A vitória na Bombonera reafirma a capacidade da nova geração do Uruguai – ainda mais com Bielsa
Ronald Araújo, Manuel Ugarte e Darwin Núñez foram excepcionais, num jogo de equilíbrio e caráter da Celeste

A seleção do Uruguai atravessa uma transição de gerações importante. Os últimos resquícios do time de Óscar Tabárez, que conquistou a Copa América e voltou a ser semifinalista do Mundial, ficam para trás. Nomes como Diego Godín e Edinson Cavani são parte do passado, enquanto Luis Suárez só voltou porque sua fome de gols parece infinita. Mas não que o Pistoleiro seja imprescindível. O talento da nova fornada de protagonistas da Celeste é evidente, ainda mais potencializada agora por Marcelo Bielsa. E, depois da vitória sobre o Brasil, os uruguaios conquistaram seu primeiro triunfo dentro da Argentina na história das Eliminatórias, com os 2 a 0 na Bombonera. Uma noite que forja o caráter dessas novas lideranças dos charruas. Ronald Araújo, Manuel Ugarte e Darwin Núñez foram excepcionais.
Desta vez, se precisasse, o Uruguai até contava com Luis Suárez à espreita. O veterano voltou às convocações pela primeira vez desde a Copa do Mundo, mas não como titular. Marcelo Bielsa confiava mais na identidade da equipe que está construindo e nos jogadores que começam bem o novo ciclo. A vitória sobre o Brasil no Centenário foi categórica. A escalação praticamente se repetiu contra a Argentina e rendeu um feito maior na Bombonera, não apenas pelo ineditismo, como também pelo embalo recente dos tricampeões do mundo. A Albiceleste não se achou contra uma Celeste mais firme e mais fulminante.
O que deu certo na defesa

A vitória do Uruguai dependeu bastante do trabalho defensivo. Marcelo Bielsa foi muito bem no planejamento da equipe, inclusive com algumas adaptações no setor. Na ausência de Nahitan Nández, Ronald Araújo apareceu na lateral direita, numa função que tantas vezes fez no Barcelona. Mathías Olivera acabava deslocado para a zaga, enquanto Sebastián Cáceres jogou com o pé invertido como zagueiro pela direita. Fato é que a escalação dos charruas não deixou a Argentina jogar. Nem mesmo Lionel Messi.
Manuel Ugarte pode ser considerado o melhor em campo na Bombonera. O volante jogou uma enormidade na cabeça de área, para proteger o seu setor e não deixar a Albiceleste progredir. Fechou os espaços, cortou passes, partiu para cima dos adversários. O jovem conseguiu entrar na mente dos rivais. Quando Rodrigo De Paul quis tirar satisfação, o uruguaio provocou. O valor do meio-campista está expresso desde os tempos de Sporting, o que fez o Paris Saint-Germain pagar tão caro por sua contratação. Já pela seleção, esta foi uma daquelas apresentações que consolidam a importância. Foi inegável a influência de Ugarte.
Mais atrás, Ronald Araújo se impôs na lateral direita. A Argentina praticamente não existiu naquele setor. A firmeza do jovem lembra alguns dos melhores defensores da história. Não parece exagero imaginar o uruguaio num lugar muito privilegiado dentro de algum tempo. Esse jogo na Bombonera também reforçou sua grandeza. Quando precisou sair de seu setor, transitou pelo meio e chegou duro para cima de Messi. E foi muito mais para saber o momento exato de contribuir ao ataque. Quase deu uma assistência espetacular para Darwin Núñez. Depois, se encarregou do papel de atacante e marcou o primeiro gol como elemento surpresa. Foi completo.
Mas não que seus companheiros na defesa tenham ficado tão abaixo, pelo contrário. Olivera foi outro que se destacou bastante, até porque precisou lidar com Messi e Ángel Di María. Dobrava a marcação sobre o camisa 10 durante o primeiro tempo, pela faixa central. Deslocado à lateral na segunda etapa, tentava neutralizar o ponta. Não encontrou problemas para se adaptar às circunstâncias, nem afinou quando precisou ganhar dos oponentes no grito. Foi o soldado perfeito de Bielsa. Cáceres, por sua vez, se provou muito bom nas coberturas. O beque do América do México rifou as bolas na área e não titubeou nos lances. Cresce no ciclo, mesmo como uma figura pouco conhecida.
E o sistema dependeu do esforço de todos os demais. Federico Valverde pode ter feito um jogo menos influente, por aquilo que se imagina do meio-campista como destaque da seleção. Porém, foi uma noite de muito entrega do astro para ser mais um operário e fazer o time vencer. Mesmo na frente, Facundo Pellistri e Maxi Araújo fecharam os lados, enquanto Darwin Núñez iniciava a pressão. E os jogadores que vieram do banco entraram bem. José María Giménez assumiu logo a braçadeira e foi o caudilho de sempre. Rodrigo Bentancur recuperou seu espaço e deixou sua marca no estádio em que conhece tão bem, ao roubar uma bola de Messi para iniciar o segundo tento. Esse foco em sempre buscar a dividida impulsionou a Celeste.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
O que deu certo no ataque

Mesmo que a defesa do Uruguai tenha beirado a perfeição, sem que Sergio Rochet tivesse que trabalhar muito, a equipe de Bielsa não deixou de atacar. Foi bem mais perigosa, com um futebol de velocidade e muita qualidade nos passes em progressão. As jogadas funcionaram muitas vezes, mesmo que não tenha sido um número tão abundante de finalizações. As situações de perigo foram constantes, independentemente dos arremates, e isso também marca a superioridade contra uma Argentina inoperante.
Carrasco do Brasil, Darwin Núñez também fez a diferença contra a Argentina. Sua velocidade é impressionante e gera tantas ocasiões. Pode ter perdido uma boa chance de início, mas contribuiu muito mais e fez por merecer o gol que anotou no final. Diante de Dibu Martínez, foi gelado para meter a bola por entre as pernas do goleiro. Nicolás Otamendi não conseguiu achar o centroavante, que amadurece bastante e melhora na tomada de decisões. É um jogador que pode crescer ainda mais, caso se torne mais eficiente.
Maxi Araújo é outro daqueles nomes do Uruguai que possuem pouco cartaz, mas que correspondem nesse novo ciclo. O ponta do Toluca foi o principal escape do time durante o jogo, sobretudo no primeiro tempo, e isso diz muito. Tornou-se alvo dos passes e atormentou Nahuel Molina na ponta esquerda. Os melhores avanços dos charruas eram seus, com aceleração e depois paciência para esperar os companheiros. Uma pena somente a lesão que o tirou no meio da segunda etapa.
Quando precisou passar, o Uruguai tinha quem fizesse o serviço. Na defesa, Ronald Araújo e Giménez acharam alguns lançamentos espetaculares. Nicolás de la Cruz também precisou fazer uma atuação de mais suor, um pouco pilhado, mas teve a enfiada cirúrgica quando Darwin concluiu o placar. Já no primeiro gol, Matías Viña foi enorme. O lateral só jogou no primeiro tempo, mas se saiu bem. Servia como um importante esteio na construção, quase sempre feita por seu lado. No lance do tento, bateu a carteira de Molina e botou o adversário no bolso com seu giro, antes de acertar o cruzamento limpo para Araújo.
Não são 90 minutos que definem o sucesso de um time. Nem 180, considerando também o jogo contra o Brasil. O Uruguai teve seus tropeços nas Eliminatórias, com derrota para o Equador e empate contra a Colômbia, embora pudesse ter saído com a vitória neste embate. Fato é que existe a formação de um time na Celeste. O material humano é bom. Pode não haver algum jovem infernal como Suárez, mas existe inclusive um equilíbrio maior entre talentos, sobretudo pela forma como o meio-campo está resguardado. Além disso, os uruguaios contam com um treinador acima da média para extrapolar os limites. A noite na Bombonera já grava o nome de Bielsa entre os charruas. E a Copa América pode oferecer algo maior, se o time seguir nesse ritmo.



