Copa do Mundo

Contos Russos #18: Messi, Cavani e um mundo no rio da Prata

A cada quatro anos, os talentos sul-americanos importados pelo futebol-negócio reencontram o cheiro de casa numa rápida volta de um mês valendo a honra dos amigos de infância, a alegria dos vizinhos e colegas de escola, o encontro com aquele sentimento mais básico do futebol, “um dia farei um gol numa Copa do Mundo”, contaram para alguém.

Para Messi, o sábado foi talvez o último capítulo dessa tormenta. Pela quarta vez na vida Lionel deixou a confortável Barcelona para viver um sonho primário dos amigos de Rosário. Como nas férias na casa da avó em que nunca esteve totalmente adaptado ao colchão duro, o melhor jogador de clubes do futebol globalizado jamais pareceu ter sua gaveta na seleção. Foram alguns bons momentos, claro, nos jardins da imaginação de quem vestiu a camisa mais importante da história de seu país; mas, no dia que não houver mais a casa do veraneio nostálgico, a albiceleste para cruzar o Atlântico, talvez o que lhe reste seja a saudade de um tempo que jamais viveu.

Mas o futebol, ah, o futebol. Horas depois de Lionel Messi cair para a França e oferecer à história passos que podem ser os últimos na maior festa deste jogo, Edinson Cavani não jogou por essa nostalgia melancólica, e sim visitou seus mais ancestrais desejos futebolísticos com a leveza de uma criança. A emoção nos gols que levaram o Uruguai a vencer Portugal é espantosa. Cavani fez o melhor jogo internacional de sua vida, se reencontrou com os devaneios do garoto de Salto e deixou a interrogação boiando no rio da Prata: por que sim do lado celeste?

Entre o catado argentino comandando por um Messi incômodo e a família uruguaia do brilho de um Cavani desfrutando do lugar no mundo, cabe uma América do Sul inteira de reflexões e teses sobre a bola e a vida. Entender a maneira como se cria um ambiente de afeto coletivo e prazer na comparação com um pressionado onze distante e aborrecido. Afinal de contas, por que, ao longo desse anos, Messi não venceu um jogo grande seu, ao nível de seus sábados na Europa, abraçado por uma equipe coesa e correta?

Vai do projeto para a equipe, que do lado de lá responde por Maestro. Provavelmente não haverá o fetiche dos analistas do futebol contemporâneo sobre os métodos de Óscar Tabárez, um senhor que desafia o tempo e que montou um time de futebol de 12 anos (sabe-se lá como) nesses intervalos de data Fifa e juntando compatriotas de todos os cantos do mundo, tarefa que parece cada vez mais difícil. Mas é um fenômeno. Pertencimento, espírito de equipe, conhecimento do jogo, refinamento coletivo, amizade, prazer. O Uruguai de Tabárez foi, e será por pelo menos mais um jogo eliminatório de Copa, uma aula.

Também pela própria influência da estrela da companhia. Lionel Messi não precisou deixar de ser ele próprio para se tornar um natural líder técnico no milionário vestiário em que vive há quase vinte anos. Na Argentina, teve dificuldades em praticar a resiliência, e em forjar ao seu entorno um time alegre. Tem culpa por não melhorar o astral e a bola de quem joga às suas margens.

No fim, fica o dia histórico de uma Copa do Mundo que, depois dessa abertura de oitavas, não sei ainda se entra para o topo da estante, mas já não morre por falta de bola. Ainda bem que para cada falta que Messi possa fazer aos nossos Mundiais projetados haverá um Cavani transbordando confiança para passar por cima. E olha que de Mbappé falamos outro dia: o rastro do francês vai longe, alguma coisa entre Owen, Ronaldo e Henry ainda procurando caber num campo apertado em Kazan, driblando inclusive nossas comparações embriagadas.

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