Copa do Mundo

Em 2018, Coreia do Sul enfim fez com Alemanha o que sonhou fazer em 1994

Até ser uma das sedes da Copa de 2002, a Coreia do Sul jamais havia passado da fase de grupos numa Copa do Mundo. Ainda assim, vez por outra, já havia partidas em que os Guerreiros Taeguk mostravam algum merecimento de sorte melhor. Bom exemplo de partidas assim foi em 1994: no Cotton Bowl de Dallas, após dar a impressão de que seria presa fácil para a Alemanha, os sul-coreanos diminuíram para 3 a 2. Chegaram a sonhar com o empate – e até o mereceram. Não veio daquela vez. Nem em 2002, naquela semifinal em Seul que terminou com o 1 a 0 da classificação alemã à final. Só agora, em 2018, com uma seleção mais fraca, de desempenho tormentoso nas Eliminatórias, é que a equipe asiática sobrepujou o Nationalelf – e foi responsável direto pelo vexame teutônico.

Ainda assim, se é necessário lembrar de uma geração marcante da Coreia do Sul (não necessariamente boa, mas marcante), 1994 começa a apresentá-la. Pelo menos para os mais fanáticos, ficaram as memórias de alguns jogadores. Tanto de gente já então experimentada, como o goleiro Choi In-young (titular já em 1990) e o atacante Kim Joo-sung (que estivera até em 1986), quanto de gente que ficaria para o grande momento. Aqui entram o zagueiro Hong Myung-bo e o atacante Hwang Sun-hong, que permaneceram para serem os veteranos a guiarem até o quarto lugar, em 2002, a geração um pouco mais capacitada de Song Chong-gug, Lee Young-pyo, Park Ji-sung, Seol Ki-hyeon e Ahn Jung-hwan – sem contar a atuação, digamos, camarada da arbitragem.

Todos os mencionados de início (In-young, Joo-sung, Myung-bo e Sun-hong) estavam em Dallas, para enfrentarem a Alemanha na última rodada do grupo C da Copa de 1994. Faziam parte de uma seleção sul-coreana que não era notável tecnicamente, mas tinha esforço e velocidade impressionantes. A prova viera no primeiro dia da Copa: a Espanha abrira 2 a 0 também em Dallas, mas os asiáticos buscaram e buscaram até alcançarem o 2 a 2, com gols aos 40 e aos 45 minutos do segundo tempo. E se o empate sem gols com a Bolívia, na segunda rodada, foi dos jogos mais esquecíveis daquela Copa, ele dava até uma pequena chance de classificação. Era “só” vencer a Alemanha, no jogo que seria o de maior temperatura ambiente na história das Copas (o Cotton Bowl tinha 45 graus).

Já no primeiro tempo, ficou claro que a tarefa de vencer a Mannschaft era tremendamente difícil. Aos 12 minutos, num bonito voleio, Jürgen Klinsmann fez 1 a 0. Até dava para buscar, mas ficou difícil com as falhas de Choi In-young. Aos 20 minutos, desatento, o goleiro demorou para agir em um chute que bateu na trave, e Karlheinz Riedle foi rápido para pegar a bola e fazer 2 a 0. Aos 37, Klinsmann chutou fraco, mas o camisa 1 coreano permitiu que a bola passasse entre suas mãos para o 3 a 0. Os pacíficos colegas de time (e a torcida compreensiva) nem se enfureceram, mas Choi In-young se abateu definitivamente: não só pediu que o técnico Kim Ho o substituísse no intervalo, mas declarou encerrada a carreira na seleção após o jogo, aos 32 anos, ainda entregando o prêmio em dinheiro recebido pela classificação à Copa.

Com o substituto Lee Woon-jae (mais um que ficaria para 2002) no gol, o segundo tempo começou. E não demorou para a Coreia do Sul aproveitar a queda brusca no ritmo alemão – claro, muito devido à canícula em Dallas – e impor velocidade para tentar algo. Começou aos sete minutos, com Hwang Sun-hong tocando na saída do goleiro Bodo Illgner e marcando o primeiro gol sul-coreano. E continuou aos 18, em grande estilo: um chute de longe, dos pés de Hong Myung-bo, foi parar nas redes de Illgner, que tentou desviar, mas fracassou, vendo o 3 a 2 alemão.

Não bastasse aquela dificuldade inesperada, os alemães viram naquele jogo em Dallas um momento pessimamente marcante da campanha. Aos 30 minutos da etapa final, para ajudar na defesa, o zagueiro Thomas Helmer substituiu Stefan Effenberg. O meio-campo viu torcedores o vaiando, e não pestanejou: fez o famoso gesto obsceno do dedo médio para eles. Bastou para que o técnico Berti Vogts não só o dispensasse da delegação após o jogo, mas também avisasse: Effenberg não voltava mais à seleção alemã. Até voltou, para as duas últimas partidas de Vogts à frente da Alemanha, em setembro de 1998.

Enquanto isso, a Coreia do Sul pressionou em busca do empate. Não conseguiu. Mas foi aplaudida pelo esforço, que causara dificuldades então inéditas para a Alemanha. Exatamente 24 anos depois, coube a um time bem mais fraco dos Guerreiros Taeguk concretizar o sonho que começou naquele 27 de junho de 1994: vencer os europeus, que eram campeões mundiais.

Já estavam eliminados? E daí? Os alemães foram fazer companhia a eles.

Mostrar mais

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo