Contos Russos #31: A Copa, hoje, só serve se for vista com régua alta
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, esqueceu a autocrítica na Suíça, ou fez algum curso de stand-up comedy, e não dá para levar muito a sério a avaliação de alguém que resume o torneio como a maior Copa do Mundo de toda a história porque tantos vieram, outros vários assistiram e deu tudo certo.
O Mundial de seleções não tem as equipes que desempenham o melhor futebol – essas estão nos milionários elencos dos clubes europeus -; não tem um preparo adequado, cada vez mais apertado ao fim da temporada; não tem a maior parte dos grandes técnicos do mundo; e, por tudo isso, não tem tido suas principais estrelas jogando tudo o que poderiam. Na Rússia, também não teve uma grande atmosfera de estádio em diversos jogos, principalmente com a ausência de tradicionais torcidas europeias, que não viajaram em peso.
A maioria dos atletas da Copa podem ser assistidos desde agosto do ano passado. Se o croata Rakitic chamou a atenção por chegar ao jogo 70 na temporada, é fato que qualquer criança no Brasil pode ter assistido mais de 100 horas do meio-campista nos últimos 11 meses. Diante disso, o mês de Copa tem de ser especial nesse universo, não medíocre, rotina, mais do mesmo. Ainda mais porque as estrelas vão caindo e as notícias do mercado de clubes já engolem a programação na semana decisiva do Mundial.
Tudo isso para dizer que é possível desfrutar da Copa do Mundo, e eu mesmo curti assistir os jogos, conversar sobre o torneio, encontrar os amigos, escrever essa coluna, gravar os programas na rádio. Mas só faz sentido analisar o torneio com uma régua muito alta. Se o Mundial perder essa exigência, aí perde-se tudo. Aí a gente assume logo que os grandes jogos estão na Champions League e na Libertadores, que as seleções via de regra são meio parecidas independente do continente e que o torneio é isso mesmo, mais um campeonato, um mês ali no verão do Barcelona, do Manchester City e do Real Madrid, e ponto.
Eu prefiro o caminho de esperar mais e mais, afinal, é a Copa. E se a maior taça de todas não carregar com ela a responsabilidade de ver o melhor desses caras, vale para quê?
Perguntei no Twitter se as pessoas consideram que Harry Kane fez uma grande Copa, e muita gente acha que sim (uma primeira Copa, seis gols, time jovem, não se omitiu, etc), mas eu continuo achando que não. Grande? Não. Do maior artilheiro do campeonato mais competitivo do mundo eu espero mais do que vi contra Colômbia, Suécia e Croácia, dos três gols de pênalti e um sem querer num total de seis.
“Ah, mas o Mbappé está jogando muito”. Acho também que se elogia muito pelo que pode ser do que pelo que já é – com tanta velocidade e técnica, eu quero ver mais do que o pragmático controle do jogo contra o Uruguai e a Bélgica depois de dois gols de bola parada. E no Cristiano Ronaldo “a bola não chega”. E com o Messi “o time não ajuda”. E do Neymar “estão pegando muito no pé”.
Reforço: entendo as questões táticas, físicas, o contexto do jogo, e nem estou imaginando um utópico futebol-arte vistoso e de puro espetáculo. Não é isso. Também não é nenhuma posição contrária ao jogo defensivo ou à cautelosa postura de marcação. Mas senti falta do excesso na segunda fase. Um craque fazendo um golaço. Da França atropelando. Da Croácia sobrando contra uma Dinamarca que seja. Do Mbappé, se é o cara do momento, parando dentro do gol. Do artilheiro da Premier League acertando o ângulo num jogo difícil. Do Sterling assinando uma jogada, do Neymar driblando meio time, do Messi fazendo um jogo de mata-mata de Copa para poder chamar de seu, do Coutinho tirando um chute da cartola.
Foi divertido, a Copa é a Copa, a ampulheta de nossas vidas a quatro anos. Não é uma porcaria qualquer, e ainda que se esforcem, de Catar a 48 equipes, jamais será desprezada. Mas que podia ter mais bola, podia. Dá para achar as duas coisas, e manter a exigência que o torneio demanda. Quem sabe o último fim de semana não esteja reservando algo a mais.



