Copa do Mundo

[Balanço] Cinco tendências para 2018 observadas nesta Copa

Copa do Mundo é tempo de descobrir novos craques, conhecer histórias novas e se surpreender com equipes pouco acreditadas antes do início do torneio. Mas, além disso tudo, é um período que pode nos revelar muito do que vem pela frente no futebol mundial em termos técnicos e táticos, principalmente. Fazendo um exercício de análise e imaginação, separamos cinco aspectos que nos chamaram a atenção durante o Mundial e que acreditamos ter sido indícios de mudanças pelas frentes. Nenhum dos pontos levantados é uma verdade absoluta, mas apenas o início de um caminho que pode ou não ser trilhado nos próximos quatro anos, até o início da Copa de 2018.

LEIA TAMBÉM: [Balanço] Dentro ou fora de campo, as dez melhores histórias desta Copa

Brasil precisa se atualizar taticamente com urgência

Somente Felipão e Parreira veem a humilhante eliminação nas semifinais, com uma derrota por 7 a 1, como fruto de uma pane inexplicável. Há vários fatores para explicar o que levou a Seleção a sofrer tão acachapante goleada jogando em casa, e listamos diversos deles em inúmeros textos após o baile alemão; mas, para ficar na análise mais imediata da coisa, o problema do Brasil foi, não só naquele jogo como em toda a campanha nesta Copa, a falta de um bom trabalho tático. Não se exige um estilo de jogo específico para a Seleção, afinal, o modelo deve se adaptar aos recursos que o time tem, e não o contrário. No entanto, com exceção do primeiro tempo contra a Colômbia nas quartas, não vimos os comandados de Felipão com alguma estratégia tática para impor seu jogo. Não vimos a armação de uma defesa baseada nos adversários, como na Holanda de Van Gaal; não vimos a tentativa de se dominar uma partida pelo domínio do meio-campo, como na Alemanha de Löw. Pelo contrário, em grande parte do tempo o jogo ofensivo organizado brasileiro não existiu, e a ligação direta foi o recurso utilizado para tentar ameaçar os adversários.

É desse tipo de coisa que falamos. Parece faltar percepção à seleção brasileira de que não haverá triunfo sem uma maneira bem pensada de se entrar em campo. Não dá para simplesmente levar um bando de jogadores, colocá-los em campo e deixar que tudo funcione por inércia. Qualquer que seja o novo técnico brasileiro, ele terá pela frente muito mais discussões sobre isso que todos os seus antecessores. A obsolescência brasileira nesse quesito foi exposta por alemães e holandeses, e agora os pentacampeões precisarão olhar mais para os vizinhos, ver o que tem sido feito nas potências futebolísticas e, a partir disso, encontrar o que se encaixa melhor em seu futebol e adaptar isso à sua realidade.

Futebol de seleções ainda tem muito apelo

Não era novo o papo de que o futebol de seleções estava morrendo. Dentre as figuras públicas a criticá-lo, talvez a de maior destaque seja Arsène Wenger. Pelo menos desde 2007 o treinador francês criticava os jogos internacionais, defendendo que “o futebol de clubes era a modernidade, e o de seleções, o passado”. É verdade que o nível técnico da Copa de 2010, por exemplo, não ajudou em nada a defender a tese de que as competições entre os países ainda eram as mais relevantes, mas a Copa no Brasil veio para dar um refresco a tudo isso. Qualidade do futebol à parte, toda a repercussão e ansiedade prévias ao torneio já demonstravam que o futebol de seleções ainda importa muito, sim, para os torcedores.

Mesmo os torcedores ingleses mais céticos com os seus Three Lions ficaram frustrados com a eliminação precoce. Vai perguntar para um italiano se também não o aborreceu ficar de fora do mata-mata… E costarriquenhos, argelinos e colombianos? Suas campanhas históricas empolgaram como poucas vezes suas respectivas populações. Futebol de seleções tem muito apelo ainda, e o Mundial deste ano mostrou que é possível também ter jogos de encher os olhos dos espectadores. É verdade que repetir o nível desse ano será difícil em 2018, mas essa alta qualidade dos jogos certamente são um combustível para que a interação dos torcedores com suas seleções aumente nesses anos mais próximos.

Ásia e África estagnaram, enquanto a Concacaf cresceu
Jermaine Jones comemora gol de Dempsey aos 28 segundos contra Gana  (AP Photo/Petr David Josek)
Jermaine Jones comemora gol de Dempsey aos 28 segundos contra Gana (AP Photo/Petr David Josek)

Mais uma Copa se passou, e mais uma vez as seleções africanas decepcionaram. Mesmo o surgimento de um maior número de grandes jogadores no continente, atuando em grandes ligas europeias, não foi suficiente para evitar o fracasso neste ano. A que teve melhor desempenho foi a Argélia, e, convenhamos, as raposas do deserto tiveram sua vida facilitada por um fraco Grupo H. A Costa do Marfim, de Yaya Touré, Didier Droba, Gervinho e etc, mais uma vez caiu ainda na fase de grupos. A Nigéria até avançou às oitavas, mas não foi além disso e ainda protagonizou uma das partidas mais sofríveis desta Copa, contra o Irã.

Falando em Irã, o que dizer dos asiáticos? É claro que nunca houve uma grande expectativa sobre eles, mas seu desempenho também não tem melhorado com o passar do tempo. Até o Japão, com alguns nomes destacáveis individualmente, não conseguiu encontrar o seu jogo coletivo e fez feio no Mundial. Shinji Kagawa, Keisuke Honda, Yuto Nagatomo, Shinji Okazaki… Talvez tenha sido a melhor geração que já vimos surgir na Terra do Sol Nascente, mas que não teve utilidade nenhuma na fraquíssima campanha em 2014. A Coreia do Sul, que com a ajuda da arbitragem chegou às semifinais em 2002, tinha apenas Son Heung-Min de qualidade no elenco neste ano, e o restante era bastante sofrível. E a tendência para times asiáticos não é de melhora para os próximos anos.

Na contramão disso tudo, as equipes da Concacaf foram muito bem e mostraram que suas reclamações quanto ao número de vagas talvez sejam defensáveis. Apenas quatro equipes das Américas do Norte e Central foram à Copa: Honduras, Estados Unidos, México e Costa Rica. Dessas, só a primeira teve campanha considerada ruim. Os americanos deixaram Portugal para trás no Grupo G e acabaram eliminados pela Bélgica na prorrogação das oitavas; os mexicanos por um bom tempo estiveram vencendo a Holanda e se classificando às quartas, mas levaram a virada nos minutos finais; e os costarriquenhos tiveram a campanha mais surpreendente deste Mundial, avançando em primeiro no grupo da morte dos campeões mundiais e chegando às quartas de final, sendo despachados apenas nos pênaltis pela Oranje.

LEIA TAMBÉM: [Balanço] Dez jogos desta Copa que ficarão na memória

As Américas se aproximam da Europa em nível técnico

Aos mesmo tempo em que a boa participação da Concacaf na Copa ajuda na hora de pleitear por mais vagas nas próximas Copas do Mundo, as campanhas fracas dos Europeus em geral torna difícil fazer a defesa da manutenção das coisas como estão no momento. As últimas duas edições mostraram uma queda na diferença técnica entre os times do Velho Continente e os das Américas. Se em 2006 dez europeus chegaram às oitavas, em 2010 e 2014 esse número caiu significativamente para apenas seis. As Américas, que por situação excepcional, tiveram dez representantes, avançaram oito desses para a segunda fase, com apenas Equador e Honduras caindo na fase de grupos.

Se, hoje, Concacaf e Conmebol se juntassem em uma só confederação teriam direito a apenas nove vagas, o que, em comparação às 13 da Europa, seria muito pouco. Talvez seja o caso de, não exatamente dar mais vagas à América do Sul, mas pelo menos rever os números das Américas do Norte e Central e também as da Uefa. Pelos últimos torneios, os europeus não têm demonstrado merecimento de tanto espaço, tanto é que, diante da pressão de, principalmente, Ásia e África por mais vagas, Platini já acenou para a ideia de aumentar o número de equipes na Copa do Mundo. Respaldada por resultados, a Concacaf, que nunca teve muito poder político, poderá entrar também nessa briga e demandar mais espaço.

Jogar com três zagueiros não é necessariamente defensivo

Van Gaal Robben

Se tem um esquema que é sinônimo de retranca aqui no Brasil é o 3-5-2. “Três zagueiros? Quer fazer gol como desse jeito?”, perguntaria de maneira nada educada ao treinador de seu time o torcedor fanático de algum clube brasileiro. Pois Louis van Gaal mostrou como. Coloque dois jogadores aplicados nas pontas, dispostos a abdicar completamente do ataque quando estiverem sem a bola, e seu ferrolho parcial está armado. No entanto, tome a posse da bola e libere a subida desses jogadores. Eles não precisam ficar fixos em um meio termo de defesa e ataque, como normalmente ocorre no 3-5-2, mas, sim, se adaptando rapidamente às circunstâncias do jogo.

Em maior parte da campanha de terceiro lugar da Holanda neste ano, Van Gaal entrou com três zagueiros em campo e mesmo assim atacou constantemente seus adversários. Daley Blind e o veterano Dirk Kuyt que jogavam nos flancos. Funcionou para a Oranje pela aplicação desses dois, e isso é essencial para que venha a triunfar em outros times também. Ao mesmo tempo, os três zagueiros precisam ter ótima aplicação tática. Sem a bola, a Holanda chegava a fazer a linha de cinco defensores, com Vlaar solto para fazer uma marcação individual no jogador mais perigoso do adversário.

VOCÊ PODE SE INTERESSAR TAMBÉM POR: 

[Legado] A Copa mostrou: não precisa ter (tanto) medo, amigo

[Legado] Ir ao jogo não precisa ser um sacrifício

[Balanço] Os dez jogadores que mais se valorizaram na Copa

 

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo