar adversários seguintes, é também um teste anímico. Contra a Escócia, o Brasil pode dominar a posse, criar oportunidades nas costas da defesa, mas também sofrer com contra-ataques e velocidade na construção adversária.

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O que Escócia, Países Baixos e Japão têm em comum para a atenção do Brasil

A tendência é que o Brasil enfrente Países Baixos ou Japão na próxima fase, nos 16 avos. É possível, claro, que não seja nenhum desses confrontos, a depender da posição que a Seleção acabe no seu grupo ou a disposição dos próprios adversário no Grupo F — mas é o cenário mais provável.

Enfrentar a Escócia imediatamente antes de um desses dois é positivo principalmente por questões táticas. Com uma linha defensiva composta por uma dobradinha de laterais-esquerdos, a Escócia pode ser o prelúdio do que o Brasil vai enfrentar posteriormente.

Hajime Moriyasu, técnico do Japão (Foto: Imago/AFLOSPORT)
Hajime Moriyasu, técnico do Japão (Foto: Imago/AFLOSPORT)

Os escoceses defendem em 5-4-1, majoritariamente em bloco baixo, com Kieran Tierney e Andy Robertson como defensores pela esquerda. A ideia tende a ser negar espaços entrelinhas, com defensores e meias próximos, e contar com dobradinhas pelos lados para impedir os pontas agudos do Brasil de terem sucesso.

Tanto o Japão quanto os Países Baixos também defendem em 5-4-1, mesmo que de diferentes formas:

  • Os japoneses têm três zagueiros de bom passe e alas que geralmente são mais atacantes do que defensores;
  • Os neerlandeses, por sua vez, jogam em um 4-3-3 clássico do país, mas recuam Frenkie De Jong, o volante, para a primeira linha de defesa.

O time de Ronald Koeman tem em De Jong um jogador energético, mesmo que não um exímio defensor, que é bom em saltar pressão. O volante ajuda a povoar a linha em cruzamentos, mas tem qualidade para deixar a linha e pressionar o meia entrelinhas de forma inesperada.

Já o Japão tem grande disciplina em sua estrutura defensiva, mesmo com alas que são mais meias e pontas do que de fatos laterais. E, assim como a Escócia, é um time muito compacto quando defende baixo.

Comparando a derrota da Escócia para Marrocos e o empate japonês contra os Países Baixos, é evidente como a estrutura dos dois defendendo em blocos médio e baixo é muito parecida:

  • O bloco médio escocês tinha, em média, 42 metros de largura, 24 metros de comprimento e ficava a 39 metros da linha de fundo;
  • Os japoneses tinham um bloco médio de 41 metros de largura, 22 de metros comprimento e 37 metros de altura. Muito semelhante, mas, em média, ainda mais compacto;
  • Em bloco médio, são quase iguais: escoceses tinham, em média um bloco de 37m x 19m, a 21m da linha de fundo; os japoneses, 37m x 17m x 20m.

Nem Escócia, nem Países Baixos e muito menos Japão são times ferozes para pressionar alto. Contra a Suécia, o time de Koeman passou mais tempo em regiões altas na defesa, mas, contra o próprio Japão, passou 58% do tempo defensivo em bloco médio ou baixo.

Em uma partida contra a seleção brasileira, a tendência é que a posse seja mais dividida. Mas, mesmo que haja até mais posse adversária, dificilmente algum desses três times pressionaria o Brasil tão forte — defender mais baixo para se proteger deve ser o modus operandi natural.

Por isso, a partida contra a Escócia é a oportunidade perfeita de Carlo Ancelotti consolidar seu padrão de jogo. Com um 4-3-3 móvel, que tem atacantes rápidos e fortes em um contra um, meias habilidosos e dinâmicos, e um falso nove que pode ajudar a manipular a linha defensiva adversária, o teste máximo para esse modelo é contra os escoceses.

Se o resultado for positivo ou negativo, será no jogo contra a Escócia que o Brasil terá de olhar para se preparar para seu confronto nos 16 avos. Países Baixos e Japão, os prováveis próximos adversários, são mais competentes, mas partilham de características semelhantes — e que podem ser a chave para a Seleção passar de fase.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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