Cho Gue-sung: Como decisão curiosa sobre o Exército mudou vida de atacante da Coreia do Sul
Mudança de posição e alistamento diferente de outros jogadores criaram galã do Mundial de 2022
Son Heung-min é o nome mais importante do futebol sul-coreano nos últimos 15 anos e é tido basicamente como uma divindade do esporte local. Mas na última Copa do Mundo, no Catar, o atacante então no Tottenham teve que dividir as atenções com um nome na época completamente desconhecido para o público fora do país asiático.
Cho Gue-sung saiu do banco no segundo jogo, contra Gana, e marcou dois gols na derrota sul-coreana. A capacidade de decisão e os looks para a câmera fizeram com que o atacante virasse a sensação daquele Mundial.
Ele foi de 20 mil seguidores para 2,6 milhões no Instagram, as visitas ao estádio de seu clube se esgotaram e chegou a ter que desligar seu telefone por receber um alto número de pedidos de casamento.
Só que nada disso teria acontecido se Gue-sung não tivesse tomado decisões diferentes durante a carreira, incluindo uma pouco habitual para jogadores de futebol na Coreia do Sul.
Cho Gue-sung não começou no futebol como atacante
O hoje atacante tem uma carreira diferente da habitual para o Ocidente, mas muito comum em Coreia do Sul e Japão. Após terminar o ensino médio na Anyang Technical High School, que também servia como base do FC Anyang, ele entrou na Universidade de Gwangju.
Em Gwangju, Gue-sung era volante de um time que ia bem em torneios regionais por causa do atacante Mo Jae-hyeon. Mas quando Jae-hyeon deixou o time para se tornar profissional, o técnico aconselhou Gue-sung que ele poderia ter muito mais sucesso no futebol profissional se virasse atacante.
A adaptação não foi fácil, mas não demorou para que ele impressionasse o FC Anyang, que o contratou em 2019. Logo em seu primeiro ano como profissional, ele marcou 14 gols na K-League 2, terminando como o terceiro maior goleador do torneio.
O sucesso foi tamanho que ele foi comprado pelo Jeonbuk Hyundai Motors, um dos maiores times do país. Ele até entrou em campo pelo time em 2020, mas teve dificuldades para se adaptar ao jogo da primeira divisão. E foi aí que outra decisão mudou sua vida.
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Ir para o Exército cedo ajudou Cho Gue-sung
A lei sul-coreana exige que todos os homens sirvam o exército local por 18 a 21 meses, com limite máximo de tolerância para a entrada sendo o ano em que a pessoa completa 28 anos.
As exceções são raras, dadas apenas a pessoas em casos específicos ou atletas que conquistaram glórias para o país — medalha olímpica ou especificamente ouro nos Jogos Asiáticos.
Foi o caso de Son, que teve que conquistar o ouro nos Jogos Asiáticos de 2018, sua última oportunidade antes da obrigação do serviço militar. E mesmo assim ainda teve que cumprir um treinamento básico de quatro semanas.
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Não são raros os casos de jogadores que atrasam seu alistamento, acabando por servir no último tempo possível atuando pelo Gimcheon Sangmu, um time do exército que hoje disputa a K-League, primeira divisão local.
Em 2021, ao perceber que estava perdendo tempo de jogo, Gue-sung decidiu se alistar e passar um ano jogando pelo Gimcheon Sangmu, buscando mais minutos e fortalecimento.
Assim como a mudança para o ataque, não demorou para que essa decisão se provasse correta. Cho melhorou fisicamente e tecnicamente enquanto estava no exército e fez oito gols na campanha que recolocou o Sangmu na primeira divisão.
E o retorno à K-League mostrou o quanto ele tinha melhorado. Foram 13 gols e quatro assistências pelo Gimcheon Sangmu antes de voltar ao Jeonbuk, recebendo grandes elogios do técnico Kim Tae-wan pelo seu esforço.
– Cho Gue-sung não se tornou uma estrela do dia para a noite. Ele criou todo um processo e sempre se mostrou desesperado por melhorar. Mesmo que ninguém estivesse olhando, ele estava se preparando para o futuro – afirmou Tae-wan após uma vitória do Sangmu com dois gols de Cho em março de 2022.
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Em uma entrevista ao site “Sports Chosun” depois da mesma partida, o atacante chegou até a detalhar todos os exercícios físicos que fazia para manter o corpo e revelou como isso o ajudava em campo.
– Eu acredito que ganhei mais calma dentro de campo, consigo pensar melhor antecipadamente e reagir da melhor forma. E ter sido chamado para a seleção [pela primeira vez] me ajudou a ser mais confiante dentro de campo – contou Cho.
Pelo Jeonbuk, Cho comprovou ainda mais a mudança ao marcar mais quatro gols na liga e ser extremamente decisivo na Copa da Coreia do Sul, marcando três gols nos 180 minutos da final contra o FC Seoul, dando o título aos Guerreiros Verdes.
Toda a jornada aconteceu na porta da Copa do Mundo. Ainda deu tempo para que ele fosse convocado desde o início de 2022, culminando em uma vaga no Mundial, onde os dois gols contra Gana foram importantes para que os sul-coreanos avançassem ao mata-mata e também para que uma lenda fosse criada em volta do atacante galã.
Pesadelo por lesão marcou ida de Gue-sung para a Europa
Apesar de propostas chegarem na janela após a Copa, em janeiro de 2023, Gue-sung acabou se mudando para a Europa apenas em julho daquele ano, assinando com o Midtjylland, da Dinamarca, uma equipe conhecida por ser uma excelente porta de entrada para jogadores de outros continentes.
Não demorou para que Gue-sung virasse um bom atacante de referência para a equipe, dominando em bolas aéreas e marcando 12 gols em 30 jogos para ajudar o Midtjylland a conquistar o título dinamarquês naquela temporada.
Após a temporada, ele precisou passar por uma cirurgia no joelho para lidar com dores sentidas nos jogos. O tempo de recuperação era de apenas um mês, mas durante a período, ele sofreu com uma infecção de bactéria, passou por uma nova operação e ficou fora da temporada inteira seguinte.
Em um mini documentário postado pelo Midtjylland após o retorno 448 dias depois do último jogo da temporada 2023/24, Gue-sung e o diretor esportivo do clube, Kristian Bach Bak, falaram sobre as dificuldades do período de recuperação.
– Em alguns momentos eu cheguei a duvidar se poderia voltar aos campos. Durante o período de recuperação, eu perdi 14 quilos, parecia um esqueleto. Perdi todos os meus músculos – afirmou o atacante.
– Assim como outros no clube, eu tive dúvidas. Vimos esse jogador físico e extremamente profissional para depois vermos ele correndo até de uma forma estranha após as cirurgias e chegamos até a pensar “Quando isso vai melhorar?” – recontou Bak.
Cho finalmente voltou aos campos no dia 17 de agosto de 2025 e teve uma temporada saudável, terminando com sete gols em 42 jogos e o título da Copa da Dinamarca.
Indefinição no ataque pode dar nova chance em Mundial a Cho
Com o retorno do eterno capitão Hong Myung-bo ao comando da seleção, a Coreia do Sul passou a se alinhar mais vezes com uma linha de cinco na defesa, dois meias centrais e mais dois meias-atacantes com mais liberdade atrás de um atacante.
Hwang Hee-chan e Lee Kang-in costumam ser usados mais no papel dos meias-atacantes, enquanto Son pode ser o atacante centralizado na maioria do tempo.
Só que o técnico já usou Son como ponta esquerda em duas formações diferentes, um 5-4-1 e um 4-2-3-1, abrindo espaço para um atacante de referência.
Com essas formações, Cho disputa a vaga de atacante com Oh Hyeon-gyu, que vem de um bom primeiro semestre após se transferir ao Besiktas, marcando oito gols em 16 jogos pela equipe turca.