Copa do Mundo

‘Mostramos aquilo que é nosso país’: Como mantra do técnico levou Cabo Verde a jogo histórico

Técnico fez história ao classificar Cabo Verde à uma Copa do Mundo de forma inédita

A seleção de Cabo Verde escreveu história nesta segunda-feira (15) ao conseguir segurar uma Espanha favorita durante o duelo que marcou sua estreia no Mundial, e abriu o grupo H do torneio.

Para além de uma atuação impecável do goleiro Vozinha, que brilhou juntamente com todo o setor ofensivo de Cabo Verde, há outro responsável direto pela maior zebra do Mundial 2026 até o momento: um treinador que construiu a sua trajetória no futebol baseada na coragem.

Pedro Leitão Brito, apelidado de Bubista devido à Ilha de Boa Vista (sua terra natal no arquipélago cabo-verdiano), tem como a sua primeira lembrança do Mundial a edição de 1982, realizado na Espanha.

Na época, um jovem de 12 anos teve contato com o que seria o seu futuro a partir de uma televisão adquirida por um imigrante, aquisição que virou notícia no local e se espalhou por toda a ilha. Em entrevista para o portal “Coaches’ Voice”, Bubista contou que, para assistir ao Mundial pelo aparelho, era preciso pagar um ingresso.

— Eu tinha 12 anos e nenhum dinheiro para pagar a entrada. Para a maioria dos meus amigos, a realidade era idêntica. De vez em quando, conseguíamos dar um jeito de driblar o homem que ficava à porta, controlando as entradas, e entrávamos. Mas a alegria terminava rapidamente, quando nos expulsavam de lá –, relembrou.

Bubista, técnico do Cabo Verde, após estreia na Copa do Mundo contra a Espanha (Foto: IMAGO / Xinhua)
Bubista, técnico do Cabo Verde, após estreia na Copa do Mundo contra a Espanha (Foto: IMAGO / Xinhua)

— O esporte sempre fez parte da minha vida. Apesar de todas as dificuldades, dávamos um jeito de jogar bola. Mesmo que, em determinado momento, nem houvesse bola propriamente. A bola podia ser as meias que minha mãe costurava ou qualquer outra coisa improvisada. Jogávamos na rua, o dia inteiro. Claro, Maradona [era um dos grandes jogadores] durante aqueles tempos… Então essas são minhas memórias da Copa do Mundo –, contou.

Foi a partir daquela televisão que Bubista descobriu a sua vocação. Inspirados nos participantes da edição do Mundial de 82, Pedro Leitão Brito entendeu que também queria chegar aos grandes palcos do futebol.

— Eu era muito, muito jovem. Naquele tempo na minha ilha, na minha vila…minha ilha Boa Vista e minha vila Povoação Velha, havia apenas uma televisão, mas era muito difícil (o acesso). Lembro de Lothar Matthäus naqueles tempos. Jogadores daquele nível como Éder [Aleixo], do Brasil; Falcão, se me lembro bem –, comentou em entrevista à Fifa.

A profecia que o levaria a colocar o nome do país na história da Copa do Mundo teve início quando passou a atuar pela equipe nacional. Depois de tornar-se jogador profissional, o espírito de liderança fez com que Bubista carregasse a braçadeira de capitão da seleção durante 11 anos.

Bubista, técnico da seleção de Cabo Verde (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)
Bubista, técnico da seleção de Cabo Verde (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)

Com a experiência bem-sucedida dentro de campo, ele teve a oportunidade de integrar a comissão técnica depois da sua aposentadoria dos gramados. A experiência teve início após se tornar auxiliar técnico na seleção entre 2007 e 2013 e, depois, entre 2016 e 2017. 

Três anos depois, em janeiro de 2020, surgiu a oportunidade de Pedro assumir o cargo de técnico principal de Cabo Verde. Desde então, o treinador tem escrito novos capítulos na história dos Tubarões Azuis, garantindo as classificações para as últimas duas edições da Copa Africana, além da chegada à Copa do Mundo de 2026, pela primeira vez na história do país.

— O maior sonho de todo cabo-verdiano sempre foi disputar uma Copa do Mundo, algo que Cabo Verde jamais conseguiu. Em novembro de 2023, iniciamos a campanha das eliminatórias africanas para a Copa do Mundo de 2026. O nosso grupo tinha Camarões – seleção africana com mais participações em Copas do Mundo -, Angola, Líbia, Ilhas Maurício e Essuatíni — destacou ao “Coches’ Voice”.

Coragem como mantra

Em toda a trajetória de Bubista, há uma palavra que o segue, quase como um sobrenome: “coragem”. É com esse mantra que o treinador tem guiado a sua equipe durante toda a campanha que a levou ao Mundial.

— A estreia [nas Eliminatórias Africanas] foi em casa, contra Angola, e me recordo perfeitamente da conversa que tive com os jogadores antes do jogo. ‘Quero que tenham coragem’, foi a principal mensagem. Sempre soubemos do nosso talento, mas nem sempre confiamos que esse talento seria capaz de nos levar muito mais longe do que vínhamos conseguindo. Portanto, era preciso coragem para enfrentar qualquer adversário. O primeiro passo da nossa conquista foi confiar verdadeiramente em nosso potencial. Em outras palavras, mudamos a mentalidade dos jogadores –, explicou o técnico.

O resultado do primeiro desafio foi um empate sem gols. Em seguida, o duelo foi contra Essuatíni, que resultou em uma vitória por 2 a 0. Então, o principal confronto das Eliminatórias havia chegado, contra Camarões, fora de casa.

— A nossa viagem a Camarões foi toda conturbada. Tivemos problemas com o hotel – muito barulhento -, o que impediu o descanso de nossos jogadores. Além disso, não conseguimos proporcionar a alimentação adequada aos atletas –, detalhou o comandante.

Seleção de Cabo Verde celebra vitória nas Eliminatórias
Seleção de Cabo Verde celebra vitória nas Eliminatórias (Crédito: Federação Cabo-Verdiana de Futebol)

Para além da preparação, Bubista detalhou as dificuldades logísticas enfrentadas pelos Tubarões Azuis antes das partidas, que se intensificam devido à localização geográfica da Ilha.

— Por estar fora do continente, Cabo Verde sofre mais do que a maioria de nossos adversários africanos com essas questões logísticas. Muitas vezes, por causa das longas viagens, os atletas se apresentam à seleção na véspera de um jogo. Os países mais desenvolvidos da África têm aviões próprios. Em jornadas duplas, quando fazemos o primeiro jogo fora e o seguinte em Cabo Verde, é comum que o adversário chegue a nossa casa antes do que nós –, declarou.

O jogo acabou em uma goleada de Camarões por 4 a 1, pela terceira rodada das eliminatórias africanas. No entanto, o treinador afirma que apesar dos torcedores acreditarem que a seleção havia deixado o campo com a confiança abalada, Bubista acreditava que o trabalho estava no caminho certo. E a tese se provou correta.

Após a partida contra os Leões Indomáveis, Cabo Verde emendou uma sequência de cinco vitórias seguidas nas eliminatórias, sendo o último triunfo dessa sequência justamente diante da seleção camaronesa, dessa vez como mandantes.

Cabo-verdianos fazem campanha histórica no qualificatório
Cabo-verdianos fazem campanha histórica no qualificatório (Reprodução/Instagram/Federação Cabo-verdiana Futebol)

Os resultados colocaram a equipe nacional à beira da classificação para a Copa do Mundo. No entanto, o confronto contra a Líbia fora de casa ainda guardava fortes emoções. Bastava uma vitória para que os cabo-verdianos garantissem a vaga no mundial.

— A solidez defensiva que a nossa equipe vinha demonstrando deu lugar a uma série de erros evitáveis. Ao minuto 75, perdíamos por 3 a 1. O jogo virou um caos nos minutos finais: empatamos a partida e chegamos a marcar o 4 a 3 aos 96 minutos! Mas o gol foi anulado por um impedimento que não existiu. Não havia VAR e a partida terminou 3 a 3. Como Camarões venceu seu duelo contra as Ilhas Maurício, a definição da primeira colocação ficou para a última rodada do grupo –, relembrou o técnico.

Aquele resultado abalou o grupo e o próprio treinador antes da última chance de chegar ao torneio. Àquela altura, o jogo contra Essuatíni passou a ser considerado como “o jogo da vida” pelos cabo-verdianos.

Seleção de Cabo Verde durante estreia na Copa do Mundo (Foto: IMAGO / Straffon Images)
Seleção de Cabo Verde durante estreia na Copa do Mundo (Foto: IMAGO / Straffon Images)

Isso porque uma vitória colocaria o país pela primeira vez numa Copa do Mundo. No entanto, se empatassem e Camarões vencesse o seu jogo, os Tubarões Azuis terminariam na segunda colocação do grupo pelo saldo de gols.

— Tentamos proteger os jogadores e, de alguma forma, isolá-los daquela ansiedade coletiva que pairava pelo ar de Cabo Verde e que, certamente, também cruzava fronteiras ao atingir cada membro de nossa enorme diáspora. Por outro lado, também seria importante que os atletas tivessem contato com o nosso povo para liberar um pouco do estresse natural que estavam sentindo. Os ânimos só se acalmaram quando, enfim, entramos em campo para os 90 minutos que certamente seriam inesquecíveis, para o bem ou para o mal — explicou Bubista.

A partida resultou em uma vitória por 3 a 0 dos cabo-verdianos, em um momento que entrou para a história do país após a confirmação da classificação para a Copa do Mundo de 2026. Em entrevista à Fifa, o treinador relembra o significado daquele resultado para o país.

— A Copa do Mundo é uma oportunidade incrível para nosso povo e para o continente africano. Somos um país pequeno e servimos de exemplo: não importa o quanto pequeno seja o país, você pode alcançar algo importante. Sempre dissemos que a nossa qualificação para o Mundial é mais do que esportivo, é cultural, é musical, é tudo. Queremos mostrar nosso país ao mundo –, destacou.

Seleção de Cabo Verde celebra estreia na Copa do Mundo (Foto: IMAGO / PGS Photo Agency)
Seleção de Cabo Verde celebra estreia na Copa do Mundo (Foto: IMAGO / PGS Photo Agency)

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Jogar sem medo

Cabo Verde terá mais dois duros adversários no Grupo H do Mundial. O primeiro deles diante da Espanha, no qual garantiu um empate sem gols em uma partida que mostrou ao mundo a organização defensiva e a garra do elenco.

— Primeiramente dar parabéns para meus jogadores. Mostramos aquilo que é nosso país: ultrapassar dificuldades com coragem. Mostamos valentia durante o jogo. É mais do que um ponto. Independentemente de qualquer resultado, essa Copa do Mundo é para nos divertirmos (povo cabo-verdiano). Só temos que ficar felizes –, afirmou em entrevista após o histórico empate.

A postura, elogiada ao redor do mundo do futebol, vem de uma mentalidade construída ao longo de toda a campanha por parte de Bubista, que reforçou o mantra de disputar os jogos sem medo, mas também de levar alegria ao povo cabo-verdiano.

Torcedora de Cabo Verde durante estreia da seleção na Copa do Mundo (Foto: IMAGO / Crystal Pix)
Torcedora de Cabo Verde durante estreia da seleção na Copa do Mundo (Foto: IMAGO / Crystal Pix)

— Nossa ambição é competir sem medo, com a nossa identidade, e disputar os jogos com coragem para mostrar ao mundo o que somos como equipe e como país. Sabemos das dificuldades e do valor dos adversários, mas o jogo ainda é disputado dentro do campo. Nossa identidade é o que somos como um povo que enfrenta as dificuldades — reforçou em entrevista à Fifa antes do início do torneio.

— Desde o primeiro dia, eu digo que estamos aqui por eles: nosso povo tem de desfrutar do jogo e ser feliz durante a Copa do Mundo. Nós, como povo cabo-verdiano, não podemos deixar que outro povo festeje a Copa do Mundo mais do que nós. O mais importante é que nossa bandeira será içada no maior palco do futebol no mundo. Não há maior alegria do que essa para um país pequeno como o nosso. Vamos fazer de tudo para que cada cabo-verdiano dentro e fora do país sinta orgulho de nós — afirmou o comandante.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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