A última dança caminhava para um fim trágico até que Messi fez o que Messi faz: decidiu
Um dia depois do aniversário de dois anos da morte de Diego Maradona, Messi deixou claro que ainda não está pronto para encerrar sua história na Copa do Mundo
Dizem que o Brasil é a única seleção que perde Copa do Mundo. As outras a disputam. O mesmo se aplica a Messi. Desde que entrou no panteão dos maiores da história, parece que corre contra o relógio, como se tivesse pendurada em sua parede uma contagem regressiva de oportunidades que o encara todas as noites antes de dormir. Não é uma cobrança exagerada. Craques do seu tamanho que tiveram a sorte de nascerem em países competitivos, no geral, conquistaram o Mundial. Maradona pela própria Argentina. Mas a sua última dança estava caminhando para um fim trágico, não apenas por ser a última chance, mas por ser uma das melhores, até que Messi fez o que Messi faz. Messi decidiu.
É verdade que nem sempre o fez na Copa do Mundo. Sua história na competição é tão longa quanto acidentada. Era um garoto em 2006 e não tinha técnico (que Maradona me perdoe, mas não tinha) em 2010. Quando encontrou um ambiente minimamente organizado, liderou a Argentina à decisão, e aquele chute cruzado no Maracanã é um quadro tão presente quanto a quantidade de chances que lhe restam. A Rússia foi outra tragédia e parecia que havia sido a última oportunidade real porque, na Copa América do ano seguinte, era um craque insulado entre veteranos e quem é aquele ali mesmo? Lionel Scaloni era um interino. Não ofereceu resistência ao Brasil no Mineirão.
Mas o futebol decidiu que ele merecia mais uma oportunidade. A seleção argentina desenvolveu-se em uma velocidade até mágica sob o comando de Scaloni. Aquela companhia que parecia fraca ficou bem mais qualificada. Rodrigo de Paul e Leandro Paredes cresceram e se tornaram uma forte dupla de volantes. Lautaro Martínez é um dos melhores centroavantes do mundo. A defesa, sempre um problema, ganhou Cristian Romero, Lisandro Martínez e laterais competentes. Até um grande goleiro surgiu. Se não apareceu nenhum novo Javier Mascherano para compartilhar a liderança com Messi, que nem sempre é o jogador mais sanguíneo em campo, ele fazia parte de um sistema coeso e tinha com quem dialogar.
A Argentina chegou ao Catar com expectativas. E leve. E com um Messi leve. O jejum de títulos encerrou-se com vitória sobre o Brasil na última Copa América. A Itália foi derrotada em Wembley na Finalíssima. Foram 36 jogos de invencibilidade e… perdeu para a Arábia Saudita na estreia. Um acidente de percurso? Talvez. Messi foi muito mal naquele jogo, embora tenha tido uma chance logo no começo e marcado de pênalti. Não liderou, nem na parte técnica e nem na motivacional, um time que havia claramente perdido o rumo. O efeito cascata foi a pressão que o tropeço gerou para o segundo jogo. Era tudo ou nada. Uma derrota significava a eliminação. Um empate, que durante tanto tempo parecia inevitável, a deixava em situação muito desconfortável. A tensão foi palpável durante mais de uma hora em Lusail.
Tata Martino – o técnico que Messi contatou para o Barcelona – fechou o México. Linha de cinco. Cada enxadada uma minhoca. Era clara a estratégia de jogar o peso da situação para cima da Argentina. E isso até meio que funcionou no primeiro tempo porque absolutamente nada aconteceu. Os sul-americanos tiveram uma finalização, com Lautaro Martínez, aos 41 minutos. Messi não sabia exatamente o que fazer, se recuava para buscar jogo, se tentava receber entre as linhas para partir para cima, se aproximava-se da área para finalizar. Logo depois do intervalo, teve uma falta perigosa. Isolou.
Seria um jogo nervoso para qualquer país e foi ainda mais para a Argentina que, para o bem e para o mal, não costuma aplicar filtros ao que está sentindo. A alegria é muito alegre. A tristeza é muito triste. O nervosismo é uma angústia. E o alívio, bom… a diferença entre craques e o resto é que às vezes eles precisam apenas de um centímetro, um segundo, um momento de inspiração. Di María sabe disso porque o procurou. Não era o passe mais óbvio. Messi dominou um passo para trás do semi-círculo e bateu rasteiro de perna esquerda. Não foi aquele chute colocado característico. Não foi com finesse. Foi com contundência e senso de propósito, uma bala rasteira para superar a mística de Ochoa.
E então estava tudo resolvido. O México não havia entrado em campo para ganhar, mas para castigar a Argentina. No momento em que isso não era mais possível, não apresentou plano B. Messi ainda rolou para Enzo Fernández fazer o segundo, um golaço. A vitória não classifica a Argentina, nem era isso que ela estava buscando. Buscava perdão pela primeira rodada, buscava redenção – como Messi durante seus primeiros 15 anos pela seleção, sem ter certeza do crime que cometeu. A comemoração com a torcida ao apito final mostrou o quanto significativo foi aquele resultado.
Um dia depois do aniversário de dois anos da morte de Diego Maradona, no jogo em que igualou o número de jogos em Copas do Mundo do craque de 1986, Messi deixou muito claro que ainda não cansou de dançar.



