Copa do Mundo 2026

Alemanha x Paraguai: Favorita chega pressionada, e paraguaios veem chance de desafiar a lógica

Derrota para o Equador reacendeu desconfiança sobre os alemães, enquanto seleção de Gustavo Alfaro aposta na organização para buscar a classificação

A fase eliminatória costuma mudar o clima de qualquer Copa do Mundo. O que foi construído na fase de grupos passa a servir apenas como referência, já que um erro pode significar o fim da caminhada. É justamente nesse cenário que Alemanha e Paraguai se encontram nesta segunda-feira (29), às 17h30 (de Brasília), em Boston, valendo vaga nas oitavas de final.

De um lado, uma das seleções mais tradicionais do futebol mundial, favorita pelo peso da camisa e pela qualidade do elenco, mas pressionada por um passado recente decepcionante e por uma derrota inesperada diante do Equador. Do outro, um Paraguai que ainda não convenceu no torneio, mas que chega embalado por um ciclo de reconstrução capaz de alimentar a esperança de surpreender.

A classificação alemã veio com o primeiro lugar do Grupo E, mas o tropeço por 2 a 1 contra os equatorianos, na última rodada, mudou bastante a percepção sobre a equipe de Julian Nagelsmann. Se até então a Alemanha transmitia confiança após golear Curaçao por 7 a 1 e buscar uma vitória de personalidade sobre a Costa do Marfim por 2 a 1, a derrota expôs fragilidades que rapidamente recolocaram dúvidas em torno da seleção.

A derrota que reacendeu antigos fantasmas na Alemanha

Seleção alemã perfilada
Seleção alemã perfilada (Foto: Bahho Kara / Kirchner-Media / Imago)

O resultado adverso teve pouco impacto na tabela, já que a liderança estava garantida, mas pesou no aspecto psicológico. Afinal, a Alemanha ainda convive com o trauma das eliminações precoces nas Copas de 2018 e 2022, quando sequer conseguiu superar a fase de grupos. A boa campanha inicial parecia indicar que o cenário finalmente havia mudado. Bastou um revés para que críticas voltassem a ganhar força.

A atuação diante do Equador reforçou preocupações que não haviam aparecido nos primeiros compromissos. Depois de abrir o placar, a equipe perdeu intensidade, passou a errar com frequência na saída de bola e permitiu que o adversário assumisse o controle das ações. A postura excessivamente reativa chamou atenção justamente porque, em um mata-mata, situações semelhantes dificilmente oferecem margem para recuperação.

Nagelsmann atribuiu parte do revés ao elevado número de bolas perdidas e considerou que o primeiro gol equatoriano nasceu em um lance de certa dose de felicidade do rival. Ainda assim, a imprensa alemã direcionou críticas tanto às escolhas do treinador quanto ao rendimento físico da equipe.

A gestão do elenco, com mudanças entre titulares e reservas durante a partida, também entrou no debate, sob o argumento de que a prioridade teria sido preservar jogadores, e não garantir o resultado.

Ainda assim, há um aspecto que pode jogar a favor da Alemanha. O alerta aconteceu em um momento em que a derrota ainda era administrável. Agora, sem margem para novos tropeços, a tendência é de uma equipe mais concentrada, menos exposta defensivamente e consciente de que qualquer desatenção pode custar caro.

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Favoritismo alemão contra o Paraguai depende de um aspecto

Julian Nagelsmann ao lado de seus auxiliares no banco de reservas da Alemanha
Julian Nagelsmann ao lado de seus auxiliares no banco de reservas da Alemanha (Foto: Uwe Kraft / Imago)

Mesmo pressionada, a Alemanha continua entrando em campo como favorita. A diferença técnica entre os elencos permanece significativa, principalmente pela quantidade de jogadores acostumados ao mais alto nível do futebol europeu. Além disso, o modelo de jogo de Nagelsmann privilegia posse de bola, intensidade ofensiva e ocupação constante do campo rival, características que costumam sufocar seleções de menor investimento técnico.

O desafio será transformar esse domínio territorial em segurança. Contra o Equador, o problema não foi apenas a derrota, mas a forma como ela aconteceu. A equipe perdeu o controle emocional da partida quando sofreu o empate e encontrou dificuldades para responder à pressão adversária.

Esse aspecto ganha ainda mais importância porque o Paraguai deve apresentar um cenário semelhante ao enfrentado pelos equatorianos, embora com características diferentes. Os sul-americanos dificilmente disputarão posse de bola por longos períodos. A estratégia tende a passar por linhas compactas, pouca concessão de espaços entre defesa e meio-campo e aposta nas transições rápidas sempre que recuperar a bola.

Para a Alemanha, paciência será tão importante quanto qualidade técnica. A ansiedade para resolver rapidamente pode favorecer justamente o plano do adversário, que tentará transformar cada erro alemão em oportunidade de contra-ataque.

Paraguai aposta na organização e no espírito competitivo para desafiar a lógica

Seleção paraguaia perfilada
Seleção paraguaia perfilada (Foto: Matthew Huang / Icon Sportswire / Imago)

Se a campanha na fase de grupos da Copa ficou abaixo da expectativa criada durante as Eliminatórias, o Paraguai chega ao mata-mata sem carregar o peso do favoritismo. Depois de sofrer uma goleada por 4 a 1 para os Estados Unidos na estreia, a equipe reagiu com uma vitória por 1 a 0 sobre a Turquia e garantiu a classificação ao empatar sem gols com a Austrália, avançando como uma das oito melhores terceiras colocadas.

O desempenho, entretanto, esteve distante daquele que levou a seleção de volta ao Mundial após 16 anos de ausência. Sob o comando de Gustavo Alfaro, o Paraguai construiu sua recuperação justamente pela consistência defensiva, competitividade e capacidade de reduzir espaços, características que nem sempre apareceram na fase de grupos.

Após o empate contra a Austrália, o treinador fez uma análise contundente sobre as limitações estruturais do futebol paraguaio. Alfaro ressaltou a diferença de hierarquia em relação às principais seleções, lembrando que poucos jogadores atuam nas grandes ligas europeias e que muitos atletas sequer conseguem se firmar em campeonatos como os do Brasil e da Argentina.

Para ele, esse desequilíbrio técnico acaba aparecendo naturalmente em competições de altíssimo nível, onde intensidade, velocidade e tomada de decisão acontecem em outro patamar.

Ao mesmo tempo, o técnico reforçou que conhece exatamente as limitações do elenco e que o Paraguai chegou até ali competindo acima das expectativas. O discurso também serve para diminuir a pressão sobre seus jogadores e fortalecer a identidade construída durante o ciclo classificatório.

Dentro de campo, dificilmente haverá mudanças radicais. A tendência é de um Paraguai bastante compacto, disposto a defender durante boa parte da partida e esperando o momento certo para acelerar pelos lados do campo ou explorar erros na construção alemã.

Embora o favoritismo esteja claramente do lado da tetracampeã mundial, o confronto reúne ingredientes que impedem qualquer excesso de confiança. A Alemanha entra pressionada para provar que a derrota para o Equador foi apenas um acidente de percurso e que, desta vez, está preparada para voltar a disputar as fases decisivas de uma Copa do Mundo.

Já o Paraguai encara o mata-mata como a oportunidade perfeita para transformar uma campanha discreta em uma das grandes histórias do torneio.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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