Eliminatórias da Copa

Neymar é o maior craque do Brasil, mas segue lidando mal com as críticas

"Não sei mais o que faço com essa camisa para a galera respeitar o Neymar”, disse o atacante

O Brasil venceu o Peru por 2 a 0 nesta noite de quinta, no último dos três jogos programados nesta janela internacional. Neymar fez um dos gols e chegou a 69 gols pela seleção brasileira, em 113 jogos. É o segundo maior artilheiro da Seleção, atrás apenas de Pelé, que tem 77 (em jogos considerados oficiais, 92 no total, como conta a CBF) – e tudo indica que ele irá ultrapassar o Rei. É um grande craque, que, porém, parece mostrar que não consegue lidar bem com as críticas, justas ou injustas.

LEIA TAMBÉM: Oito clubes da Premier League podem sofrer desfalques após seleções protestarem à Fifa pelos atletas que não foram liberados

Na saída de campo, depois de um jogo morno do Brasil contra o Peru, mas bom dele, o atacante reclamou. Ao ser perguntado pelo repórter Eric Faria, da Globo, sobre ter se tornado o maior artilheiro do Brasil nas Eliminatórias, ele desabafou. “Coletivo é o mais importante, sempre prezei isso. Ao mesmo tempo, fico muito contente de ser de ser recordista de artilheiro das Eliminatórias, ser o maior assistente com a camisa da seleção brasileira e logo menos, se tudo caminhar bem, passar o Pelé. Estou muito feliz. Não sei mais o que faço com essa camisa para a galera respeitar o Neymar”, disse o atacante.

O repórter perguntou sobre o que ele se referia. Neymar não quis dizer. “Isso é normal, não é comigo. Isso vem há muito tempo, de vocês repórteres, comentaristas e outros também. Às vezes nem gosto mais de falar em entrevistas, mas em momentos importantes venho dar meu parecer…”. Eric Faria insistiu sobre que tipo de crítica. “Todos os tipos. Deixar a galera pensar um pouco aí”.

O desabafo vem depois de uma semana que ele foi muito criticado pela forma física. É preciso dizer algo aqui: em parte, Neymar tem razão nesse assunto. Houve um certo exagero ao ficar apontando em fotos que ele estaria “gordo”. E é bom também lembrar: gordo e fora de forma são coisas distintas. Neymar estava, sim, fora de forma, como é o esperado para alguém que está em início de temporada. Ele jogou pouco mais de 60 minutos pelo PSG na temporada. É normal que esteja fora de forma. E é normal que apontem isso como um problema para a seleção.

Uma das críticas foi que Tite não sacou Neymar no jogo contra o Chile, mesmo com a atuação ruim do camisa 10, que além de tecnicamente ter errado muito, fisicamente parecia sentir. Neymar deveria ter sido sacado. Contra o Peru, Neymar foi absolutamente decisivo nos 2 a 0: criou o primeiro gol e marcou o segundo. No segundo tempo, porém, aconteceu algo similar ao jogo do Chile: cansado, ele produziu pouco, estava com a língua de fora e errou mais do que a média. Tendo Hulk no banco, em plena forma porque a temporada brasileira está em andamento, não fazia sentido mantê-lo em campo.

Não é nenhuma crítica pesada. Neymar teve um jogo ruim contra o Chile e um bom primeiro tempo contra o Peru – contra a Argentina, claro, não teve jogo. É até esperado que Neymar não esteja no seu melhor. Mesmo assim, conseguiu ser importante nos dois jogos, em atuações que nem passaram perto das suas melhores. Neymar é um craque e é, de fato, o único jogador indiscutível no 11 inicial do Brasil. Isso, porém, não é um passe livre de críticas. Quando ele vai mal, seja tecnicamente, seja tecnicamente, seja por comportamento – o cartão amarelo no final, se não foi forçado, foi bastante estúpido.

O camisa 10 brasileiro tem um estilo de jogo que por vezes também é criticado por segurar demais a bola – e isso trava o jogo porque ele sofre a falta, em geral – ou por se jogar demais algumas vezes, algo que, aliás, melhorou de 2018 para cá. Talvez ter virado piada mundial tenha ajudado a diminuir isso.

Neymar joga em uma liga muito física. A Ligue 1 é a liga mais forte, fisicamente, da Europa. E isso é até pouco para descrever. As jogadas são por vezes duras demais, com a leniência da arbitragem. Neymar sentiu isso na pele e nos ossos. Sofreu faltas duras, mais do que sofria em La Liga, quando defendia o Barcelona.

O Brasil de Tite segue vencendo, vencendo e vencendo. Foi a oitava vitória seguida nas Eliminatórias, o que significa 100% de aproveitamento. É impressionante e é o recorde histórico da seleção brasileira nas Eliminatórias. Mesmo assim, é possível sim criticar o time. Não só pela plasticidade do jogo em si, que, sim, de fato, não é das melhores, mas porque os mecanismos às vezes não funcionam.

O jogo contra o Chile, aliás, foi um exemplo de como o time sofreu diante de um adversário que nem fez um jogo espetacular, mas que venceu a disputa pela posse de bola. O time entrou em dificuldades, precisou do seu goleiro, Weverton, e venceu com um gol chorado. Claro, é um jogo e isso acontece. Mas o Brasil por vezes atua sem conseguir ter fluidez ofensiva, nem criar grandes chances.

Isso para dizer que os números espetaculares não poupam Tite de críticas. É preciso ser justo, claro, e isso é sempre muito difícil, mas críticas fazem parte. Os resultados são uma parte importante, mas não é o total. Por isso, os recordes de Neymar, seu número absurdo de gols e tudo que ele já fez pela Seleção não o tornam imune a críticas. Ronaldo Fenômeno, com título de Copa do Mundo, com números e atuações espetaculares na história, foi duramente criticado, veja só, pela forma física. Ronaldinho, por exemplo, não estava acima do peso, mas estava fora de forma. Isso incomodou Neymar, que publicou uma foto no seu Instagram com a camisa levantada e a legenda: “Gordinho bom de bola #RespeitaOPai”.

Lidar com críticas é parte do jogo, especialmente um jogo imensamente popular como é o futebol. É claro que há críticas injustas e excessivamente pesadas, como foram algumas dizendo que Neymar estava com uma “pança”, como vimos até apresentadores ou comentaristas falando. É impreciso, para dizer o mínimo, e muito desrespeitoso. As críticas ao jogo e à própria forma física, porém, são bastante pertinentes. E é preciso lidar com isso.

Um dos pontos mais criticáveis de Neymar é que ele parece se sentir imune às críticas. Parece sempre estar lutando contra um mar de críticas, como se ele só ouvisse coisas negativas sobre ele e ninguém, ou poucos, o elogiassem. Apenas um brasileirinho contra o mundo. É um mecanismo muito comum no Brasil, aliás: quantas vezes vemos times gigantes, cheios de história e de dinheiro conquistarem títulos e bradarem algo na linha de “contra tudo e contra todos”? É infelizmente um recurso muito utilizado e que os torcedores amam.

Torcedores adoram achar que estão todos contra ele, e o time dele, e que, portanto, a vitória é “contra tudo isso que está aí’. Não é por acaso que o mundo político também gosta de usar e abusar desse tipo de discurso, contra o “establishment”, como se os grandes clubes não fizessem parte dele, como se os grandes jogadores não fossem parte disso.

Criticar a imprensa é um recurso comum, genérico e eficiente: ativa a sua base de fãs sem nem precisar de algo muito específico. É aquele desabafo de “Vocês vão ter que me engolir”. No Brasil atual, criticar a imprensa e se fiar nos seus amigos mais próximos (ou puxa-sacos) e nas redes sociais repletas de fãs é deliciosamente confortável. Enfrentar as críticas é parte de um esporte que tem repercussão mundial, especialmente em quem tem holofotes sobre si – e fatura muito dinheiro com isso.

Lidar com críticas é parte de qualquer trabalho público. Inclusive dos jornalistas, da mídia em geral, que por vezes também lida mal com ela. Neymar, com 29 anos, ainda não parece saber lidar com críticas e nem as direcionar a quem é desrespeitoso. É direito dele, aliás. Ele pode responder assim, pode nem responder.

Neymar sempre terá que lidar com as críticas enquanto for jogador. Aliás, também estará sujeita a elas quando pendurar as chuteiras e seguir como celebridade do esporte. Ronaldo está aí para provar. É muito criticado quando diz que “Copa do Mundo não se faz com hospitais”, e tem que ser mesmo. Quanto antes aprender a lidar, melhor. Ou pode não aprender e continuar com episódios assim, o que ativa sua base mais fanática de fãs, mas perde parte da simpatia do público geral.d

Mostrar mais

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo