Eliminatórias da Copa

Seleção de Diniz, efêmera, não viu urgência de competir na Colômbia — não à toa, perdeu

Diniz não tem amanhã garantido na Seleção e, não a toa, seu time é efêmero, o que pode causar alguns problemas, como visto na derrota diante da Colômbia

O Brasil começou o jogo contra a Colômbia, pelas Eliminatórias da Copa, em Barranquilla, de forma avassaladora, em minutos que a presença de quatro jogadores tão insinuantes na linha de frente fez valer a vantagem no placar, fruto de um Martinelli muito à vontade e de um Vinicius Junior solto, circulando mais que o de costume com a camisa amarela (ou azul). Não duraria por 90 minutos mais acréscimos, óbvio, mas também não precisava ter sido uma presa tão fácil para a natural virada colombiana por 2 a 1, que atropelou a seleção em impressionantes 23 tentativas de finalização, um amasso desproporcional até para dias menos inspirados.

Fernando Diniz teve primeiro a chance de rearranjar a disposição de seu meio e ataque, porque não demorou muito para ficar claro que Emerson Royal, tecnicamente, e Renan Lodi, inclusive na velocidade, não dariam conta de jogar tão expostos, atordoados principalmente por Luis Díaz. Alguns minutos depois, com a lesão de Vinicius Junior, também preferiu não dar nova organização à marcação, e foi de centroavante, com João Pedro. No segundo tempo, quando a Colômbia já era senhora do jogo, ainda trocou Rodrygo, com rara capacidade de controle e movimentação, por Paulinho, ainda mais atacante. A cada pedaço de jogo, o time da casa crescia, o visitante só corria atrás.

Diniz não entendeu a demanda do jogo e isso pesou

O treinador não viu urgência em entender a demanda do jogo, isso após abrir o placar exatamente na aposta do início, que precisou de quatro minutos para virar um belo gol. O time em campo também não deu conta de perceber que precisava se agrupar mais na marcação, isso tudo com um a zero por mais de uma hora, o goleiro com ótimas defesas e a pressão rival aumentando jogada após jogada. Os gols da Colômbia até demoraram, e poucas vezes se viu a seleção sofrer uma virada de forma tão justa e coerente com o desenho da partida.

A grande questão de todo esse cenário é que, diante de suas ideias de construção de time que o tornaram campeão da Copa Libertadores e técnico da seleção brasileira, Fernando Diniz tem um acordo (meio mal explicado, diga-se) de apenas oito jogos pela seleção, os seis deste ano de eliminatórias para o Mundial mais os dois amistosos de março do ano que vem. Então por mais que ele possa falar em evolução, em corrigir erros e em processo natural de mudança do jeito de jogar ­– e tem todo direito de confiar no processo de montagem das suas equipes, até porque é bastante transparente com isso ­–, seu vínculo já passou da metade e está na reta final. Vai dar tempo do quê?

Diniz não tem amanhã garantido na Seleção e isso pesa

Na seleção já não costuma haver esse prazo de maturação, ainda que Tite tenha tido raros seis anos de trabalho onde atravessou turbulências e refez seu time algumas vezes, por exemplo, nas mudanças entre a Copa da Rússia e a Copa América do ano seguinte e também quando perdeu a competição continental em casa a um ano e meio do Mundial do Catar. No caso de Diniz, a princípio, não haverá amanhã. Não há muitas sementes a serem plantadas ou espaço para levar algumas escolhas ao limite se daqui duas convocações a lista já pode ser feita por um técnico italiano, empregado na Espanha, com nenhuma relação posta sobre o que vai fazer com o que anda correndo agora.

Então a seleção de Fernando Diniz, nascida para ser efêmera, vai seguindo sua estranha normalidade como se fosse de longo prazo, num desempenho que está se desencontrando a cada rodada. Foi mal ao ceder o empate para a Venezuela, foi ainda pior ao não conseguir criar praticamente nada na derrota para o Uruguai e terminou bastante dominada pela Colômbia, sem construir nenhum tipo de resistência à medida que o jogo escorregava nitidamente. O time precisa subir no nível de competição contra a Argentina, dessa vez sem postergar essa demanda que está escancarada. Não na inútil dualidade sobre ganhar ou jogar bem, mas aceitando que há respostas a serem dadas não para daqui três anos, e sim para terça-feira.

Sigo defendendo que em situações temporárias não há grandes problemas de um técnico dividir seu trabalho entre clube e seleção. Não acho que isso seja ponto determinante das atuações da equipe, pelo contrário, se Fernando Diniz fosse apenas funcionário da CBF há alguns meses acredito que o time estaria jogando o que está jogando, com esses mesmos jogadores. O elenco nacional treina pouco, referências do ciclo anterior vivem uma certa transição na carreira (inclusive depois de uma Copa frustrante), e a troca de comando, anunciada por Tite muitos meses antes, traria o desafio da ruptura para um novo momento. Tudo isso dando o boné a alguém que lhe promete um jogo muito marcado por uma ideia. Haveria as mesmas intempéries com ou sem Fluminense.

Mas a derrota para a Colômbia trouxe boas notícias

Para falar de boas notícias, André jogou bem em sua primeira titularidade, firme no um contra um e muito capaz de fazer a saída de bola num cenário bem adverso, até porque seus colegas de início de posse como Marquinhos e Bruno Guimarães estão sentindo bastante o desafio de tocar de pé em pé sob pressão. Gabriel Martinelli também vale um voto positivo por ter tentado carregar o time à frente com personalidade, confirmando, se alguém tinha dúvidas, que é nome importante no caminho até 2026. Rodrygo não foi brilhante, mas foi bem e mostrou que a dez não lhe pesa: sua substituição pareceu precoce.

E Luis Díaz. Com todo o cenário do sequestro de seu pai, libertado apenas na semana passada e felizmente presente no estádio em Barranquilla para ver o filho diante do Brasil, o atacante do Liverpool fez um dos jogos de sua vida. Chamou Emerson para dançar, deixou Lodi comendo poeira, ganhou bem de Marquinhos nas saídas da área e fez o amigo Alisson trabalhar. Aí marcou duas vezes de cabeça e guardou o jogo na estante para sempre. Festa de um país apaixonado por futebol, encantado por seu craque saindo de um drama pessoal, e que jamais nos deixará esquecer a mobilização feita em 2016, pelos da Chapecoense. Grandes.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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