Copa do Mundo

Promessa de gols de Marrocos na Copa do Mundo largou a escola para ser carpinteiro

De família humilde, El Kaabi não fez categoria de base e só assinou primeiro contrato profissional aos 21 anos

Após o quarto lugar na Copa do Mundo de 2022, melhor campanha de sua história, o Marrocos chega para a edição de 2026 de forma turbulenta, com o vice (em campo) da Copa Africana de Nações no início do ano e troca no comando técnico em março. A seleção marroquina, porém, ainda tem muitas unanimidades, como Achraf Hakimi, Brahim Díaz e o artilheiro Ayoub El Kaabi.

O centroavante, diferente de seus colegas de time, tem uma trajetória absolutamente improvável. Ele não fez categoria de base por nenhum clube de elite, como Hakimi no Real Madrid, Díaz no Manchester City ou da academia marroquina Mohamed VI, que virou referência de formação, revelando Youssef En-Nesyri, Nayef Aguerd e outros talentos locais.

Nascido em 1993 em Casablanca, o pequeno El Kaabi impressionava desde o início com a bola nos pés. “Jogávamos futebol com amigos. Alguns me disseram que eu era um jogador versátil e talentoso, que eu deveria virar profissional”, contou ao site da Uefa, em 2024.

O primeiro contrato profissional de El Kaabi só veio aos 21 anos e, na adolescência, dividia o tempo entre brincar de jogar futebol e ajudar a família com as despesas de casa. Não foi um caminho simples até chegar como um dos principais jogadores dos Leões do Atlas no Mundial que inicia em junho.

El Kaabi foi carpinteiro até oportunidade no futebol surgir

El Kaabi comemora gol da seleção marroquina em 2018
El Kaabi comemora gol da seleção marroquina em 2018 (Foto: IMAGO / Xinhua)

O jovem, no entanto, não poderia focar só no futebol. Ao mesmo tempo que jogava e estudava, precisava, nos verões, sair para trabalhar com o pai como carpinteiro para ajudar a família nas despesas. A situação financeira da família não era simples, passando a viver em uma favela nos anos 90. Ele também vendeu sal e limpou carpetes — e até sepulturas.

Aos 15 anos, precisou largar a escola para focar em trazer dinheiro para a casa. O jogador não romantiza a pobreza, mas destaca como a experiência o amadureceu e é grato pelos trabalhos que fez. “Eu via minha mãe e meu pai lutando para nos alimentar. Isso nos motivava a trabalhar duro e ajudá-los.”

— Na época, eu ajudava meu pai, que trabalhava na construção civil. Graças a Deus, o trabalho que fiz naquela época me transformou em homem. Também aprendi a valorizar o tempo, a ter paciência. Foi algo que me colocou no caminho da vida que tenho hoje. Carpintaria era um trabalho que nossa família. Nossos irmãos, irmãs e amigos faziam. Foi uma honra exercer essa função — disse.

— Isso me ensinou a viver. Me ensinou que a vida não é fácil.

Ele ia dividindo a vida com os trabalhos e o futebol em equipes amadoras e semiamadoras até que, aos 21 anos, se destacou ao ponto de receber a chance no Racing Casablanca, da segunda divisão.

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Atacante mudou de vida com torneio por Marrocos

El Kaabi deu o salto à elite do futebol marroquino em 2017, quando passou a defender o modesto Berkane, onde recebeu a oportunidade que mudou sua vida: a convocação para o Campeonato Africano das Nações (CHAN) de 2018, competição de seleções só com jogadores das ligas locais. Foram nove gols em seis jogos na campanha que terminou com o título do Marrocos.

Especulado no futebol europeu, vinculado a Espanyol, Málaga, Saint-Étienne e até ao Atlético de Madrid, o atacante de sucesso tardio se mudou para o Hebei, da China, como uma oportunidade de fazer seu “pé de meia”, afinal, veio de uma origem muito humilde.

A escolha pelo futebol chinês ocorreu logo depois de disputar a Copa do Mundo de 2018 pela seleção marroquina, fazendo duas partidas na campanha que terminou na fase de grupos.

El Kaabi em ação pelo Herbei, da China, em 2019
El Kaabi em ação pelo Herbei, da China, em 2019 (Foto: IMAGO / VCG)

A passagem na Ásia durou pouco, só uma temporada, na sequência jogando no maior clube marroquino, o Wydad Casablanca, antes de defender o Hatayspor, da Turquia, e o Al-Sadd, do Catar.

Em 2023, El Kaabi encontrou sua “casa” no futebol de clubes: o Olympiacos. Na equipe grega, virou um xodó da torcida, mesmo chegando com poucas expectativas, pois era um atacante, aos 30 anos, sem grande experiência na Europa.

O clube de Pireu, no primeiro ano do novo centroavante, conquistou o primeiro título europeu da história de um time da Grécia: a Conference League. Ayoub El Kaabi marcou simplesmente 11 gols na campanha, incluindo o que deu a conquista na decisão contra a Fiorentina.

El Kaabi pode não ser titular de Marrocos na Copa do Mundo

Além do sucesso no Olympiacos, onde soma 81 gols em 131 jogos, o atacante chega para a Copa do Mundo de 2026 como um pilar da seleção marroquina. Apesar de alguns gols perdidos, marcou três vezes na campanha do vice na Copa Africana no começo deste ano — dois dos gols foram de bicicleta.

Mesmo assim, com a troca do técnico Walid Regragui por Mohamed Ouahbi, ele pode não ser titular, pois, na Data Fifa de março, só atuou por 24 minutos, saindo do banco de reservas, e viu Ismael Saibari e Soufiane Rahimi se alternarem na função de camisa 9 nos amistosos contra Paraguai e Equador.

Seria mais uma adversidade que El Kaabi precisaria aceitar, como sua ausência até da convocação na histórica campanha de 2022. O jogador foi importante por quase todo o ciclo, marcando cinco gols só nas Eliminatórias Africanas. Porém, por coincidir com um momento de baixa no Hatayspor, acabou fora da lista pelas presenças de En-Nesyri, Abderazak Hamdallah e Walid Cheddira.

Talhado pelos desafios da vida, El Kaabi está disposto a fazer o que sempre fez: ajudar da forma que for preciso.

No Mundial de 2026, o camisa 9 sonha em fazer parte de outro time que fará história nos Leões do Atlas. O Marrocos divide o grupo C ao lado de Brasil, Escócia e Haiti, enfrentando-os em 13, 19 e 24 de junho, respectivamente.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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