Copa do Mundo

Apesar da eliminação, é marcante que o primeiro gol do Canadá em Copas seja de Alphonso Davies – o talento que simboliza tanta coisa

Alphonso Davies é a referência do Canadá por bola, por orgulho e por exemplo, quem sabe para liderar um florescer ainda maior da seleção rumo a 2026

O Canadá se deu o direito de sonhar. Primeiro, ao se classificar a uma Copa do Mundo depois de 36 anos, quando muitos esperavam que a presença no Mundial acontecesse apenas em 2026. Os Canucks foram a grande sensação das Eliminatórias. E, como melhor time da Concacaf, houve instantes de sonho no Catar. A estreia contra a Bélgica teve superioridade dos canadenses, mas não vitória. Já diante da Croácia, a equipe de John Herdman conseguiu seu gol num relâmpago, mas perdeu muita intensidade e acabou goleada por um adversário mais qualificado. A derrota por 4 a 1 culmina na eliminação, dentro da chave que se mostra a mais nivelada da Copa. O alento dos canadenses é pequeno diante da impressão de que até dava para ser melhor. Mas não deixa de ser marcante que o primeiro gol em Copas venha de Alphonso Davies, o craque que simboliza essa ascensão.

A transformação do Canadá, antes um eterno coadjuvante que sequer chegava às fases finais das Eliminatórias, dependeu da geração atual. A maior parte da base titular do técnico John Herdman sequer participou da fraca campanha no qualificatório para a Copa de 2018. Mais do que isso, alguns sequer tinham se profissionalizado. Não era o caso de Davies, mas na época ele não passava de uma promessa ganhando as primeiras oportunidades no Vancouver Whitecaps. Tinha somente 17 anos e sequer era lateral esquerdo, numa adaptação que aconteceu exatamente com o treinador dos Canucks.

Quatro anos são muito tempo para um jovem jogador de 22 anos. A ascensão de Alphonso Davies rumo ao Bayern de Munique fala por si, estelar inclusive numa conquista de Champions League. O Canadá se beneficiou da estrela do garoto, mas não só dele. Se alguns colegas na Baviera riam quando o lateral falava que levaria os Canucks à Copa, ele sabia que tinha companhia para isso. Foi a mescla de outras referências em crescimento com veteranos da equipe nacional que impulsionou os canadenses no atual ciclo, potencializados por um técnico ótimo. Sem muitas dúvidas, a seleção canadense foi a que mais cresceu de patamar da Rússia ao Catar.

Alphonso Davies cumpriu suas palavras. O garoto que surgiu como uma promessa na Copa Ouro de 2017 se firmou como a liderança técnica do Canadá que deslanchou nas Eliminatórias. E isso porque teve problemas físicos que custaram algumas partidas de ausência. Contusões de tornozelo e de joelho se encadearam, enquanto uma miocardite o deixou meses afastado dos gramados enquanto cuidava do coração. O desfalque acabou se tornando “positivo”, por vias tortas, ao Canadá. Os Canucks mostraram que não existia uma “Daviesdependência”. E, fora de campo, o astro enfatizou outra face dessa geração canadense.

É um time formado por múltiplas nacionalidades e que se orgulha dessas origens, assim como não deixa de ser apaixonado pelo país que os acolheu. Esse ardor de Davies era expresso em suas lives gravadas enquanto, se recuperando da miocardite, assistia aos jogos da seleção e vibrava demais com os feitos dos companheiros. Há um ambiente especial nesse vestiário canadense. Isso embalou a caminhada até a Copa do Mundo, reforçou os laços com os próprios torcedores e garantiu olhares especiais no Catar. Os Canucks não eram só uma equipe, mas uma grande história.

E o exemplo de Davies se destaca ainda mais nisso. Impossível não se sensibilizar com a caminhada do garoto filho de liberianos que nasceu num campo de refugiados em Gana, mas acabou acolhido num programa social do Canadá. A mudança era brutal, rumo à gélida Edmonton. Seu próprio bônus pela presença na Copa vai para instituições de caridade. Impossível não torcer para um cara como ele.

Por isso mesmo, o pênalti perdido contra a Bélgica não doeu só nos canadenses. Davies até se recuperou na partida e contribuiu para a superioridade do Canadá, mas aquela bola defendida por Thibaut Courtois fez falta. Já neste domingo, diante da Croácia, a redenção de Davies parecia preparada. Com menos de dois minutos, surgiu como um raio na área para abrir o placar. A execução do cruzamento de Tajon Buchanan foi perfeita, assim como a leitura da jogada feita pelo ala esquerdo. Entrou em velocidade na área e desferiu uma cabeçada fatal. Finalmente assinalou o primeiro gol canadense na história dos Mundiais e parecia pronto a auxiliar no primeiro ponto. Ainda teve a poesia (e a ousadia) de comemorar com um salto e um soco no ar, no que mais pareceu uma homenagem a Pelé.

Não foi assim que aconteceu. Canadá caiu muito de ritmo na sequência do primeiro tempo e a fragilizada defesa estava exposta. Não fossem as boas intervenções de Milan Borjan, o resultado até poderia ser pior. Davies ainda teve seus lampejos, com direito a caneta e algumas boas jogadas ofensivas, embora também tenha pecado por perdas de bola frequentes. Fato é que os canadenses produziram bem menos que na estreia e a derrota, desta vez, era plenamente compreensível.

O Canadá ainda terá mais uma oportunidade de conquistar seu ponto na Copa do Mundo e se despedir com um resultado mais condizente com os bons sinais dados no Catar. Fosse em outra chave, no lugar dos EUA no Grupo B ou do México no Grupo C, não surpreenderia se os Canucks até tivessem vencido. Fato é que a eliminação veio por antecipação e cabe aos canadenses prepararem terreno rumo a 2026. Quatro anos são mais que suficientes para formar ainda mais talentos, especialmente depois do boom ao redor do futebol que o país experimentou nesses últimos anos. Uma garotada boa deve ter começado a se provar nos gramados, e há mais condições inclusive dos clubes locais os absorverem, entre os representantes da MLS e a recém-criada liga profissional local.

As decepções de 2022 talvez auxiliem o Canadá a voltar mais preparado e mais cascudo para o Mundial parcialmente realizado dentro de casa. E parece praticamente certo que Davies estará por lá. Por qualidade e por liderança, o camisa 19 já tem um lugar muito grande na história do futebol canadense. É justo que o primeiro gol seja seu e mais justo ainda se ele puder construir um legado maior em outras Copas. Quem ganha não é só ele ou o futebol do Canadá, mas tanta gente que é acolhida por seu exemplo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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