Desilusão na Europa e reinado na Arábia Saudita: A história de Salem Al-Dawsari
Capitão da seleção saudita não teve espaço no Velho Continente, mas ainda é um dos grandes nomes do futebol local mesmo com todo o investimento
Em vias de jogar sua terceira Copa do Mundo liderando a Arábia Saudita, Salem Al-Dawsari se notabilizou como um dos principais jogadores do continente asiático há alguns anos.
Além da idolatria no Al-Hilal, empilhando títulos, gols e a braçadeira de capitão, Al-Dawsari é a referência da seleção. Porém, a trajetória do meia-atacante de 34 anos traz uma curiosidade: o craque foi um dos escolhidos para participar de um acordo entre a Federação Saudita de Futebol e LaLiga.
Ida para a Espanha foi uma estratégica política
Em janeiro de 2018, a Federação Saudita de Futebol firmou um acordo com LaLiga para enviar alguns jogadores emprestados a clubes espanhóis por um semestre. Mesmo que não revelada na época, a finalidade do movimento foi uma tentativa clara da Arábia Saudita em promover seus principais jogadores no mercado europeu a seis meses da Copa do Mundo da Rússia.
Assim, Salem Al-Dawsari, já considerado o melhor jogador saudita da época, foi cedido ao Villarreal. No entanto, os seis meses no Submarino Amarelo se traduziram em apenas uma partida disputada, justamente contra o Real Madrid, na última rodada de LaLiga 2017/18. A partida, que terminou empatada em 2 a 2, marcou a despedida de Cristiano Ronaldo da liga espanhola e o único jogo de Al-Dawsari na Espanha, com 38 minutos em campo.
Com o fim de seu empréstimo, Salem acabou retornando ao Al-Hilal. Porém, contrariando quem achava que o nível do saudita estava aquém da elite europeia, o zagueiro Álvaro Gonzáles, com quem Al-Dawsari dividiu vestiário no Villarreal e, posteriormente, enfrentou nos clássicos contra o Al-Nassr, não poupou elogios ao meia-atacante e revelou bastidores de sua passagem na Espanha.
— Eu o via treinar no Villarreal e, no começo, achávamos que ele estava ali por causa do acordo com os sauditas e essas coisas. Mas, depois você via ele treinando e ele voava. Era muito bom tecnicamente. Daquele tipo de jogador que você percebe que tem uma técnica diferente — revelou o ex-zagueiro.
Para além das impressões nos treinamentos, o espanhol relembrou as referências que apresentaram ao elenco sobre Al-Dawsari e suas histórias na Arábia Saudita, comparando ele a um craque brasileiro.
— Só entendi o que Salem Al-Dawsari representava para eles anos depois, já na Arábia Saudita. Ele era como o Neymar para os sauditas — afirmou Álvaro.
Diante da comparação, mesmo que pouco percebida, Neymar e Al-Dawsari se enfrentaram pela primeira vez em 2018, em um amistoso entre Brasil e Arábia Saudita, que terminou com vitória brasileira por 2 a 0. Na oportunidade, o camisa 10 saudita foi elogiado pelo técnico Tite e pelo próprio Neymar.
— É um jogador especial e tem grande confiança em suas habilidades e aptidões. Chamou minha atenção no jogo — revelou o treinador da seleção brasileira.
— Gostei do número 10 da Seleção da Arábia Saudita — disse o hoje atacante do Santos.
O tempo se encarregou de confirmar as impressões de duas grandes figuras do futebol, colocando, inclusive, Neymar no mesmo time de Salem Al-Dawsari cinco anos depois.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F04%2Fal-dawsari-saudi-capitao.jpeg-scaled.jpg)
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Carreira sólida no Al-Hilal e na seleção
Formado pelo Al-Hilal, Salem Al-Dawsari ascendeu ao time principal na temporada 2011/12 e desde o início foi tratado como um diamante bruto que a Arábia Saudita não via há algum tempo. Porém, seus primeiros dois anos ainda foram tímidos, sem conseguir ultrapassar os 30 jogos entre titularidades e saídas do banco de reservas.
A partir de 2016, Al-Dawsari passou a ser tratado como uma realidade no Hilal e, como um meia, começou a apresentar números mais sólidos, tanto que foi um dos escolhidos para fazer o movimento de atuar na Espanha por um semestre. Aparentemente, a experiência de lidar e atuar ao lado de jogadores mais desenvolvidos tecnicamente colocou Salem Al-Dawsari em outro patamar quando retornou para a Arábia Saudita.
Além disso, em sua primeira Copa, na Rússia, o meia-atacante foi um dos responsáveis pela única vitória dos sauditas naquela edição. No 2 a 1 sobre o Egito, pela terceira rodada da fase de grupos, Al-Dawsari marcou o gol da virada da Arábia Saudita já nos acréscimos da segunda etapa e, apesar da eliminação, o triunfo serviu como marco de evolução imaginando o próximo ciclo.
Realizando um apanhado do triênio seguinte, o capitão do Al-Hilal demonstrou consistência como um articulador, totalizando 25 gols e 20 assistências nos 97 jogos que disputou no período. Porém, o grande salto de Al-Dawsari aconteceu justamente na temporada que antecedeu a Copa do Mundo do Catar. Em 2021/22, o meia-atacante estufou as redes 17 vezes, o que era um recorde em sua carreira, e serviu seus companheiros nove vezes, o que demonstrava ser um prenúncio do que viria no Mundial.
Em 2022, na estreia da Copa, contra a Argentina de Lionel Messi, Salem Al-Dawsari consumou a primeira grande zebra daquele Mundial ao marcar o golaço que deu a vitória para a Arábia Saudita contra os futuros campeões Ainda na última edição, o craque saudita também estufou as redes contra o México e se tornou o maior artilheiro da seleção em Copas do Mundo.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F04%2Fal-dawsari-arabia-saudita-argentina.jpeg-scaled.jpg)
Manutenção da coroa apesar das grandes contratações
Após a Copa do Mundo e as chegadas dos inúmeros grandes jogadores à Arábia Saudita, em um movimento liderado por Cristiano Ronaldo, Salem Al-Dawsari não sucumbiu à pressão de se provar mais uma vez e seguiu como um titular do Al-Hilal, ainda sob o comando de Jorge Jesus, mesmo com as chegadas de Neymar, Malcom e Aleksandar Mitrovic.
Mantendo inclusive a braçadeira de capitão, contrariando um movimento dos demais clubes, como o Al-Nassr com Cristiano Ronaldo e o Al-Ittihad com Karim Benzema, Al-Dawsari seguiu em bom nível e, de uma vez por todas, provou seu valor em um patamar mais alto de enfrentamento recorrente. Nos três anos de altos investimentos na Arábia Saudita, Al-Dawsari praticamente dobrou o número de gols com a camisa do Al-Hilal. Até então, são 59 gols em 122 jogos no período.
A nível de conquistas, Al-Dawsari é um dos maiores vencedores da história do clube, com 21 títulos, sendo seis ligas nacionais e duas Champions Leagues Asiáticas. Não é à toa que o camisa 29 do Al-Hilal já é considerado o principal saudita da história do futebol e se inclui no grupo de maiores artilheiros da Saudi Pro League, aparecendo na sétima posição, com 88 gols, logo atrás de Cristiano Ronaldo, com 100.
Diante desse histórico, é mais do que justo atribuir a Salem Al-Dawsari o status de “o cara” da seleção da Arábia Saudita, que está no grupo H da Copa do Mundo, junto com Cabo Verde, Espanha e Uruguai.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F04%2Fal-dawsari-al-hilal.jpg-scaled.jpg)