Copa do Mundo

Contos Russos #15: O encantamento alemão

A quarta-feira foi de aniversário de João Guimarães Rosa, o maior escritor brasileiro da história para a singela lista deste colunista, nascido há 110 anos. O mineiro de Cordisburgo eternizou em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras que “as pessoas não morrem, ficam encantadas… a gente morre é para provar que viveu”.

A Alemanha fez maravilhas numa semifinal de Copa do Mundo atrás. À parte a ruína do time brasileiro gol após gol no Mineirão, a leveza e o refinamento técnico das tabelas germânicas diante de uma defesa canarinho atônita entraram no nosso imaginário para sempre. Lá vem eles de novo, e de novo, e de novo.

O imaginário deturpa, faz parte do jogo, e é por isso que futebol é um troço tão interessante. Não fossem o fascínio, a memória afetiva e o encanto, nossas conversas pós-jogo se resumiriam à radiografia do desempenho. É por isso que conversar sobre o 7-1 é tão saboroso – ali, no mais acabado exemplo do deslumbramento sobre um jeito de jogar se impondo a outro, construímos nossas lembranças e suposições para o futuro.

Porque, no fim das contas, na frieza dos inabaláveis, é claro que o Brasil não era um time de todo ruim para morrer no limbo dos humilhados, tal qual a Alemanha não era uma máquina de fazer gols.

É por isso que, como sempre alertou o comentarista Gerd Wenzel, a penca de gols em Belo Horizonte há quatro anos desorganiza a recordação sobre aquele time. Aquela mesma Alemanha que sorria entrando de bola e tudo nas redes de Júlio César se salvou num empate contra Gana, foi econômica diante dos Estados Unidos, por centímetros dum goleiro-líbero não caiu para a Argélia. Futebol, oras.

Mas eu me apego ao fascínio. Apesar das ponderações, do envelhecimento, da precária forma física e do mau momento técnico de um ou outro, quem sou eu para não considerar favorita a espinha de Hummels e Boateng, Kross e Khedira, Ozil e Muller? Juntam-se a eles jovens promissores, boas campanhas em torneios secundários – Copa das Confederações e Olimpíada -, o retorno de Reus e o frescor de quem acaba de ser campeão mundial. Difícil ver a Alemanha em campo e não recordar aqueles seis minutos à beira da Pampulha.

Mas, enfim, no juízo final mundialista, é hora de se despedir definitivamente daquele time, que na prática não viajou à Rússia. A zaga não transmitiu a mesma segurança, os novos líderes não supriram a ausência de Lahm e Schweinsteiger, as bolas que cruzaram a área não se encontraram aos pés de Klose. Todo mundo jogou pior – incrível. E o comandante, refém de uma história de quatro anos atrás, se viu preso nessa expectativa sobre o passado, aquele que não voltará nunca mais.

No fim, fiquemos com a frase de Rosa, cônsul brasileiro em Hamburgo à época da Segunda Guerra e escritor de livros eternos. A Alemanha do 7-1 não morre… fica encantada. Morrer numa primeira fase é para provar o grande título que viveu.

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