Com um gesto, Embolo expôs as nuances da nacionalidade e marcou uma Copa do Mundo globalizada
Nascido em Yaoundé, o atacante da Suíça fez o gol da vitória contra Camarões e decidiu não comemorá-lo
O futebol tem gestos institucionalizados. Todos sabem que levantar os braços após marcar um gol sinaliza que o jogador não quer comemorar em respeito ao seu ex-clube. Isso não costuma acontecer no futebol de seleções, mas talvez esteja prestes a começar. Dos 830 jogadores convocados para o Catar, 137 não representam o país onde nasceram. Como Breel Embolo, natural de Yaoundé, que nesta quinta-feira marcou o gol da vitória da Suíça por 1 a 0 sobre Camarões. A importância do gol, seu primeiro em Copas do Mundo, decisivo para seu time ganhar na estreia, não foi maior do que as raízes familiares e as memórias de infância.
É um caso raro, mas não inédito. Em 1938, Alfred Bickel, alemão de nascimento, marcou contra a Alemanha no jogo desempate das oitavas de final, também defendendo a Suíça. Xherdan Shaqiri nasceu no Kosovo, na época em que a região fazia parte da Iugoslávia, cuja herdeira futebolística é a Sérvia. Mas não dá para dizer que ele não comemorou o seu gol contra os sérvios na última Copa do Mundo. Junto com Granit Xhaka, também da etnia kosovar-albanesa, celebrou fazendo as águias negras da bandeira da Albânia.
Garoto-prodígio do futebol suíço, Embolo nasceu na capital camaronesa em 1997. Os pais se separaram e, aos cinco anos, ele se mudou com a mãe para a França, onde ela conheceu o futuro marido. Juntos, mudaram-se para a Basileia. Embolo começou a aparecer na base do Basel e estreou no fim da temporada 2013/14 nas oitavas de final da Liga Europa contra o Red Bull Salzburg. Tinha acabado de completar 17 anos. Alguns meses depois, já estava encarando Real Madrid e Liverpool na Champions League.
Foi no fim daquele ano importante para sua carreira que teve que tomar uma decisão difícil. Em dezembro de 2014, cinco dias depois de receber a cidadania suíça, anunciou em um comunicado no site do Basel por qual seleção atuaria. “Infelizmente, você não pode jogar por duas seleções. Após uma análise cuidadosa, cheguei à conclusão de que jogarei pela Suíça no futuro, pelo país onde passei a maior parte da minha juventude. Esta não é uma decisão contra Camarões, mas pela Suíça. As duas associações trabalharam muito para mim e eu gostaria de lhes agradecer. Espero que minha decisão seja respeitada e aceita”, disse.
É sempre difícil se adaptar a um novo país. Embolo teve que fazer isso duas vezes quando era criança e a juventude na Suíça deixou uma marca importante. Depois de explodir pelo Basel, jogou na Alemanha, por Schalke 04 e Borussia Monchengladbach, antes de retornar à França para defender o Monaco. Em todos esses clubes, usou a camisa 36 porque é o número do ônibus que costumava pegar para os treinamentos, um trajeto no qual fez muitos amigos.
“Quando você chega em um país completamente diferente como garoto, demora para aprender a língua e entender a mentalidade. Esse foi o maior desafio: adaptar a mentalidade. Eu sinto que fiz isso muito bem. Acho que sou provavelmente 60% ou 70% suíço agora, mais do que sou africano. Eu me senti muito bem recebido e fiz muitos amigos. Eu tive uma infância muito feliz. No fim, fiz muitos amigos por meio do futebol então queria fazer essa conexão. O futebol ajudou na minha integração, então essa é a conexão com o número”, afirmou, em entrevista ao site da Bundesliga, em 2020.
Sentir-se mais suíço nem de longe significa que Embolo esqueceu seu país de origem – como ficou claro nesta quinta-feira. Entre 2016 e 2017, ele começou uma fundação para ajudar três países: Peru, Suíça e Camarões. “Queríamos (ele e a advogada) retribuir com alguma coisa e há muitos lugares em construção, então você não pode ajudar todos, mas escolhemos esses três países. Peru, porque ela é de lá, e Camarões e Suíça, porque é onde eu cresci. Fazemos várias coisas, como apoiar crianças na escola e adolescentes no Peru que ficaram grávidas muito jovens e não sabem o que fazer. Fazemos muitas coisas diferentes e estou muito grato por ter tido a ideia e o apoio para poder fazer isso”, disse, na mesma conversa.
E a fundação também lhe incentivou a visitar Camarões. Foi o que fez depois da Eurocopa de 2021, por exemplo. Ainda mantém contato com muitas pessoas, familiares e amigos, e o pai ainda vive no país africano. Diz que é muito ligado à sua terra natal. “Eu tenho uma fundação lá e tento ir o máximo possível”, disse, ao site Don’t Play, em abril. “Depende de quanto tempo de férias eu tenho. Eu tento visitar minha família e não perder a ligação com minhas raízes. Sempre sinto que Camarões é especial, é tão diferente da Europa e tenho muitas memórias de crescer lá. Para mim, é muito importante porque consigo relaxar lá. Posso sair e ver coisas diferentes, o que me dá muita força”, explicou.
Cameroonian born Swiss International Breel Embolo is in Cameroon. He was spotted watching a football game in Yaounde. pic.twitter.com/9IEaso7XQG
— E-KWAT TV (@EkwatTV) July 17, 2021
Naturalmente, o sorteio que o colocou no mesmo grupo da seleção camaronesa foi um momento especial para ele. “Pessoalmente, eu queria Camarões porque eu sempre quis jogar contra meu país natal, mas honestamente, quando aconteceu, foi especial. Minha família está muito feliz. Eu recebi muitas mensagens no celular. Maxim (Choupo-Moting) imediatamente me mandou mensagem. Muitos outros jogadores de Camarões que eu conheço fizeram isso também. Claro que, se há um time para o qual torço, depois da Suíça, é Camarões. Espero que a Suíça termine em primeiro lugar e Camarões em segundo lugar. Esse é meu desejo”, acrescentou, ao site Don’t Play.
Em outra conversa, com o Monaco Life, disse que tenta retornar “uma ou duas vezes por ano para manter essa ligação com Camarões” porque é “importante que eu não me esqueça de onde vim” e garantiu que é o torcedor número 1 de Camarões. “Quando escolhi a Suíça, sempre houve uma parte de mim que queria representar o país onde nasci. Estou muito feliz com minha escolha e sou o maior torcedor de Camarões. Eu tinha 17 anos. Foi um momento difícil. Adiei minha decisão por alguns meses. Eu lembro que até tive a chance de me juntar à seleção camaronesa. Não foi uma escolha fácil, mas minha família a respeitou e isso é o mais importante”, disse.
A globalização não é uma novidade no futebol de seleções, mas está ganhando espaço maior nas discussões, e Embolo é um exemplo importante de que nacionalidade e identificação são conceitos com muitas camadas. Ele se sente mais suíço que camaronês, e sua decisão também passou por elementos esportivos, mas isso não significa que se esqueceu das suas raízes. Pelo contrário, foi o amor por Camarões que limitou a alegria que sentiu em um dos momentos mais importantes da sua carreira e levou a um gesto que entra para a história das Copas do Mundo como um marco em um esporte no qual as fronteiras parecem cada vez mais flexíveis.



