Copa do Mundo

A seleção francesa sempre foi feita por imigrantes, e já refletiu diferentes misturas no país

História da seleção francesa é marcada pelos diferentes grupos de imigrantes que passaram pelo país, muito antes de 1998

A face da França multicultural está expressa no elenco que disputa a Copa do Mundo de 2018. Didier Deschamps comanda um grupo miscigenado, que se lapidou principalmente a partir de filhos dos imigrantes que buscaram melhorar as suas condições de vida no país europeu, dentre os quais muitos saíram das antigas colônias francesas, mas não apenas. Há sangue alemão e português em Antoine Griezmann, há sangue camaronês e argelino em Kylian Mbappé, há sangue congolês e angolano em Blaise Matuidi. Samuel Umtiti nasceu em Camarões, Thomas Lemar nasceu em Guadalupe, Steve Mandanda nasceu na República Democrática do Congo. O elenco possui ainda descendentes de haitianos, martinicanos, guineenses, italianos, senegaleses, malineses, mauritanos, togoleses, marroquinos, argelinos, espanhóis e filipinos. Contam-se nos dedos (de uma mão) aqueles que não têm pais ou avós que saíram de outras regiões do mundo.

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O que se vê em campo é uma realidade escancarada da demografia da França. A miscigenação, contudo, pode ser adaptada a diferentes tipos de discursos. A quem se aproveitará de uma eventual derrota na final e, como já fez parte de posicionamentos extremistas no país, ressoará a xenofobia; ou àqueles que defenderão a mistura como um elemento essencial no sucesso dos Blues nos gramados russos, assim como já havia acontecido há 20 anos atrás.

Fato é que a multinacionalidade da seleção francesa não é uma novidade desta Copa ou mesmo de 1998. Ela está presente ao longo das participações dos Bleus no Mundial. Nada mais é do que um reflexo da sociedade local, que possui as suas aberturas, como diferentes nações do planeta, assim como possíveis incongruências e preconceitos. O crescimento da equipe nacional está ligado a este passado de migrações, de trabalhadores que vinham em busca de suas oportunidades. Desde 1930, as convocações sempre acabam reverberando estas ondas migratórias importantes. E se a presença de jogadores com diversas origens é ampla no atual elenco, indica a marca de um setor da população que aumentou com o passar das décadas, assim como viu seus filhos e netos fincando raízes no território francês.

As ondas de migração rumo à França

A noção de cidadania francesa surge a partir da Revolução de 1789. Ainda assim, é apenas no século seguinte que acontece o primeiro grande movimento migratório da Idade Contemporânea em direção ao país. A partir de 1850, cresce o número de italianos, suíços, belgas, espanhóis e alemães, buscando melhores condições de trabalho em uma nação com boas condições econômicas e vivendo a sua revolução industrial. Nas décadas finais do Século XIX, sobe também a quantidade de judeus, poloneses e outros povos que buscavam sua afirmação, mas não tinham estados próprios. Por outro lado, concomitantemente a França expandia o seu império ultramarino, sobretudo por suas colônias na África, no Caribe e no Pacífico. O trânsito de pessoas naturalmente aumentou, de imigrantes rumo à metrópole europeia e de franceses às colônias, especialmente no Magrebe.

A partir do Século XX, há diferentes aspectos na migração rumo à França. Um deles é a presença das elites intelectuais que partem à vida efervescente das grandes cidades francesas, sobretudo Paris, embora representem uma minoria neste movimento migratório. Há também etnias que buscam o refugio no país, com menção notável aos armênios, em meio à perseguição e ao genocídio cometido pelos turco-otomanos. E ocorre a chegada de massas para lutar na Primeira Guerra Mundial. Entre os combatentes, estão dezenas de milhares de migrantes recrutados no Magrebe, na costa da África, na Indochina e em outros territórios ultramarinos.

Após a Primeira Guerra Mundial, se desenrola a segunda grande onda migratória na França. O estado passa a recrutar trabalhadores de outros países para reconstruir as suas cidades, em meio à devastação causada pelo conflito. Nesta leva, há um grande número de trabalhadores poloneses, húngaros, tchecoslovacos e de outras etnias do leste da Europa. Além disso, entre as décadas de 1920 e 1930, também existe uma quantidade considerável de refugiados políticos que se mudam ao território francês. São russos, alemães, italianos, espanhóis, belgas e membros de nações que passam a conviver com o extremismo político e o totalitarismo em suas pátrias. Já as colônias de indochineses, magrebinos e africanos subsaarianos ganham representatividade na metrópole, se afirmando a partir de instituições próprias.

Vale dizer, entretanto, que nem tudo eram flores nesta abertura francesa a estrangeiros. Casos de xenofobia e antissemitismo existiam, se evidenciando principalmente na década de 1930, sob os efeitos da Grande Depressão. O próprio governo francês criou leis que limitavam os postos de trabalho a estrangeiros e os impediam de exercer certas profissões, como a medicina e o direito. Até o fim da Segunda Guerra Mundial, diante das mudanças no centro do poder, a legislação francesa oscilaria entre a abertura e o recrudescimento de direitos aos migrantes. E ao final do conflito, novamente em busca da reconstrução do país, ocorreria a terceira grande onda migratória na França, aproveitando a prosperidade que se instaurou até meados da década de 1970.

Além dos grupos de migrantes ligados às colônias ultramarinas, sobretudo os magrebinos, inciam-se repatriações massivas de franceses, com a descolonização nas décadas de 1950 e 1960. Há também novas ondas de trabalhadores de outras nações da Europa, sobretudo de portugueses, que fugiam da ditadura salazarista. A crise do petróleo nos anos 1970 levou o governo francês a impor limitações sobre a imigração, até que que na década de 1980 houvesse uma regularização massiva dos estrangeiros que viviam na França. No mesmo período, fluxos consideráveis vinham principalmente das antigas colônias na África, assim como das possessões ultramarinas que permaneciam sob controle do estado francês, no Caribe e na Polinésia. Não à toa, nestes grupos, estavam os pais de muitos dos jogadores que disputaram a Copa do Mundo com a seleção francesa a partir de 1998. Os reflexos disso, afinal, apareceriam nos Bleus e as discussões se tornariam ainda mais pertinentes em meio à realidade dos anos 1990, entre globalização, desemprego, trabalho clandestino e outras questões inerentes. É quando o futebol passa também ao cerne do debate.

Apesar da efervescência da discussão recente quanto aos filhos e netos de imigrantes, presentes na Copa, e mesmo diante do tratamento errado como “estrangeiros” dado a alguns jogadores, a quem vê o tema apenas superficialmente, a legislação francesa é bastante clara quanto aos seus termos de pertencimento. Desde 1889, a segunda geração de imigrantes – ou seja, aqueles que nasceram em território francês – pode se naturalizar assim que alcança a maioridade. A lei atual concede ampla abertura aos filhos de pais nascidos nas antigas colônias, assim como permite a cidadania com cinco anos de residência no país, entre diferentes adaptações quanto à idade no momento do pedido. Já quem nasceu fora da França pode reivindicar a naturalização a partir dos 18 anos, desde que tenha vivido ao menos cinco anos nos territórios franceses.

A história da seleção através dos filhos de migrantes

Feito este apanhado histórico, fica mais fácil de mostrar como a França sempre foi uma seleção de sangue imigrante, mesmo que estes não compusessem necessariamente a maioria do elenco e a maioria absoluta dos jogadores já fossem descendentes daqueles que buscaram a vida no novo país. Ter este caráter múltiplo nada mais é do que uma característica da demografia francesa que se reflete no futebol. Considerando ainda o ambiente naturalmente integrador do esporte, e o seu papel como ferramenta de ascensão social, este processo se tornou paulatino. Assim, os Bleus contaram com o talento de diferentes cantos para triunfar desde a Copa do Mundo de 1930.

O primeiro capitão da França em uma Copa era Alexandre Villaplane, de origem na metrópole, mas nascido na Argélia. Outro a vir da colônia era o atacante Ernest Libérati, descendente dos italianos que deixaram o seu país em busca de trabalho. Já em 1934, o time treinado pelo inglês George Kimpton tinha mais sobrenomes estrangeiros. O ponta Alfred Aston era filho de pai inglês e mãe francesa. Joseph Alcazar e Joseph Gonzalez possuíam ascendentes espanhóis. Fritz Keller e Pierre Korb, de raízes germânica, nasceram no disputado território da Alsácia. Já o defensor Jules Vandooren possuía laços belgas, de uma cidade na fronteira entre os países.

Quando sediou o Mundial em 1938, a França contava com dois símbolos grandes da miscigenação de além-mar. A defensa contava com Abdelkader Ben Bouali, de origem árabe, como o sobrenome evidenciava. Nascido na atual Argélia, ascendeu de uma família rica para o futebol. Era um caso parecido ao de Raoul Diagne, seu companheiro na linha defensiva, primeiro jogador negro a vestir a camisa dos Bleus. O atleta do Racing de Paris nasceu na Guiana Francesa, no seio de uma família influente de origem senegalesa. Seu pai era Blaise Diagne, primeiro deputado negro da Assembleia Nacional e posteriormente Ministro das Colônias, além de ativista pelos direitos dos africanos. O político desejava que Raoul seguisse seus passos na vida pública, mas o jovem preferiu o futebol. Conhecido como o “Aranha”, era aclamado pela técnica e pelo refinamento. Também foi um dos ativistas em prol da adoção do profissionalismo no futebol francês em 1932, o que ajudou a derrubar elitismos e a abrir de vez as portas a jogadores de origens mais humildes. Depois de se aposentar, virou o primeiro técnico da seleção de Senegal pós-independência, já na década de 1960.

A seleção francesa de 1938, de qualquer forma, ia além de Diagne e Ben Bouali. Hector Cazenave era uruguaio de nascimento e mudou-se a Sochaux por causa do futebol, assim como fez o austríaco Auguste Jordan. Julien Darui tinha antepassados portugueses e italianos, nasceu em Luxemburgo e mudou-se à França na onda migracional após a Primeira Guerra Mundial. Mario Zatelli e Laurent Di Lorto eram de origem italiana, enquanto Oscar Heisserer nasceu na então cidade alemã de Estrasburgo. Além disso, também despontaram os dois primeiros atletas de raízes polonesas. Martin Povolny e Ignace Kowalczyk vieram ao mundo entre 1913 e 1914, no oeste da Alemanha – já parte de uma grande colônia de trabalhadores poloneses, concentrados no Renânia do Norte-Vestfália, zona industrial e rica em minas de carvão. Ainda na juventude, mudaram-se à França.

A seleção francesa teria que esperar 16 anos para disputar uma nova Copa do Mundo, em 1954. Todavia, não conseguiu levar ao torneio na Suíça um dos maiores talentos do futebol surgidos na década de 1940. Larbi Benbarek nasceu no Marrocos e trabalhava como faxineiro em sua terra, ganhando uma oportunidade no futebol muito graças à adoção do profissionalismo, reconhecido por sua qualidade acima das origens humildes. Transformou-se no primeiro negro africano a desfrutar da aclamação ao redor da Europa. Disputou o seu primeiro jogo pelos Bleus em dezembro de 1938, quando despontava pelo Olympique de Marseille. Depois, se consagraria ainda com a camisa do Atlético de Madrid, mas, em fim de carreira, não esteve presente na lista final ao Mundial de 1954. Foi mais um símbolo desta miscigenação.

Mesmo sem Benbarek, a França de 1954 contou com outros jogadores nascidos nas colônias. Abdelaziz Ben Tifour foi mais um pioneiro a sair do Magrebe para a França, a partir da Argélia. Abderrahmane Mahjoub veio do Marrocos com 15 anos, mudando-se justamente para jogar futebol na metrópole. Já Xercès Louis era da Martinica, outro pinçado pelo esporte. Entre os originários das demais nacionalidades europeias, foram convocados o descendente de italianos Lazare Gianesse, o filho de um agricultor espanhol Claude Abbes e o germânico Ernest Schultz, nascido na fronteira com a Alemanha. Além disso, os filhos de poloneses definitivamente se tornavam destaque com César Ruminski, Guillaume Bieganski, León Glovacki e Raymond Kopaszewski, todos já nascidos em território francês.

Kopa não brilhou em 1954, mas seria o responsável por conduzir o time à semifinal na Copa de 1958, conquistando a Bola de Ouro meses depois. Ele era da segunda geração de poloneses na França. Seus avós paternos deixaram a Polônia após a Primeira Guerra Mundial e seu pai tinha 13 anos quando chegou ao novo país, se casando com uma descendente de poloneses. A família se instalou no norte francês e encontrou oportunidades nas minas de carvão. Não muito afeito à escola, com dificuldades de aprender em francês por causa do polonês corrente em casa, Raymond viu uma chance através do futebol. Ainda trabalhou nas minas após a Segunda Guerra e chegou a amputar o dedo indicador da mão esquerda por um acidente de trabalho, mas deslanchou graças à bola, sobretudo vestindo a camisa do Stade de Reims.

No time que viajou à Suécia, Kopa tinha a companhia de Maryan Wisnieski, outro de origem polonesa. Era amigo de infância de Roger Piantoni, de raízes italianas como Bernard Chiarelli. O “espanhol” Claude Abbes continuava no gol. Já os familiares de Kazimir Hnatow vieram da região onde fica a atual Ucrânia, antes que o rebento nascesse. Por conta dos conflitos em meio à descolonização da África, os argelinos que povoavam os Bleus nos anos anteriores se tornaram desfalques, especialmente aqueles que passaram a formar o time da Frente de Libertação Nacional. A equipe divulgava a luta pela independência argelina em diversos cantos do mundo e se tornou o embrião da seleção local. Assim, o principal representante do Magrebe na seleção francesa de 1958 seria Just Fontaine, filho de pai francês, funcionário da indústria estatal de tabaco, e mãe espanhola, nascido em Marraquexe. O atacante iniciou sua carreira no Marrocos, antes de seguir ao Nice quando tinha 20 anos.

Capitaneada por Marcel Artelesa, de origem basca, a França na Copa de 1966 voltou a contar com jogadores de ascendência alemã, polonesa e italiana. Mas havia três casos especiais. Nestor Combin e Héctor De Bourgoing nasceram na Argentina, descendentes de franceses. Enquanto o primeiro iniciou sua carreira profissional no país dos antepassados, o segundo migrou à Europa já como um atleta renomado. E a defesa contava com Jean Djorkaeff, filho de uma polonesa com camulque – povo nômade de origem mongol, com forte presença também na Rússia Ocidental, que viveu sua diáspora em meio à Revolução Russa de 1917. Jean nasceu em Charvieu-Chavagneux, sudoeste da França.

Foram mais 12 anos de espera até que a França voltasse à Copa de 1978. Entre sobrenomes de origem italiana, belga, espanhola e alemã, Platini poderia passar despercebido. Contudo, tanto o seu pai quanto a sua mãe estão ligados à Itália. Francesco, seu avô paterno, saiu da região de Novara após a Primeira Guerra Mundial. Já os ascendentes maternos vieram do Vêneto. O elenco que caiu na fase de grupos ainda contava com Jean-Paul Bertrand-Demanes, nascido em Casablanca ao final da era colonial; Gérard Janvion, que deixou a Martinica na juventude; e Marius Trésor, nascido em Guadalupe, capitão daquela seleção e considerado um dos melhores defensores de todos os tempos. O defensor mudou-se à Europa depois de ser descoberto pelo Ajaccio, já no fim da adolescência. Antes do Mundial, inclusive, formou uma dupla de zaga famosa ao lado de Jean-Pierre Adams, senegalês que deixou de ser convocado em 1976. A parceria era conhecida como a “Guarda Negra”.

Depois da decepção na primeira fase em 1978, Trésor e Platini fariam uma ótima Copa em 1982, titulares absolutos no time treinado por Michel Hidalgo. Uma equipe que, além de descendentes de poloneses, espanhóis e italianos, possuía o argelino Jean-François Larios e o marroquino Gérard Soler, ambos de ascendência europeia. Mas eles não eram tão representativos, em campo ou fora dele, quanto Jean Tigana. O meio-campista nasceu no Mali, filho de um malinês com uma francesa. Era um dos jogadores mais talentosos da geração, crescendo já em território francês, onde fez toda a sua formação desde as categorias de base. Emprestaria a sua qualidade na campanha às semifinais também em 1986, ao lado de mais sobrenomes espanhóis, belgas, italianos e alemães. O meio-campo, aliás, contava com a adição de Luis Fernández. O espanhol saiu da Andaluzia para a região de Lyon aos nove anos. Sua família fugia das dificuldades econômicas na Espanha.

Black, Blanc, Beur

Mais 12 anos de ausência nas Copas, até o Mundial de 1998, tiveram um impacto enorme à origem étnica da seleção francesa. O elenco do primeiro título dos Bleus já trouxe outros cenários demográficos, representando bastante a onda migratória da África, assim como de outras antigas colônias, durante as décadas de 1970 e 1980. Foi a primeira vez que a origem diversa foi mais perceptível na cor da pele, embora os sobrenomes indicassem misturas parecidas às já observadas nas Copas anteriores.

O caledônio Christian Karembeu (primeiro jogador de origem polinésia a jogar uma Copa pelos Bleus) e o guadalupense Lilian Thuram viveram na França a partir da adolescência. Bernard Diomède e Thierry Henry nasceram na Europa, mas seus progenitores vieram das possessões nas Américas, enquanto Bernard Lama saiu da França para crescer na Guiana Francesa, até voltar por causa do futebol. Já os pais de Zinedine Zidane deixaram a Argélia quando o país ainda era uma colônia.

Uma das histórias mais singulares é a de Marcel Desailly, filho de ganeses. Nascido em Accra, batizado com o nome de Odenkey Abbey, não conheceu seu pai biológico durante a infância. A mãe se casou com um funcionário do consulado francês e o padrasto não apenas adotou o garoto, como também lhe deu o seu nome. Aos quatro anos, se mudou para Nantes, onde cresceu.  Já Patrick Vieira nasceu em Senegal, filho de um estudante gabonês e, por parte de mãe, neto de um cabo-verdiano. Mudou-se à antiga metrópole durante a infância, com a família que buscava melhores oportunidades.

Youri Djorkaeff, além de carregar o caldeirão cultural do pai Jean, é filho de mãe armênia. A diáspora do país também cedeu Alain Boghossian ao time campeão do mundo em 1998. Por fim, Robert Pirès foi o primeiro a refletir a enorme comunidade portuguesa que se estabeleceu na França. Seu pai, Antônio, trabalhava em uma fábrica na região de Reims e o garoto se acostumou a passar as férias em Ponte de Lima, cidade no norte de Portugal de onde o progenitor veio. Já a mãe saíra de Oviedo em 1963, quando seu pai, avô de Robert, chegou a Reims como jogador de futebol amador.

Dentro deste caldeirão étnico e cultural, a França de 1998 terminou apelidada de “Black, Blanc, Beur”, uma alusão aos negros, brancos e árabes do time. Havia uma clara noção de unidade nacional naquele momento. Nas convocações seguintes à Copa do Mundo, a presença de “black” e “beur” se tornaram ainda mais comuns. As tensões no país, porém, também se renovaram nestes 20 anos, entre as discussões sobre xenofobia, racismo, marginalização, violência na periferia, integração de descendentes de estrangeiros, refugiados, imigrantes ilegais e outros assuntos relacionados. O ato de “cantar ou não a Marselhesa” virou um ponto crítico em relação às noções de pertencimento. Thuram, um dos campeões do mundo em 1998, tornou-se uma voz importante nas discussões.

Nas últimas quatro Copas, a França contou com jogadores das mais diferentes origens, acrescentando outras correntes migratórias. Vikash Dhorasoo possui ascendência nas Ilhas Maurício, André-Pierre Gignac tem origem étnica entre os ciganos, Yohan Cabaye possui uma avó indochinesa. O caso mais emblemático é o de Rio Mavuba, que nasceu no meio do mar, quando sua mãe fugia da guerra civil angolana. Filho de pai congolês, que disputou a Copa do Mundo de 1974 pelo Zaire, o meio-campista foi considerado apátrida até os 20 anos de idade, recebendo a nacionalidade francesa – onde a família se refugiou ainda durante sua infância. Como francês, disputou o Mundial de 2014 pelos Bleus. E vale dizer que, tão significativo quanto, os descendentes de magrebinos se tornaram mais frequentes na seleção. Enquanto Zidane era o único representante em 1998, outros seguiram seus passos desde então – com casos de indisciplina levando a debates sobre pertencimento e identidade.

Em 2011, os entraves quase levaram ao extremo. Diante das discussões sobre os jogadores com origem estrangeira que passavam pelas seleções de base francesas, mas aceitavam defender outro país no nível adulto, a federação local chegou a cogitar a criação uma “cota” a futebolistas africanos e árabes nos seus centros de formação. Conforme a ideia, estes migrantes ou descendentes de migrantes teriam apenas 30% das vagas disponíveis. Antigo dirigente da entidade, Mohammed Belkacemi denunciou o esquema e ajudou a barrar a medida, bastante criticada pela opinião pública francesa. Uma iniciativa que, sobretudo, ignorava o próprio passado dos Bleus.

Que os caminhos fossem diferentes e a intensidade hoje seja maior, a mistura de etnias sempre foi marcante nas campanhas da França em Mundiais. Em outros contextos, Kopa e Platini não deixavam de ser o que Mbappé ou Griezmann representam atualmente – por mais que origem e cor da pele carreguem consigo outros preconceitos, dentro de novos cenários. Perante a lei, de qualquer maneira, são todos franceses. O futebol, um retrato gigantesco da sociedade, também serve de ponto de partida a uma discussão mais consciente sobre o contexto.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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