Eliminatórias da Copa

Argentinos detidos por confusão em Brasil x Argentina acabam soltos; excesso da Polícia será investigado

Torcedores aceitaram transação penal e pagarão multa que será revertida para instituição de caridade após confusão em Brasil x Argentina

A confusão entre argentinos e a Polícia Militar no Maracanã antes de a bola rolar entre Brasil x Argentina terminou no Juizado Especial Criminal (Jecrim). No órgão público, sete torcedores foram autuados e detidos temporariamente, mas soltos após uma transação penal. Eles pagaram R$ 200 cada, em multa que será revertida à Pró Criança Cardíaca, uma instituição de caridade.

O instituto da transação penal é um benefício oferecido pelo Ministério Público para delitos de pequenas causas. É uma espécie de acordo firmado entre o réu e a Justiça, no qual o acusado se exime de discutir a culpa e cumpre pena antecipada de multa.

Outro torcedor havia sido conduzido à delegacia da Polícia Civil no estádio, mas conseguiu comprovar que não fazia parte da briga. Ele acabou liberado pelo delegado Rodrigo Coelho, responsável pelo plantão da noite.

Argentinos entraram em confronto com a Polícia Militar do Rio de Janeiro no Maracanã - Foto: Icon sport
Argentinos entraram em confronto com a Polícia Militar do Rio de Janeiro no Maracanã – Foto: Icon sport

Os sete detidos se envolveram em confrontos com o Batalhão Especializado de Policiamento nos Estádios (Bepe) da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ). Os policiais tinham vídeos comprovando a participação dos argentinos na confusão, mas todos utilizaram da transação penal.

Além destes, a Polícia Civil também deteve uma mulher por desacato e outra por injúria racial.

Sete argentinos foram detidos e soltos após pagamento de R$ 200 em transação penal - Foto: Caio Blois/Trivela

Justiça irá investigar excesso da Polícia Militar

A Trivela conversou com o promotor Leonardo Cuña, e responsável pela coordenação dos casos junto às forças policiais. O representante da Justiça afirmou que os excessos da Polícia Militar serão investigados.

— A juíza presente no local determinou extração de peças, ou seja, entendeu que o caso envolveu duas torcidas, mas apenas uma tinha representantes detidos. A Polícia Militar e os agentes de segurança privada só trouxeram argentinos. Muitos chegaram muito machucados, com lesões graves na cabeça, fraturas e outras escoriações. Temos que avaliar possíveis excessos da Polícia Militar e verificar mais imagens da confusão — afirmou.

Polícia Militar será investigada por excessos em ação para conter briga em Brasil x Argentina - Foto: Icon sport
Polícia Militar será investigada por excessos em ação para conter briga em Brasil x Argentina – Foto: Icon sport

Caso de injúria racial será investigado pela Polícia Civil

O último caso a ser resolvido no Jecrim era de uma torcedora argentina acusada de injúria racial. A vítima é uma funcionária do Maracanã. Um torcedor prestou depoimento como testemunha e a prisão foi feita em flagrante.

A 18ª delegacia de Polícia Civil do Rio de Janeiro, da Praça da Bandeira, irá investigar o caso. Na madrugada de terça para quarta (22), haverá uma audiência de custódia no próprio Juizado para avaliar o caso.

Polícia Militar abriu clarão com cassetetes para conter confusão entre argentinos e brasileiros no Maracanã - Foto: Icon sport
Polícia Militar abriu clarão com cassetetes para conter confusão entre argentinos e brasileiros no Maracanã – Foto: Icon sport

O delegado Rodrigo Coelho afirmou à imprensa que a torcedora se mostrou alterada e depois acabou dormindo no Jecrim. Ela ainda não havia sido direcionada à audiência até o fechamento desta matéria.

CBF ignorou que jogo era de alto risco para autoridades

Após a partida, a CBF afirmou entender que a responsabilidade da segurança na partida era do Bepe e do Consórcio Maracanã. Na prática, entretanto, não é bem assim. A entidade máxima do futebol brasileiro era responsável pela organização e operação do jogo.

Partida entre Brasil x Argentina era considerada de alto risco, mas CBF ignorou recomendações das autoridades - Foto: Reprodução
Partida entre Brasil x Argentina era considerada de alto risco, mas CBF ignorou recomendações das autoridades – Foto: Reprodução

De acordo com documentos divulgados pela ESPN e confirmados pela Trivela, entretanto, a PM do Rio alertou na última quinta-feira (16), que o jogo era de bandeira vermelha, ou seja, de alto risco de segurança.

Estiveram presentes representantes de Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj), Bepe, Ministério Público, Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Secretaria de Segurança Pública (SSP), Secretaria de Ordem Pública (SEOP), Defensoria Pública, Metrô Rio, Supervia, Subprefeitura da Grande Tijuca, Corpo de Bombeiros, Comlurb, Cet-Rio, Juizado do Torcedor, Consórcio Maracanã e da Brax, empresa de marketing esportivo que detém acordo das placas de publicidade.

A CBF é responsável por toda a organização, incluindo a venda dos espaços da torcida visitante. A entidade máxima do futebol brasileiro foge de suas atribuições ao alegar que “terceirizou” o serviço ao Consórcio Maracanã.

Ferj discordava, e PM culpa CBF por venda de ingressos

No dia seguinte (17), Rubens Lopes, presidente da Ferj, enviou um ofício ao Desembargador Agostinho Teixeira e ao juiz Marcelo Rubioli, titular do Juizado Especial do Torcedor e dos Grandes Eventos, em que afirma não ter sido procurado pela CBF para auxiliar na organização e operação do jogo. Assim, pede para que quaisquer questionamentos da partida sejam feitos diretamente à CBF.

Ferj enviou ofício em que afirma não participar da operação de Brasil x Argentina no Maracanã - Foto: Reprodução
Ferj enviou ofício em que afirma não participar da operação de Brasil x Argentina no Maracanã – Foto: Reprodução

A Polícia Militar, por outro lado, não participou da venda de ingressos sem distinção de torcidas, sendo assim impossibilitada de setorizar o estádio para receber visitantes. Essa gestão é feita pelos organizadores do jogo, neste caso, a CBF, como em qualquer partida de Eliminatórias da Fifa.

O relatório do jogo, feito pelo delegado Óscar Astudillo, da Colômbia, irá para o Comitê Disciplinar da Fifa. Foi inclusive a entidade máxima do futebol mundial quem definiu o colombiano como delegado. A Conmebol apenas auxilia seus confederados nesse caso, sem gestão da partida.

Foto de Caio Blois

Caio Blois

Caio Blois nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e se formou em Jornalismo na UFRJ em 2017. É pós-graduado em Comunicação e cursa mestrado em Gestão do Desporto na Universidade de Lisboa. Antes de escrever para Trivela, passou por O Globo, UOL, O Estado de S. Paulo, GE, ESPN Brasil e TNT Sports.
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