Copa do Mundo

A escassez de figurinhas da Copa criou um mercado descontrolado na Argentina e até o governo interveio

Figurinhas e álbuns estão em falta nas bancas de jornais argentinas, levando a uma disparada nos preços já salgados dos pacotinhos

Argentina e Brasil possuem tantas similaridades quanto à paixão pelo futebol ou mesmo no caos que ronda todo esse envolvimento. Quando o assunto são as figurinhas da Copa, porém, a insanidade dos argentinos consegue ser maior. Nesta semana, a escassez dos cromos da Panini virou assuntou de estado. Matías Tombolini, secretário de comércio, se reuniu com representantes da UKRA (a associação argentina dos jornaleiros) e também da New Rita, a empresa licenciada pela Panini para produzir os álbuns. A postura do governo foi bastante criticada, em um momento no qual a crise econômica e política da Argentina deveria gerar pautas bem mais urgentes.

Se por um lado a Argentina convive com escassez de divisas para importar insumos fundamentais à economia, foi a escassez de figurinhas que preocupou a Secretaria de Comércio. Os pacotinhos se tornaram artigos raros nas ruas do país. A falta do produto gerou uma infrutífera busca pelas bancas de jornais argentinas e, consequentemente, impactou nos preços. O custo original do pacotinho é tabelado em 150 pesos (salgados R$5,35 na cotação atual), mas chegou a ser repassado por valores de 300 a 500 pesos nos últimos dias. O álbum, que custa 750 pesos, começou a ser vendido por 3 mil.

Considerando ainda a desvalorização do peso, a ideia de colecionar o álbum demanda uma pequena fortuna. Mesmo assim, as figurinhas estão em falta na Argentina. Neste ano, além das bancas de jornais, outros tipos de comércio também fazem a comercialização do produto – como supermercados e postos de gasolina. A acusação é de que há um mercado paralelo criado por distribuidores, que aumentam preços e privilegiam certos estabelecimentos. Segundo a UKRA, a própria New Rita é culpada pela escassez e pelos entraves logísticos.

“Há desabastecimento de figurinhas e álbuns em todo o país. A média de entrega é de 25 ou 50 pacotes por semana, e de 20 ou 30 álbuns semanais por banca. Isso não dá conta de atender nenhum vizinho, de nenhum local. E o que estamos pedindo à Panini é que entregue a mercadoria aos distribuidores oficiais e que estes vendam aos jornaleiros, não que façam como até agora, num mercado paralelo. Convocamos essa reunião para que as bancas sejam os que podem comercializar esse produto, como fizemos sempre”, declarou Adrián Palacios, vice-presidente da UKRA, ao jornal Clarín.

A New Rita, por sua vez, nega que os pacotinhos estão em falta – embora admita que o interesse supera as expectativas e que isso até resultou na compra de novas máquinas para aumentar a produção. O problema é que, como depende do certificado da Panini, há parâmetros que precisam ser atendidos. Não basta simplesmente comprar novas impressoras sem a chancela da matriz italiana. “Queremos transmitir tranquilidade de que todos os álbuns poderão ser completados antes da Copa. Não há inconvenientes além da demora”, comunicou a empresa. Até o momento, a venda de álbuns cresceu 40% em relação à Copa de 2018 e a de figurinhas, 19%. O momento positivo da seleção também parece influenciar a empolgação.

Diante do impasse, a Secretaria de Comércio reuniu as partes numa conversa de uma hora e meia, para tentar resolver os problemas. A promessa é de que os jornaleiros tenham suas demandas atendidas, para que suas vendas não sejam prejudicadas pelo tal mercado paralelo. É uma renda quadrienal ansiosamente aguardada por todas as bancas. O número de pacotinhos enviados para as bancas de jornais deve a aumentar, intercalando-se com o atendimento a supermercados, postos de gasolina e outros comércios.

Outra situação que acontece na Argentina é que algumas figurinhas estão supervalorizadas, tal qual se nota em certa escala também no Brasil. Lionel Messi, por exemplo, já virou artigo de luxo. Há cromos do camisa 10 disponíveis na internet por 8,5 mil pesos – nada menos que R$300. Um exagero que se torna mais gritante por todo o contexto econômico.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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