Como Espanha flertou com ‘trauma’ de 2010 e anulou Argentina para conquistar a Copa do Mundo
Argentinos mudam escalação para a final, se complicam e têm Messi mais sumido que em 2014 para o vice do Mundial
A Espanha se consagrou a grande campeã da Copa do Mundo de 2026. A vitória diante da Argentina neste domingo (19), por 1 a 0 na prorrogação, coroou não só o título, mas o padrão tático mais consolidado em todo o Mundial.
A média de sucesso entre as 48 equipes parecia tender a um estilo de velocidade e priorização do campo aberto — e isso resultou, por exemplo, no 6 a 4 entre França e Inglaterra, dois dos times que melhor fizeram isso, na disputa pelo terceiro lugar. Mas a final foi mesmo dos times pausados.
E, no fim, foi premiado o time que mais soube priorizar a bola. A Espanha dominou o jogo inteiro e, mais do que ter levado mais perigo e controlado as ações da final, impediu que a Argentina jogasse: foram 20 finalizações espanholas em 117 minutos de jogo antes dos argentinos chutarem pela primeira vez.
Argentina muda para a final, se complica ‘sozinha’ e é dominada
O domínio espanhol foi visto desde o início. A escalação argentina com Nico González pela esquerda poderia dar a entender que seria um time mais veloz ou que atacaria mais pelos lados. Mas, na prática, não foi essa a ideia.
Lionel Scaloni tirou Leandro Paredes, que ganhou a posição no meio-campo argentino ao longo da Copa do Mundo, para colocar Nico na esquerda. Isso fez o time sair de uma formação em diamante (4-1-2-1-2), com muito foco na progressão e passes pelo meio, para um 4-4-2 mais clássico. Isso teve duas principais implicações:
- Com a bola, a Argentina tinha menos sustentação no meio para construir e passou a ter dificuldade de lidar com a pressão alta da Espanha;
- Sem a bola, tinha um jogador a menos para defender a região central, justamente onde a seleção espanhola mais domina.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F07%2FLionel-Scaloni-e-Pablo-Aimar-na-final-da-Copa-do-Mundo-2026-scaled.jpg)
A implicância defensiva dessa mudança na escalação argentina foi o que facilitou o jogo para os espanhóis. Sem Paredes, os sul-americanos deixaram de defender em 4-1-4-1, como fizeram contra a Inglaterra, na semifinal, e permitiram mais espaço entre as linhas.
Foi assim que, logo aos cinco minutos, a Espanha já conseguiu criar uma chance de perigo com Lamine Yamal entrando na área dessa forma. Dani Olmo, o camisa 10 que flutua entre as linhas, teve espaço para ser pivô e colocar Yamal, de primeira, livre na área.
A Espanha conseguiu acionar essa zona do campo em outras oportunidades, teve boas conexões entre Olmo, Mikel Oyarzabal descendo como falso nove e Fabián Ruíz como o segundo volante de chegada e imposição física — mesmo que não tenha conseguido criar oportunidades a partir disso.
Essa mudança foi claramente negativa: a Argentina deixou o campo no primeiro tempo com apenas 35% de posse de bola e nenhuma finalização, além de não ter conseguido acionar Lionel Messi. Para o segundo, Scaloni corrigiu o problema: colocou Paredes no lugar de Nico e reestruturou o meio-campo.
Com Paredes, o 4-4-2 defensivo virou uma espécie de 4-1-3-2, com o camisa 5 protegendo o entrelinhas, mas ainda tentando pressionar alto de alguma forma. O resultado também não foi bom: a pressão seguiu não funcionando e a Espanha passou a atacar essa linha de três no meio argentino, à frente de Paredes, com superioridade numérica. Foi mais fácil manter a posse e chegar à área.
O resultado das mudanças de Scaloni foi um jogo mais equilibrado e com os argentinos conseguindo manter a bola por mais tempo, mas só no início da segunda etapa, e ainda assim sem levar perigo. E um Messi apagado — ainda mais do que na final de 2014.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Como a Espanha tirou Messi da final da Copa do Mundo
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F07%2FLionel-Messi-em-Argentina-x-Espanha-na-final-da-Copa-do-Mundo-scaled.jpg)
O camisa 10 da Argentina deu o pontapé inicial do jogo. Depois, demorou 15 minutos para voltar a tocar na bola, mas somente para cobrar uma falta. Messi teve uma final de Copa do Mundo muito tímida.
O primeiro motivo foi a entrada de Nico González, que desmontou a estrutura do meio-campo. Isso fez com que os argentinos não conseguissem manter a posse e, mesmo que a ideia dessa nova escalação fosse conseguir pressionar mais alto, isso também não surtiu efeito.
Mas a Espanha também teve méritos nesse sentido. A linha defensiva do time de Luis de la Fuente pressionava com orientação zonal justamente para para o camisa 10:
- Quem começava a pressão era Marc Cucurella, que não abria tão perto da linha lateral para ficar mais perto de Messi. Ele o perseguia individualmente até Messi sair do meio-espaço, quando ia em direção ao centro;
- Depois disso, Cucurella largava o camisa 10 e quem o acompanhava era Aymeric Laporte, o zagueiro pela esquerda. Ele seguia Messi até perto do círculo central;
- Depois, Laporte largava a marcação para não abrir muito espaço na última linha e a marcação de Messi virava obrigação dos volantes — onde a Espanha tinha superioridade numérica.
No fim, o camisa 10 não conseguiu criar e exemplificou o drama da seleção argentina no mata-mata: sem Messi, o time de Scaloni tem imensa dificuldade de levar perigo. Contra uma Espanha com ótimo trabalho sem bola na recomposição em transição e para pressionar, os argentinos não finalizaram uma única vez em todos os 90 minutos.
Espanha à la 2010 sentiu falta de um finalizador
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F07%2FLamine-Yamal-em-Espanha-x-Argentina-na-final-da-Copa-do-Mundo-2-1-scaled.jpg)
Mesmo dominando o jogo, a Espanha teve dificuldades de entrar na área. Tirando a finalização de Yamal aos cinco minutos, o time de De la Fuente não conseguiu repetir esse feito na primeira etapa. As mudanças no segundo tempo ajudaram nesse sentido.
Com as saídas de Ruíz e Oyarzabal, a Espanha teve em Ferrán Torres e Pedri dois jogadores de perfil diferente: um meia mais capaz de dar o último passe e um atacante móvel para atacar as costas da defesa — mesmo que ainda consiga recuar para se associar.
O resultado foi um ataque mais vertical para os espanhóis, ainda mais depois dos 75 minutos, quando entrou Nico Williams no lugar de Álex Baena no lado esquerdo do ataque. Mas, ainda assim, foi uma seleção que lembrou os campeões mundiais de 2010.
Apesar de um time histórico e muito capaz ofensivamente, a Espanha de 2010 era uma equipe que controlava muito os jogos e, em diversas vezes, vencia pelo placar mínimo, com dificuldades de finalizar. Mais do que não ter um grande finalizador inspirado, era um time que buscava a chance claríssima antes de finaliza.
Na final de 2026, os espanhóis chutaram bastante: foram 15 finalizações durante o tempo regulamentar, e muitas de fora da área. Mas mesmo assim, era um time que parecia buscar a chance clara para finalizar. Ainda assim, chegou a 1,72 gol esperado (xG) antes de marcar, aos 106, no início da prorrogação.
A impressão que fica é que faltaram momentos de passe arriscado para que a chance clara viesse. Em diferentes situações, Yamal se movimentava para o meio-espaço e atacava a profundidade nas costas dos zagueiros, aproveitando o intervalo criado com a dobradinha de Pedro Porro — o problema é que não recebia o passe. A Espanha reciclava a posse, Yamal novamente se movimentava, mas o passe não saía. O mesmo acontecia na esquerda com Williams.
Rodri fez um excelente jogo controlando a posse, pausando o jogo e com inversões, mas deu poucos passes cruciais verticais. Pedri, que entrou depois, teve um jogo tímido. O passe crucial que, se tivesse entrado com frequência, poderia ter facilitado o jogo para a Espanha.