Em carta, Fifa pede que seleções foquem em futebol no Catar e não o “arrastem a toda batalha ideológica que existe”
Como o Catar oprime mulheres, proíbe a homossexualidade em suas leis e tem um péssimo histórico de tratamento a trabalhadores imigrantes, alguns protestos são esperados durante o Mundial
Prevendo manifestações políticas na Copa do Mundo sediada em um país que sistematicamente oprime mulheres e proíbe a homossexualidade em suas leis, além de ter um histórico péssimo de tratamento a trabalhadores imigrantes, a Fifa enviou uma carta às 32 seleções que estarão no Catar no fim do mês pedindo que elas “foquem em futebol” e não arrastem o esporte para “toda batalha ideológica e política que existe”, segundo a emissora Sky Sports.
“Por favor, agora vamos focar em futebol”, escreveram o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e a secretária-geral, Fatma Samoura, de acordo com a Sky Sports. “Sabemos que o futebol não vive em um vácuo e estamos igualmente cientes que há muitos desafios e dificuldades de natureza política ao redor do mundo. Mas por favor, não permitam que o futebol seja arrastado para cada batalha ideológica ou política que existe”.
“Uma das grandes forças do mundo é justamente sua própria diversidade, e, se inclusão significa alguma coisa, significa ter respeito por essa diversidade. Nenhuma pessoa ou cultura ou nação é melhor que a outra. Este princípio é a própria pedra fundamental de respeito mútuo e não-discriminação. E também é um dos valores centrais do futebol. Então, por favor, vamos todos nos lembrar disso e deixar que o futebol assuma o palco central”.
“Agora, na Copa do Mundo, temos uma ocasião e uma oportunidade únicas para receber e abraçar todos, independente de origem, passado, religião, gênero, orientação sexual ou nacionalidade. Vamos aproveitar essa oportunidade e unir o mundo pela linguagem universal do futebol”, acrescentaram.
Os problemas sociais do Catar geraram pressão para que seleções até boicotassem o torneio. Embora nenhuma tenha chegado tão longe, houve protestos contra as condições de trabalho no país, ano passado, de seleções como a alemã e a norueguesa, que acabou não conseguindo vaga. Recentemente, jogadores da Austrália lançaram um vídeo coletivo também criticando esse aspecto. Oito times europeus – Bélgica, Dinamarca, Inglaterra, França, Alemanha, Holanda, Suíça e Gales – pediram permissão para usar braçadeiras de capitão com a mensagem “OneLove” (“UmAmor”) e a bandeira do arco-íris.
A entidade ainda não respondeu aos pedidos, mas pelo menos Inglaterra e Gales disseram que desafiariam uma proibição da Fifa. As leis do Catar punem a homossexualidade, inclusive com pena de morte, embora não haja evidência que essa punição já tenha sido aplicada. Mas ainda gera um clima de medo para torcedores LGBT que pretendem visitar o Catar. A organização local afirmou repetidas vezes que “todos são bem-vindos”, mas pediu que a cultura local, que repudia expressões de afeto em público de qualquer natureza, fosse respeitada.
A fabricante de material esportivo Hummel lançou camisas desbotadas para a Dinamarca em protesto a trabalhadores mortos durante as obras da Copa do Mundo. Segundo o Comitê Supremo, em março de 2020, responsável pelo Mundial, 34 imigrantes trabalhando diretamente com os estádios morreram desde o começo das construções. A maioria dessas mortes foi classificada como “não-relacionada ao trabalho”, um termo que o Comitê utiliza para pessoas que faleceram fora do canteiro de obras por falhas respiratórias ou cardíacas sem explicação.
O Guardian publicou em 2019 que centenas de trabalhadores estavam sendo submetidos a regimes de trabalho de até 10 horas sob temperaturas de 45º e que o Catar não estava investigando mortes súbitas de trabalhadores imigrantes para tentar entender as causas. Desde que o Catar recebeu a Copa do Mundo, 6.500 trabalhadores imigrantes morreram no país, segundo o jornal britânico. Além de estádios, a Copa do Mundo também exigiu muitas obras de infraestrutura.



