Copa do Mundo

‘Aquele Brasil e França era a verdadeira final da Copa do Mundo de 1986’

Ex-goleiro relembra quartas de final que terminou com classificação dos franceses sobre à seleção brasileira

Após a eliminação para a seleção brasileira na semifinal da Copa do Mundo de 1958, a França começou a construir a sua trajetória como carrasca do Brasil em 1986. No Mundial daquele ano, os Bleus eliminaram os brasileiros comandados por Telê Santana em uma partida traumática para Zico, maior craque do futebol nacional na época.

Aquele selecionado canarinho tinha boa parte dos craques de 1982, um dos conjuntos mais brilhantes da história do futebol, enquanto do outro lado estava o atual campeão da Eurocopa, dois anos antes, naquela que era a melhor geração da França até então.

Todo esse contexto fez o ex-goleiro Joël Bats, maior destaque do duelo entre Brasil e franceses em 21 de junho de 1986, finalizado com classificação europeia nos pênaltis, tratar a partida como a final antecipada daquela edição, como contou em uma longa entrevista à revista “France Football”.

— Sempre achei que a gente tinha comemorado esse jogo de forma emocional demais porque o torneio não estava terminado. […] Talvez porque a gente tinha a impressão de que esse França x Brasil era a verdadeira final da Copa do Mundo. Aliás, quarenta anos depois, as pessoas ainda só falam comigo desse jogo.

Sócrates dribla Luis Fernandez em Brasil x França em 1986
Sócrates dribla Luis Fernandez em Brasil x França em 1986 (Foto: IMAGO / Colorsport)

Bats peso de Platini em histórica partida com a seleção brasileira

A partida foi disputada no Estádio Jalisco, em Guadalajara, tratado por Bats como uma segunda casa à seleção brasileira, pois os brasileiros tinham jogado lá antes na competição, além da forte identificação da torcida mexicana com o Brasil, construída principalmente pelo tri na Copa de 1970. O ex-goleiro via aquele time de Telê Santana como mais forte defensivamente que o de 1982.

— O Brasil é um mito. Enfrentá-los nas quartas, em Guadalajara, praticamente no ‘quintal’ deles, era o jogo da vida para muitos de nós. Sabíamos que era um time diferente de 1982. Algumas estrelas estavam mais velhas, outras, como Zico, não estavam no auge. Talvez menos brilhante, mas mais sólido, não tinham sofrido gols até ali.

O início do jogo nem parecia que terminaria com final feliz para os franceses. O Brasil começou melhor, teve uma chance cara a cara com Sócrates salvada pelo goleiro e, aos 16 minutos, abriu o placar com um golaço. Uma tabelinha por dentro terminou com assistência de Júnior e batida de primeira de Careca.

— Na altitude, a bola corre a uma velocidade incrível. Eu tinha percebido isso ao chegar ao México e foi preciso se adaptar. […] Os brasileiros fazem um gol de outro planeta. […] Alguns de nós pensamos naquele momento que iríamos levar uma goleada — analisou Bats.

Müller ainda carimbou a trave pouco depois e poderia ter “matado” o jogo, mas eis que surgiu o maior craque europeu da época. Michel Platini completou cruzamento na segunda trave aos 40 e recolocou a França no jogo. O capitão bleu ainda foi decisivo com sua liderança no intervalo, apontou o ex-goleiro.

— Como sempre, Michel Platini tomou a palavra antes de voltarmos ao campo, e todo mundo escutou. Ele tinha aura, liderança, confiança, mentalidade vencedora. Mas também trazia alguma leitura de jogo, algum detalhe importante que tinha percebido. Não era só incentivo, sempre tinha algo útil ali. Eu gostava muito dele. Era uma estrela, mas sem estrelismo, totalmente comprometido com o grupo.

Platini pela seleção francesa na Copa do Mundo de 1986
Platini pela seleção francesa na Copa do Mundo de 1986 (Foto: Michel Barrault / Icon Sport)

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Goleiro frustra Zico e Sócrates e França avança na Copa do Mundo de 1986

O jogo, porém, continuou muito para a Seleção. Careca acertou o travessão antes que Zico, saindo do banco de reservas, desse um lindo passe de trivela para Branco sofrer um pênalti cometido justamente por Bats. O arqueiro se redimiu ao pegar a cobrança. Ele conta que a reação dos brasileiros o fez se concentrar ainda mais antes da batida.

— Pra gente, Zico era o ‘Pelé branco’, tinha sido o melhor jogador do mundo em 1982. No pênalti, chego atrasado e acabo tocando em Branco. Fico arrasado, pensando que a gente ia ser eliminado por minha causa. E aí eu vejo os brasileiros se abraçando, comemorando… que erro! Aquilo me tira da cabeça e me traz de volta pro jogo.

— Eu sabia que o Zico gostava de bater cruzado com o pé direito. Ele tinha acabado de entrar, não estava 100%, então provavelmente ia buscar o chute mais confortável pra ele. Não dou nenhuma pista e salto pro lado certo.

Bats ainda pararia outra tentativa de Zico, dessa vez de cabeça, e a eliminatória foi até os 120 minutos, graças à prorrogação, com chances para os dois lados. Igualada, as quartas de final da Copa do Mundo de 1986 foram para os pênaltis. O goleiro da França novamente desequilibrou, parando Sócrates com uma defesa incrível e contando com a sorte para Julio César compensar o erro de Platini com um chute para fora.

— Sendo sincero, a gente não treinava muito pênaltis naquela época. Mas eu me sentia bem. O goleiro, no fundo, tem uma vantagem: o cara que bate tem só uma chance, eu tenho várias. Na cobrança do Sócrates, eu lembrava de como ele tinha batido contra a Polônia: pouca corrida e chute cruzado. Ele fez igual, e eu fui buscar.

Apesar de uma “final” para Bats, o campeão daquela edição não saiu do jogo entre Brasil e França. Os Bleus caíram para a Alemanha Ocidental na semifinal, tendo que se contentar com o terceiro lugar ao bater a Bélgica. A Argentina de Diego Armando Maradona se sagrou a vencedora mundial em 29 de junho de 1986.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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